Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Contradições





Ando exercitando as minhas contradições. Ora vasculho gavetas e abro os armários em busca de lembranças que falam de nós dois – e me escondo no passado – ora deixo-as de lado, e sigo alimentando esse amor tão presente, que as palavras me dão: escrevo e através da escrita eu conto mentiras de amor, inverto o dicionário da dor e transformo palavras-saudade em sentimentos atemporais, criando a ilusão de que o sonho, ainda, não acabou.

domingo, 3 de agosto de 2008

Carta de Alforria





Meu passaporte para sair de você, amor, são as palavras, e feito escrava em sua senzala eu anseio pela liberdade, que um dia elas hão de me dar. Andei negociando a minha carta de alforria rumo à terra da felicidade, mas ela me foi negada.

Por que falar de amor é a minha sina? Andei sondando a possibilidade de levar o meu coração para fazer o ‘recall,’ e em troca eu daria – além dele – uma mega-sena inteira pelo direito de adquirir um coração vagabundo, mas isso também me foi recusado.

Como uma bomba de efeito retardado, o amor explodiu em minha vida e me levou a crer que seria único e inalienável, não deixando espaço às palavras para contestação. Puro engodo, propaganda enganosa.

Há tempos, que tento argumentar, fazer valer os meus direitos, recorri até a um ‘habeas corpus’ para me livrar das ilusões, mas feito sentença transitada em julgado – da qual não cabe recurso – eu fui aprisionada em um dicionário, onde só existem palavras de amor.

Foi aí que pensei: ah, quisera poder desfolhar todas as pétalas de rosas, ainda que politicamente incorreto, para fazer uma passarela onde o amor pudesse caminhar livre, leve e solto - como antigamente - mas não acredito mais, que ele possa existir! Na passarela atapetada por onde, hoje, os meus sonhos desfilam, eu fui procurar por ele e não o encontrei... Enfim estava livre, pensei! Doce ilusão, o amor perdeu o chão, mas foi procurar abrigo nas estrelas e é de lá que ele me manda notícias, sempre, nas minhas noites de solidão.

Coração Sem Juízo





Meu coração sem juízo ultrapassou as fronteiras do razoável e foi pedir abrigo às lembranças de nós dois, vasculhando armários, explorando memórias já esquecidas e semeando saudades onde só existiu solidão.

Tentei pervertê-lo, mas foi em vão! Recorri à imaginação, evoquei o passado com todas as suas dores e de nada adiantou. Feito posseiro – dos meus desejos secretos - ele se instalou confortavelmente no sonho de reaver o tempo perdido e pediu uma segunda chance ao amor.


Ah, que amor despudorado tem esse meu coração sem juízo! Vive sempre incandescente, qualquer que seja a estação e, além do mais, esquece que eu expus a minha dor em saudades, e que, nas entrelinhas das minhas cartas, as palavras estavam sempre encharcadas de amor. Amor que atravessou o tempo e se perdeu em esperas inúteis, deixando as minhas mãos órfãs dos exercícios das carícias e das trocas de ternura.

Preciso reinventar o meu afeto e dele, ocultar-lhe a face. O passado já não cabe dentro de mim... Quero a minha carta de alforria!

sábado, 2 de agosto de 2008

Tempo



Já houve quem indagasse por que falo tanto do tempo – esse que se conta pela sucessão das horas – e eu lhe respondi: procuro capturar dele os momentos de felicidade, pois, um dia, o amor fez de mim o seu cais e com a urgência de um passageiro em trânsito deixou meu coração dilacerado e partiu. (...).


Ando recolhendo do meu desejo a pressa em espalhar afetos, somar ternuras e multiplicar carícias, mas o tempo urge em época de relações virtuais, quando não se pode reclamar instantes perdidos e oportunidades passadas. Fazer o que então, se o ponteiro do relógio em sua inexorável marcha me tira o sabor da conquista e o poder da sedução?

Preciso de tempo e ele anda curto! O meu amor é lento em mãos de ternura e o meu mapa da felicidade está cheio de pegadas na areia; tem sempre uma onda que vem - apaga os vestígios - e escreve pelo caminho a palavra saudade. Preciso de tempo para me instalar delicadamente em seu coração e encontrar no mapa do amor, o caminho que me leve de volta às estrelas.