Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sábado, 22 de novembro de 2008

A Minha Casa, tem História!






A minha filha, preocupada com a minha segurança e o meu bem-estar, verbalizou dessa maneira o seu receio:
- Minha mãe, venda esta casa! Ela ficou espaçosa demais para você, depois que saímos.


Respondi-lhe no ato:
- Filha, a minha casa é um país dentro do meu país. É a minha pátria de intimidades. Ela tem cor, cheiro, som, passos e lembranças. Ela tem história! ... E se me tiram o chão, eu me torno estrangeira de mim mesma.

Ela ainda tentou argumentar, mas foi vencida pelo peso das minhas lembranças.
Disse-lhe eu: Triste é o homem, que não cultiva suas memórias!

- No passado, morei em outra casa, por força das circunstâncias fui obrigada a deixá-la e até hoje, depois de tantos anos, o caminhão de mudanças continua estacionado no mesmo lugar. É que uma menina de olhos tristes e lágrimas silenciosas, vendo-se sem saída, indagou ao motorista: - moço tem espaço aí para levar os meus pertences?

Ele respondeu: - tem, pode ir buscar. Ela, então, olhou-o bem dentro dos olhos e pediu-lhe que a ajudasse a transportar às suas lembranças. Aqui estão: a minha infância, e a felicidade correndo no meu corpo de criança, sorriso fácil, abraçando o mundo. Tem o pé de cajá – cobrindo de amarelo o chão, na madrugada - a goiabeira de onde recolho os frutos quando abro a janela do meu quarto, os pés de pinha, de groselha, de abacate e de mamão. E ainda, o flamboaiã amigo, onde instalei um balanço de cordas para recolher das nuvens, o algodão doce das minhas fantasias. Tem a horta com o verde das alfaces, coentros e pimentões lembrando-me a cor da esperança, e o tomate em seu tom vermelho, dizendo-me que em breve será tempo de paixões. Ah, não posso esquecer o jardim com suas rosas, dálias, cravos e margaridas. Como é bonito ver o orvalho da madrugada depositar as suas gotículas sobre as flores, e sentir o perfume que delas emanam misturando-se na manhã seguinte, ao cheiro que vem da cozinha. E, como é alegre a cozinha da minha mãe e doce a sua figura, a mexer no tacho de canjica, a costurar as pamonhas, a assar o milho verde, preparar a tapioca fresquinha e um delicioso bolo baeta, sempre, acompanhado de uma xícara de café. Tenho, ainda, passeando sobre as minhas memórias, o cheiro da galinha de cabidela, do cozido inigualável, dos famosos bolinhos de bacalhau, das rabanadas e dos perus assados no forno, ajudando-me a lembrar dos sons.

O crepitar do fogão à lenha é um espetáculo à parte: lembra-me o meu tio Chico e os seus fogos de artifícios nas noites de São João. A fogueira acesa provoca o calor que nos aquece, nessa época em que o vento frio anuncia que a canção da chuva vai tocar em nossos telhados. Um som de piano, e as minhas tias Marluce e Laice a dedilharem canções de amor, noite adentro; só interrompido quando o canto do galo já se faz ouvir. Nessa hora, os passos suaves de mãe Julia se aproximam e ela nos diz que a manhã já se avizinha, desejando-nos bons sonhos.

O beijo de boa noite, agora, seu moço, tem gosto de saudades. Os contos de fadas e todas as fantasias que povoam o meu mundo infantil, com seus jogos e brincadeiras, pedem socorro: Por favor, ajude-me a transportar as minhas lembranças! Tem espaço aí?

O homem olhando-me entre lágrimas, disse: - menina, essa mudança eu não faço por dinheiro nenhum! A sua casa tem história. E partiu, deixando o caminhão estacionado para nunca mais voltar.

domingo, 16 de novembro de 2008

Máscaras



Esta aí sou eu!

Eu plural, cheia de disfarces, mascarando o rosto para preservar a alma. Vivo pelas coxias da vida encenando uma peça que não é a minha. As palavras se vestem de colombinas e saem por aí, dissimulando sonhos, ocultando desejos. Elas não me representam, são apenas uma pálida impressão da alegoria do meu viver.

Anseio a liberdade dos abismos, a violação dos segredos! Poder mergulhar fundo nas profundezas do meu ser e de lá emergir, inteira, absoluta, sem máscaras, sem vestes; e desnuda, assumir sem pudores o que sou.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Uma rua... Uma saudade!






Hoje, ao lembrar de uma rua eu me senti aquecida.

É que outro dia, visitei a General Osório, no centro da cidade, e trouxe na bagagem lembranças, para colocar nas gavetas já tão abarrotadas da minha alma. No estojo da memória guardei os mais belos anos da minha vida: os anos dourados da juventude, com as suas inquietações, arroubos, paixões avassaladoras, e ainda, no rastro das recordações; um rosto, uma voz, uma mão amiga – minha tia Laice – ajudando-me a tecer fantasias.

Ao me entregar ao exercício de aquecer a memória, deleito-me com o prazer inefável dos cheiros e aromas que perfumam o ambiente, e compõe a cena de uma rua chamada saudade.

As reminiscências desfilam, neste momento, ante os meus olhos: são as cinzas do passado espalhando ternuras, perpetuando encantamentos, e trazendo sons adormecidos de palavras que escreveram a mais bela canção de amor: solidariedade.
(...).
E agora, feito bolas de sabão ao vento, as lembranças se dissipam e com elas, os personagens, seus perfumes e a trilha sonora de uma época onde o amor guardava poesia.

domingo, 2 de novembro de 2008

Um Buquê de Margaridas





Amo as flores e, entre elas, escolho as margaridas.
No amarelo está o sol a cada amanhecer, possibilitando-nos um recomeço, uma nova vida; no verde a esperança modelando os nossos desejos, e no branco, a paz dos lençóis desfeitos.
Há transbordamento de alegria quando suas pétalas se abrem em sorrisos para o sol; alvoroço e contentamento, quando reunidas desfilam beleza e vestem de cores às campinas.
Um buquê de margaridas abastece sonhos, é vida pulsante, reedição de histórias de amor. É a paixão que ainda goteja, por entre as dobras dos lençóis desfeitos.
Um canteiro de margaridas é convite ao amor; cama armada em plena luz do dia à espera dos amantes, sensualidade da natureza fazendo pulsar os nossos corações.
Há um buquê de margaridas espargindo sonhos, e cultivando esperanças em meu caminho...

sábado, 1 de novembro de 2008

Canção de Amor



Estou tirando férias de mim. Já fiz e refiz a mala inúmeras vezes e não sei o que levar: sobram-me dores, saudades e desejos... Na dúvida eu quero:

Quero me esquecer gente grande, retirar as máscaras e soltar as amarras;
Quero assumir sem pudores a menina-moça que eu deixei lá atrás - um dia - e com ela, resgatar todos os meus sonhos;
Quero percorrer os campos de girassóis, ver a dança das borboletas em seus volteios - nos jardins das margaridas – e saldar cada amanhecer com o sorriso das flores;
Quero, no entardecer dos dias, ouvir a canção da chuva tocando na minha janela e o colírio do arco-íris se desmanchando em cores para alegrar a minha alma;
Quero alcançar o pôr-do-sol com as mãos e recolher as estrelas que vêm a seguir;
Quero da noite a lua cheia, o riso solto da madrugada a desenhar ternuras pelo meu corpo e, dessa alegria, fazer uma canção de amor pra você.

Este texto é uma homenagem a Gilberto, o homem que me ensinou a dimensão da palavra ‘amar’.