Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Inesquecível






Uma tela em branco à minha frente sempre me convida a rabiscar idéias que pulsam a todo o momento, quando permito que os meus sentimentos fiquem à deriva. Deixo-me conduzir, então, por lembranças que a marca do tempo não conseguiu alcançar: tudo se faz presente outra vez. Um cheiro, um som e uma voz, e eu já embarquei nesse trem em busca de uma estação chamada saudade. Lá, existe um terreno fértil onde eu vou poder acolher e agasalhar todos os momentos vividos, resgatando-os para, oportunamente, transformá-los em inesquecíveis.


Somos todos passageiros de um tempo, em que as lembranças começam sempre que os primeiros fios de cabelos brancos nos conduzem ao porto solidão. Nesse lugar, ficamos a sós e em meio a esse silêncio interior, buscamos em nossas memórias por momentos intangíveis.


Uma casa com pomar e imensos canteiros é a mais bela tradução de uma infância feliz. De manhã, ao primeiro raio de sol, lá estava eu, toda faceira, recolhendo todos os cajás que as minhas mãos infantis pudessem alcançar. Depois vinham as pinhas, as goiabas e as groselhas, muitas vezes colhidas sob uma chuva fina que só contribuía para deixar o amanhecer mais encantador. Café da manhã tomado, corria eu para os canteiros de flores e hortaliças, onde os pés de alface, de coentro, de tomate e de pimentão, molhadinhos do orvalho da madrugada, ofereciam aos meus olhos um espetáculo de cores em perfeita sintonia com a suavidade do perfume da rosas, das margaridas, dos cravos e dálias que enfeitavam o jardim da minha mãe. Esse é o cheiro... Inesquecível.


Foi há tanto tempo e aqui dentro - do coração - parece que aconteceu ontem: um rádio antigo tocava a música o ‘Lago dos Cisnes’ embalando a novela que se passava às 17h30min, para logo em seguida, a primeira batida das l8 horas, a suave ‘Ave Maria de Gounod’, se fazer ouvir. Depois, após o jantar, íamos todos à sala do piano, ouvir Ray Conniff em suaves acordes, transformando a noite em uma doce melodia. Esse é o som... Inesquecível.


Uma rede na varanda – para ler gibis - um balanço de cordas no pé de flamboaiã, brincadeiras com bola de gude, com bambolê, jogar amarelinha e brincar de casinha, trazem hoje, aqui e agora, o eco de uma voz... Inesquecível. “Menina, passe já para dentro! Está na hora de tomar banho, almoçar, ir ao colégio, dormir, acordar, apanhar cajás...”.


É a vida que continua gerando lembranças e trazendo saudades: Um cheiro... Um som... Uma voz... Inesquecíveis.

Um comentário:

Lúcia disse...

Feleizes daqueles cuja infância tem som de frutas, flores e melodia. E é tão simples e tão absurdamente possível! Adorei!