Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Mito da Felicidade







A fábrica das nossas ilusões, quando éramos crianças, nos credenciava a dar largas à imaginação e lá, vestíamos a fantasia dos nossos sonhos. Bons tempos aquele, que nos permitia o ingresso em um mundo cor-de-rosa... Desde então, enveredamos pelas ruas das quimeras e nos quedamos a sonhar, sonhar e sonhar.

Que mundo utópico foi esse que construímos? E para onde vamos nesse momento de desconstrução?

-Ah! O nosso universo de utopias teve o seu nascedouro nas histórias infantis. Lá, onde as reticências imperavam e o “se” governava soberano, criamos um reinado de possibilidades e fomos, aos poucos, eternizando ilusões. Dessa época herdamos características que nos acompanham até hoje: a inocência, a boa fé e o desejo de ser feliz para sempre.

Pobres meninas sonhadoras! Criamos o mito do príncipe encantado e lhe entregamos a direção de nossas vidas, com a exigência de que ele nos fizesse felizes para sempre. Mas, ao despertar, encontramos um mundo real em preto e branco, para administrar e fomos obrigadas a nos despedir dos nossos devaneios.

Pobres meninos sonhadores! Perdidos, também, em seu mundo faz-de-conta, assumiram poderes que não lhes competia. E, agora, reféns de um compromisso que lhes confere status de super-homens, perdem-se na curva do tempo e atabalhoados não sabem como lidar com a incompetência de gerenciar sonhos, numa sociedade tão moderna...

Recomeçar talvez seja a palavra desse momento em que nos apercebemos apenas mulheres e homens humanizados. Deixar para trás velhos sonhos e abrir-nos para o novo. Nem príncipe nem princesa, nem super-homem nem Cinderela. Desconstruir imagens, mitos e perder poderes em nome de uma felicidade possível, onde não haja vencidos nem vencedores, talvez seja o caminho que nos conduza a um novo modelo de realidade: homens e mulheres companheiros inseparáveis em busca de autoconhecimento. Quando, enfim, isto acontecer, a nossa fábrica de ilusões terá as suas portas cerradas e nós estaremos livres dos sonhos que nos distanciam da realidade.

sábado, 5 de dezembro de 2009

A Luta pela Cidadania Feminina






Muito se comenta sobre o avanço que a mulher tem conseguido, na luta pela sua emancipação, em nossa sociedade. Acompanhando a história, vemos que antigamente o seu papel ficava restrito às funções domésticas e a obediência ao marido. Hoje, em pleno século XXI, celebramos grandes conquistas que beneficiam não só a nossa vida, como também, a da humanidade.

Ao enveredarmos pelos séculos passados, vamos seguir a trajetória dessa personagem feminina, que durante muito tempo foi vista por uma sociedade patriarcal, apenas como um instrumento reprodutor e propriedade do marido. Na luta para adquirir o direito de instruir-se, votar, participar ativamente da vida socioeconômica e de ocupar postos governamentais, temos como referência pessoas como: Nísia Floresta, Bertha Lutz, Betty Friedan, Simone de Beauvoir, dentre outras, cujas ideias foram decisivas para fortalecer a luta pela cidadania da mulher.

Ao lembrarmos o fatídico oito de março de 1857, em Nova York – "quando 129 operárias morreram queimadas por que ousaram reivindicar a redução da jornada de trabalho e o direito à licença-maternidade" - devemos celebrar tantas vitórias quantas sejam necessárias para que, hoje, possamos dizer com orgulho: sim, nós podemos!

Podemos, neste século XXI, continuar a luta – iniciada por essas mulheres – por uma sociedade mais justa, onde direitos e deveres se equivalham no que diz respeito à igualdade salarial, ao acesso a cargos públicos, a uma maior participação na vida política do nosso país e, principalmente, na questão do constrangimento físico ou moral. Que a Lei Maria da Penha, um marco na luta contra a violência doméstica – nesta década - seja uma conquista que possibilite a abertura de novos horizontes na tão sonhada equiparação entre os direitos do sexo masculino e feminino, pois só dessa forma, caminharemos lado a lado, com respeito e admiração, não mais homens nem mulheres e sim, cidadãos.

