Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A Retirante



Ponto-e-vírgula foi o espaço de tempo – uma pequena pausa- que eu concedi a você antes de me despedir. Agora, ensaiei uma resposta para sua pressa em voltar: Não dá mais, acabou, vou embora... Adeus!
(...).
Sou retirante de mim mesma fugindo do solo árido do meu deserto interior. Desertei! Estou desabrigada, sou uma sem-teto. A terra dos meus sonhos, o meu chão batido de esperanças, outrora fértil, nada mais produz a não ser erva daninha. A minha língua-pátria já não me entende: duelamos no mundo das idéias, e tudo que conseguimos é uma trégua em meio a tantos desacertos.
Sou uma estrangeira em minha casa! O que falo e o que escrevo, é uma nota promissória rasurada. É fio de bigode partido. É palavra sem valor!
Não dá mais, acabou, vou embora... Adeus!
... Mas eu volto! Eu e esse meu amor previsível.

domingo, 26 de outubro de 2008

A Fogueira







No exercício da minha vida eu escolho a alegria, o sorriso e o encantamento pela arte do viver. Não cultivo tristezas, só lembranças, e essas me são necessárias vez por outra, a fim de evitar que eu esqueça quem já fui, e o que sou.

Às vezes, me pego moendo lembranças e “segredos de liquidificador”, então, acendo a fogueira dos meus devaneios e me permito revisitar o passado. Nessas horas eu coleciono saudades, e desconstruo mitos. Faço um inventário do meu passado, páginas e páginas são amassadas, destruídas, jogadas na cesta de lixo, e com elas, esse amor mal resolvido vai se transformando em cinzas.


As chamas da fogueira já não aquecem mais. O amor consumiu-se... E eu penso: da próxima vez “seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito.”

domingo, 19 de outubro de 2008

Brincar com as Palavras



Brincar com as palavras me permitiu exercer a face oculta dos meus sentimentos inconfessáveis. Dei-lhes um nome: saudades, e a partir daí, pus em prática a atividade lúdica de manusear as letras do alfabeto do amor. Peguei-as, e com elas, criei as minhas contradições. Ora, somava-lhe um sinal – uma pausa – e lá estava o meu amor latente, entre vírgulas, disfarçado; ora, ele assumia a sua intrepidez e dava abrigo aos meus desejos mais secretos.

Hoje, em vôo livre sobre as asas dos ventos, estou em busca da minha liberdade perdida. Vou recolher as palavras soltas pelo ar, para tentar resgatar o quanto de mim que ficou perdido neste espaço feito da poeira dos meus sonhos. Palavras mágicas, doces e caramelizadas, produtos de uma safra, doados, e sempre em provisão: amor, carinho, ternura e paixão, não encontram mais ressonância. (...).

Estava em busca de um passaporte que me libertasse desses sentimentos, por isso, escancarei a saudade até o amor esgotar-se.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Esculpidos na Areia




Às vezes, passamos uma vida tentando parecer com os outros, copiando modelos que julgamos perfeitos, e nos perdemos. Perdemos a nossa essência, aquilo que nos torna único, singular, especial. Em outras, construímos idéias sobre o par perfeito; aquela pessoa pela qual esperamos uma existência inteira e que sem ela, nada mais faz sentido. Em um determinado momento, capturamos esse instante, esse encontro ideal, e cristalizamos essas lembranças produzindo um efeito devastador em nosso futuro. Esculpimos a imagem da felicidade e nela projetamos um rosto, uma voz e um cheiro. Está feito o estrago, criamos o mito! Fruto de nossas carências damo-lhe poderes sem limites. E a partir daí, passamos a esculpir os nossos sonhos na areia da praia.

Então, um belo dia, vem o mar em seu sorriso de espumas e apaga os vestígios desses amores impermanentes, riscando a folha corrida dos momentos felizes e trazendo-nos de volta à realidade.
Mitos esculpidos na areia se desfazem... E outros nascem confirmando os adágios: ninguém é insubstituível e nada dura para sempre.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Deixar ir!...




Abrir mão de um desejo, de lembranças, fatos e pessoas que fizeram a diferença em sua vida, é uma das decisões mais difíceis que o ser humano pode tomar.