Sendo assim, a emancipação feminina, fruto de uma longa caminhada no curso da história e uma luta permanente em busca da igualdade, será uma celebração que virá para atender a uma justiça social que se faz premente, uma vez que, como cidadã, nós contribuímos para o progresso socioeconômico e político da nação.

sábado, 21 de novembro de 2009

Afeto à La Carte



Se alguém nos pedisse a definição do amor em uma palavra, no sentido de encontro, aconchego e encanto, nós o convidaríamos a conhecer o lugar onde cores, sabores e cheiros se misturam para produzir o afeto à la carte: a cozinha.

Cozinhar é a forma mais simples e genuína de dizer: eu te amo. É a maneira artesanal de se distribuir carinho por meio dos alimentos. E nada melhor que aproveitar as cores dos artefatos, ingredientes e temperos diversos – que fazem parte desse ambiente - para criar aquela comida especial e homenagear a pessoa que amamos. É o amor entregue com açúcar e com afeto.

A essa altura, quem não lembra da cozinha de sua casa em tempos de festas: carnaval, páscoa, são joão, natal..., com seus ruídos, sons e cheiros reacendendo lembranças? Palco de tantas histórias engraçadas, de reuniões familiares acompanhadas de uma xícara de café e de um saboroso bolo de milho, macaxeira ou fubá. A cozinha reflete o calor, a ternura e a simplicidade de quem sabe receber com arte e carinho. É o afeto à la carte posto à mesa em sistema de gratuidade.

Nesse momento, vamos ao encontro da nossa memória afetiva e revemos cenas do mais puro amor: uma toalha de xadrez, pratos brancos sobre a mesa, um jarro com flores do campo, uma cesta de pães quentinhos, ovos mexidos, queijos, presuntos, bolos, biscoitos, tapiocas, sucos, leite e café; compõem o cenário de uma linda manhã de verão. Mais tarde, uma bela feijoada de frutos do mar, um feijão tropeiro, uma carne assada com macaxeira e manteiga de garrafa, uma boa moqueca de peixe, um baião de dois, virado à paulista, frango com quiabo e tantas opções quanto seja o desejo de agradar e fazer feliz a quem se ama. À noite, dispensando o luar e as estrelas, podemos jantar a luz de velas, sentindo o cheiro do café moído na hora, a velha canja de galinha a fumegar no prato, um cuscuz quentinho servido com queijo de manteiga e rodelas de inhame com sobras da carne assada do almoço. Tudo servido ao ponto: carinho, ternura, tempo e disposição de ver, ouvir e sentir o outro, na intimidade de um espaço, onde o riso solto, a alegria e a descontração, têm a difícil missão de adoçar o sal e o fel de cada dia.

Por tudo isso, sempre que alguém nos pede para falar sobre esse sentimento, lembramos da cozinha, ponto de encontro e encanto, espaço onde o festival de cores brinca de fazer inveja à beleza do arco-íris... Lugar para servirmos o amor com açúcar e com afeto.

sábado, 14 de novembro de 2009

Ah, Se...






Um telefonema na noite, uma morte anunciada... Perplexos, nós nos indagamos: - “por que será que as pessoas não se acostumam com ela e de onde vem esse assombro, esse estranhamento, essa dor?”

- Culpa, parece a resposta plausível!

Vivemos a esquecer certas conjugações: amar e cuidar, por isso nos surpreendemos tanto quando na calada da noite ela – a morte - nos chega sorrateira e desfaz a nossa tola pretensão de que o relógio parou e que temos toda a eternidade para fazer o que urgia ser feito, aqui e agora.

Ah, se... Essa é a resposta que apresentamos quando a inexorabilidade do tempo nos confronta com os marcadores das horas e vemos que é tarde para falar de amor, amizade, saudade, ausência, solidariedade (...).

Ah, se...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O Amor em Digitais






O tempo, construtor de sonhos, pulou a cerca das horas e modernizou o amor. Hoje, basta teclar www.solitarioprocura.com.br ao alcance das nossas mãos, podemos escolher com quem partilhar a nossa vida. É o amor na era digital.

Fruto do avanço tecnológico, o computador, essa ferramenta que encurta distâncias e transforma a rotina das pessoas, provocou uma verdadeira revolução na maneira como elas se relacionam. Basta uma tecla acionada e escolhemos o amor em digitais, que pode ser: louro, moreno, alto, baixo, gordo, magro, olhos azuis, castanhos...
Se antes o espaço geográfico era motivo de distanciamento entre os casais, agora, com apenas um toque, uma janela se abre e podemos visualizar e ouvir quem está do outro lado da tela, atenuando, assim, a solidão e a saudade tão comuns àqueles que mantêm relacionamentos à distância. Além disso, temos a vantagem de disfarçar por meio da economia de palavras, os erros do nosso português ruim, pois numa linguagem simbólica não virou naum, você virou vc e também virou tb.

Por outro lado, se hoje é possível dispormos desse instrumento para facilitar a comunicação e diminuir distâncias, é importante que façamos uma indagação: - “que afeto é esse feito de ausências e que sobrevive sem o cheiro, o tato e a emoção do olhar?” O amor, vivenciado dessa maneira, é a antítese daquele que guarda na pele o perfume, na boca o sabor do último beijo e no olhar, a intensidade da paixão. Longe dos sentidos perdemos o melhor da relação: o encontro, o brilho no olhar e a possibilidade de guardar num diário, não virtual, aquela rosa branca - lembrança de uma tarde de carinho - o papel do chocolate preferido e uma mecha de cabelo envolta, cuidadosamente, num laço de fita vermelha. Saudades perfumadas, indeléveis e tão antigas quanto aquele coração esculpido na árvore que, ainda hoje, conserva as nossas promessas... Um amor também em digitais, mas presente, que não possamos esquecer e ignorar ao simples toque da tecla “delete”.

Por tudo isso, só nos resta admitir o sucesso dessa conquista, fruto da modernidade, mas lamentar que o tempo que pulou a cerca das horas, não seja o mesmo que tingiu de sépia as páginas onde registramos a nossa história, porque lá, nas folhas perfumadas de um velho diário, vamos encontrar a vida real ao vivo e em cores, seus encontros e desencontros e um amor construído dia após dia.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sistema de Cotas - A Cor do Brasil






O sistema de cotas para negros, nas universidades públicas brasileiras, nos coloca diante da realidade de um fato que há muito tentamos maquiar dando-lhe a feição de jeitinho brasileiro, ou seja, jogando para debaixo do tapete ou para escanteio, uma discussão que não nos obrigue a olhar de frente para o que evitamos assumir: somos uma nação racista e elitista e, por conseguinte, temos um sistema de educação excludente.

Defendemos a política de cotas porque é mais fácil do que reparar décadas e décadas de omissão, em relação aos direitos das minorias. Fingimos que não temos preconceito de raça e ignoramos a desigualdade social, presente também nas salas de aula, e assim vamos protelando “ad infinitum” as soluções que minimizem a distância entre brancos ricos, brancos pobres e negros de terem acesso à educação e à cultura em igualdade de condições. Proferimos, solenemente, um discurso a cada ano de eleição em favor dessas minorias e esquecemos de pô-lo em prática, tornando-o vazio e inaplicável. Por isso, para aliviar a nossa consciência e responder ao clamor dos excluídos, criamos um sistema de cotas e com esse ardil vamos adiando os investimentos necessários à educação de base, protelando ainda mais o sonho dos que esperam por uma justiça social que nunca chega, e obrigando-os a contentar-se com as sobras de um banquete para o qual nunca são convidados, apesar de habitarem a mesma casa.

Se pararmos para analisar a questão das cotas, veremos que, além de ser um fator de segregação, ela em nada contribui para que o aluno se integre ao ambiente acadêmico, uma vez que a própria exclusão já o diferencia e marginaliza, humilhando-o em sua dignidade. Ao ingressar na universidade pela política de cotas, o ser humano sente-se estigmatizado – aquele ali é cotista! – e aviltado em sua cidadania. Cobram-lhe esforço e dedicação dobrados pela oportunidade oferecida, e ainda são olhados de soslaio pelos seus pares numa clara alusão à sua condição social e a cor da sua pele.

Precisamos mudar isso e o movimento pela inserção de negros, na universidade, tem que continuar lutando por uma justiça social que abranja o direito que lhe outorga a carta magna desse país; de que todos são iguais perante a lei. E em sendo assim, que lhes devolvam a cidadania e o respeito, em igualdade de condições: verde, amarelo, azul e branco. A nossa cor... Brasil!

sábado, 3 de outubro de 2009

Com a Vida nas Mãos





O aborto continua a ser discutido em todas as camadas da nossa sociedade, provocando debates calorosos e acirramento nos ânimos, de quem é a favor ou contra esse tema tão controverso.