Deixar ir!... Fazer-se poeira de estrada, de estrelas e de sonhos. Como é custoso trabalhar o desapego!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O Cotidiano e as suas Certezas



Gosto do cheirinho do café, do aroma que sai do forno quando os pães quentes e crocantes avisam que já estão prontos, e quando a cestinha cheia de biscoitos anuncia que o fim de tarde se aproxima. É o cotidiano e as suas certezas se fazendo presente nas coisas simples e prosaicas do dia-a-dia.

Assim é também o meu amor por você. Tem gosto de café com leite e pão com manteiga. Nada mais trivial!

Acredito que, em regra, isto é o que incomoda muita gente: saber-se amado e ponto. Nada mais! Nenhuma montanha russa a deslizar emoções violentas, nem picos de adrenalina circulando pelo seu mundo de fantasias. Somente a rotina, a doce rotina recolhendo as asas da sua liberdade em prol de uma canção de amor.

E recolher não é cortar! É juntar, reunir, receber e abrigar. É amor somado, vida e paixões compartilhadas, embora que, para muitas pessoas, as asas de sua liberdade sejam um preço muito alto a pagar pela conquista de um só amor.

Prolongar a vida em dias de flores e cantos de sabiás é a aspiração maior de todo ser humano, mas viver o cotidiano em seus dias iguais, talvez seja o grande desafio de quem sabe que: o “seja eterno enquanto dure” só faz sentido, para quem aprendeu a sobrepujar os seus desejos e a viver o amor em sua real plenitude.

O cotidiano e as suas certezas, eis o preço da felicidade!

sábado, 4 de outubro de 2008

Adrenalina, seu Nome é Amor!




Abdiquei de dar vida as minhas palavras, para não trair o amor que ainda sinto... O terreno escorregadio em que caminho, hoje, está cheio de papéis amassados e de letras de um alfabeto em desuso. É um amor fora do tempo jogado ao lixo para reciclagem. É o meu amor!

Ah, essas mulheres que amam demais, como se tornam cansativas e previsíveis!

A rotina cansa e o amor envelhece. (...).
A adrenalina – esse amor que está em voga - segue o seu percurso diário em busca de novas emoções: o sangue lateja e o desejo aparece no desvio, na curva ou no atalho, para se tornar igual lá na frente, e a vida se fazer rotina de novo.

Ah, essas mulheres que amam demais, como se tornam cansativas e previsíveis!

Preciso reciclar as minhas palavras, colocar os meus sentimentos no tabuleiro de xadrez e dar-lhes um xeque-mate em nome da modernidade, da adrenalina e... Ah, desculpe, o nome disso é amor!

Ah, essas mulheres que amam demais!... Reciclar é preciso!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Passaporte Perdido




Sou uma romântica incorrigível, dessas que embarcam na saudade e perdem o passaporte, tornando-se refém das lembranças e dos amores que o tempo levou. Numa época de relações descartáveis, ainda, não fiz do meu corpo a capela dos meus desejos. Na contramão do tempo eu estou à deriva! Mergulho fundo nas águas turvas do meu passado para ver se encontro racionalidade para as minhas escolhas – as saudades sentidas - e nelas, encontro a saída: quando o amor fez bonito em nossas vidas e nos deixou um legado de boas recordações, amar é jamais ter que despedir-se.

Na intimidade das minhas lembranças há buquê de rosas contando uma história de amor: há um pão quentinho recém saído do forno, um ouvido atento e uma cumplicidade amorosa; uma coca-cola resgatada numa noite escura e perigosa, uma intimidade de silêncios que as palavras não conseguem traduzir e um dar-se as mãos com ternura, que nenhuma relação, por mais íntima, é capaz de alcançar.

As minhas saudades carecem de muito espaço, elas se fazem presentes, ainda, no arrepio do meu corpo quando escuto a música, tema da nossa história de amor. Elas aparecem quando estupefata constato que a felicidade, de hoje, é uma eterna busca por segurança e não por intimidades... E aí, eu lembro você e o seu amor sem igual.

Ao me debruçar, neste momento, sobre as páginas viradas da nossa história, eu tomo emprestadas as asas de um querubim e com elas alço vôos em sua direção para dizer que: “começaria tudo outra vez se preciso fosse, meu amor”, pois amar você valeu à pena... Demais!

(...).

E o passaporte? Ah, esse vai continuar perdido!