Muito se tem falado sobre o assunto e várias são as razões pelas quais se busca um consenso. Debate-se o direito das vítimas de estupro, das gestantes com gravidezes de risco de morte e, ainda, daquelas em que há possibilidade da criança nascer com grave deficiência. Os que defendem a legalização invocam pra si, entre outros argumentos, o direito de escolha baseado no princípio da liberdade, arrazoado esse que encontra eco em boa parte dos que levantam a bandeira do aborto, como um direito inalienável de se dispor do corpo como melhor lhe aprouver. Afirmam que, descriminalizá-lo é tirar da clandestinidade uma prática que tem provocado problemas de saúde e morte, de um incontável número de mulheres expostas a toda sorte de procedimentos malfeitos, quando realizados por pessoas que não têm habilidade nem conhecimento específico para tal prática.

Ainda que pesem todos esses argumentos, os que lutam contra essa ideia alegam aspectos legais, éticos, morais e religiosos para proibir a sua legalização. Debate-se, por exemplo, o direito da gestante sobre o feto e a partir de que momento ele pode ser considerado humano ou vivo (se na concepção, no nascimento ou em um ponto intermediário). Discute-se a dor pela qual passa o feto durante o procedimento e as conseqüências psicológicas na vida da mulher. Põe-se abaixo, ainda, o argumento de que uma criança indesejada teria sérios problemas no futuro, uma vez que não se pode medir o que seria bom ou ruim na vida dela, se lhe tiram o direito de escolha, entre a vida ou a morte. E além do mais, alegam a favor do seu discurso que a vida humana pertence a Deus.

Por todos esses aspectos, percebemos o quanto é difícil nos posicionar, tendo em vista que o tema ainda será motivo de intensos debates, a fim de que se encontre uma solução que passe pelo respeito à vida e a preservação dos direitos humanos, que tenha na liberdade o seu maior símbolo. Enquanto isso, só nos resta esperar que o bom senso prevaleça para que, no futuro, possamos decidir, livre e conscientemente, sobre matéria tão polêmica.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Cárceres da Vida






Se eu pudesse fatiar o tempo e transformá-lo em pequenos pedaços, certamente construiria uma bela colcha de retalhos, feita das minhas lembranças e tecida ao som dos acordes que encantaram a minha vida. Dirão alguns: mais isso é saudosismo! E eu respondo, é sim senhor!

Sou cria das águas da chuva, dos córregos, das árvores, dos contos de fada, do atirei o pau no gato tô tô e do tempo em que a palavra saudade era sinônimo de bem viver. Tenho as raízes da minha infância fincadas no chão batido das boas recordações e por isso vivo imersa em lembranças que não me deixam esquecer as brincadeiras que, hoje, veem à tona pelas lentes do passado: bastava o céu escurecer e lá estava eu, sorriso aberto abraçando a chuva que lavava o corpo e banhava a alma sedenta, das águas de março. Fui moleca de subir em árvores, telhados, de jogar com bolas de gude, de brincar de amarelinha, de venda, bambolê, esconde-esconde, casinha e outras atividades lúdicas que deram um colorido intenso ao meu viver.

Saudade é sempre um tema recorrente quando nos deparamos com outra maneira de viver a idade da inocência e da alegria: são crianças trancafiadas em casa, encarceradas na solidão dos apartamentos, privadas do exercício das descobertas e algemadas junto ao televisor, sendo induzidas pelo consumo desenfreado numa vida cada vez mais faz de conta. São infâncias roubadas, em nome da conveniência de adultos hipnotizados pela cultura do ter e vítimas da cegueira de um tempo que esquece de dar tempo e sentido, ao que é viver (...).

Estou sempre a me questionar sobre o futuro dessas crianças adultas, isoladas e solitárias. Em que vãos se escondem as suas almas infantis e em que época de suas vidas poderão algum dia, resgatar à infância perdida? A resposta talvez esteja andando por aí, de mãos dadas com as drogas, o alcoolismo, o suicídio e também, na solidão dos cárceres da vida adulta.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Verbo Amar




Muito se fala sobre o verbo amar e consultando o Aurélio, descobri que ele pode ser transitivo direto, intransitivo ou verbo pronominal. Amar sintaticamente, essa não é a questão! A pergunta é quando amar vale a pena?
1º - Como verbo transitivo direto, tem-se o exemplo: Ter amor a; querer muito bem a; sentir ternura ou paixão por.
Li, recentemente, um artigo – e há vários títulos similares no mercado editorial – onde a autora começava fazendo a seguinte indagação: quer conquistar o homem dos seus sonhos? De imediato, lembrei do parágrafo acima e do lado feminino do amor, aquele em que você se anula em função do outro, se assume escrava de seus desejos, vontades, disponibilidades e preferências. E respondi não! Sabem por quê?
- Porque o amor, o querer, a ternura e a paixão – da maneira citada acima - já foram gastos por mim e para mim. Fui me descobrindo e conhecendo aos poucos, deixando aflorar os meus quereres e depois, resoluta, decidi que não quero conquistar nem ser conquistada. Desejo ser o córrego, o riacho, o rio e todas as águas correntes que afluem para o mar e nele se beneficiam. Quero você e eu juntos, mar sem complicações de ordem ou hierarquia, nem objeto direto, nem indireto, tampouco verbo intransitivo.
Ah, verbo intransitivo! Como ele é orgulhoso, intransigente, cheio de si e mandão! Dispensa companhia! Basta-se! Vive atropelando as palavras, tem dificuldade em formar frases, usa e abusa do direito de ser conciso e ainda requer pra si o troféu de campeão. Coisas do gênero penso eu, ou de quem se valoriza por se achar minoria e raridade. Pobre verbo de conjugação deficitária! É um solipcista de primeira, desconhece a relação pronominal (...).
Pensando nisso, volto ao Aurélio, procuro o amor e encontro: amar, verbo pronominal. Experimentar um sentimento mútuo de amor, ternura, paixão.
Eis o cerne da questão! Um sentimento recíproco de todos os bons sentimentos (...). Quando se tem isso, o resto flui naturalmente, você e eu juntos, mar, nem primeiro, nem segundo, nem macho, nem fêmea, nem senhor, nem escrava (...). Apenas nós, cada um com a sua singularidade, mas se reconhecendo plural no amar (...).
“Heureca!” Agora, sim, eu tenho uma resposta: amar vale a pena quando não se encontra um turista acidental, que aporta na sua vida com açodamento, trazendo na mala promessas para um futuro incerto. Quando, antes de tudo, temos um compromisso com nós mesmos de respeitar a individualidade do outro e fazer de todo dia, um desafio para amar pronominalmente (...). Nós!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Sonho Desfeito






Uma releitura do passado trouxe à tona imagens esvaecidas pela poeira do tempo e eu precisei reinventar você, que estava perdido no hiato entre a realidade e o sonho, que alimentavam os meus dias.

Num jogo de memórias fui buscá-lo e, tal qual uma colcha de retalhos, tentei juntar o que sobrou de nós dois - outra vez - apenas para descobrir, em seguida, que você já não cabia mais na minha vida. “O tempo, senhor da razão”, instado por mim, declarou:

"Nada do que foi será

De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará”

Foi então, que eu compreendi... O sonho acabou! Por isso estou de partida, deixando para trás um mundo de fantasias... Aquela que eu fui não cabe mais em mim... Descobri que a distância existente entre nós chama-se atitude e resolvi não compactuar mais com a sua fraqueza. Fraqueza feita de pressuposições, silêncios e fugas... Julgou-me mal! Eu nada queria além de um aperto de mão e da sua amizade tardia.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Silêncio e Cumplicidade







Todos sabem que, nas relações profissionais e pessoais, é de fundamental importância a capacidade que temos de comunicar ao outro a nossa maneira de pensar e ver a vida, tendo em vista um relacionamento baseado na verdade e no respeito, pilares indispensáveis na construção da confiança, da credibilidade e de uma amizade verdadeira.
Pensando nisso, vejo o silêncio - usado por quem refuga a verdade e a honestidade – como causa de sofrimentos desnecessários: é o médico que oculta o diagnóstico de uma doença terminal, porque julga que assim é o melhor; o amigo que escamoteia os fatos para obter vantagens; aquele outro que dissimula a inveja e o ciúme e se esconde no mutismo e na ausência; o ser amado antes presente e amoroso e, agora, manipula o silêncio como meio de fugir ao diálogo. Esses e tantos outros motivos usados habitualmente trazem, no bojo, uma verdade: é um recurso usado para fugir da força que têm as palavras.
Em conseqüência disso, temos a perda da confiança e da credibilidade, do distanciamento e das reticências no discurso amoroso. Ao paciente foi tirado o direito de decisão e como resultado foram-lhe subtraídos alguns momentos de felicidade, aos amigos a possibilidade do entendimento e ao ser amado, o respeito e a admiração, razões pelas quais o amor floresce.
Por tudo isso, só nos resta lamentar que o silêncio, arma dos fracos, possa detonar o verdadeiro sentido da convivência humana provocando o isolamento e a solidão, pois viver e conviver requer coragem e na ausência das palavras se instauram as dúvidas, se diluem os afetos. Ninguém precisa usar de crueldade, ironia ou desprezo pelo outro, nem dizer verdades que magoem mais que uma ‘mentira necessária’, mas convenhamos que, o silêncio usado como arma de manipulação, necessita ser revisto por todos que têm como meta um relacionamento mais saudável, humano e honesto.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Felicidade Efêmera







Não sei se ando nostálgica ou se os passos que me levaram àquele velho armazém trouxeram o passado para o presente. O fato é que, dessa visita, resultou saudades que me acompanham desde então, trazendo indagações para as quais não tenho respostas e nem sequer consenso. Onde está a felicidade? No passado, em seu tempo de calmaria e passos lentos, ou na vertiginosidade do presente com as suas conquistas efêmeras?

Perdida nos meandros do caminho, entre o velho armazém com seus penduricalhos e odores - reacendendo memórias - e as urgências da vida moderna, eu recorro as minhas lembranças... Volto ao tempo das cadeiras nas calçadas, da cumplicidade com o amigo-irmão, do sorriso afável do vizinho, com seu olhar e ouvidos atentos, a convidar-me para um “dedo de prosa” e da suave brisa noturna a embalar os meus sonhos de um futuro promissor. Quanto aconchego, simplicidade e paz, sob um céu de brigadeiro a cintilar estrelas em noites banhadas de luar!
Este é o quadro que ora se apresenta em seu tom de sépia e vai esvaecendo lentamente, à medida que o hoje se afigura, impondo o seu caráter de urgência, lembrando: o futuro chegou!

Ah, o futuro! - felicidade prometida, terra de Canaã! - eis que ele chega como um vendaval, a varrer poeiras de estradas, estrelas e sonhos. Quantas coisas e tantos afetos mudaram-se das minhas lembranças (...). Mas, em compensação que conquistas e belas vitórias conseguimos em todos os campos de atuação: no trabalho, na saúde, política, economia... E quanto de tudo isso, resultou em melhor qualidade de vida para todos nós?

Pensando bem, temos aí o passado com o seu significado e importância atrelados a valores, laços e vínculos que tão bem nos faziam e o imediatismo que reina hoje, junto com a vaidade e seus súditos. Todos os dias o novo fica velho e a alegria da conquista cede espaço para novos inventos, provocando distanciamento nas relações pessoais. E se por um lado temos avanços na ciência, na tecnologia e em tantas outras áreas; já não há cadeiras, nem calçadas e amigos, para abarcar tanta solidão. O progresso urbanizou também os relacionamentos e, agora, já se pode “prosear on-line”, basta digitar: www.tenhopressa.com.br e as relações, em tempos de gripe suína, ficam mais assépticas. O amigo-irmão de antes, o vizinho prestimoso e aquele velho sonho de tudo se ajeitar, se transformaram em poeira do tempo. Hoje, somos movidos pelos desejos e prazeres efêmeros... Tudo flui... Tudo é descartável, mas o progresso continua... .

E a felicidade onde está?

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Carta para os Meus Filhos






Na quietude da solidão abissal que se espalha por espaços, onde antes morava o riso e a alegria, eu teço lembranças. O fio condutor dessa trama é a síndrome do ninho vazio. E agora, José? O que fazer com os meus braços que, de tão poucos abraços, pendem inertes e vazios? E do silêncio que desafia as horas tornando eternos os minutos que passam?

O tempo, sempre ele... Algoz! Sorri das minhas saudades umedecidas, faz pouco caso da solidão em que me encontro, e acha graça no poema que entôo, para afugentar essa dor que tem nome: meus filhos!

"Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?”

Tinha razão o poeta Vinicius, quando cantou em versos todas as agruras que iríamos passar, a partir do momento em que decidíssemos acolitar os primeiros passos desses pequenos seres que colocamos no mundo. E, também, Chico Buarque, quando escreveu: “o tempo passou na janela e só Carolina não viu...” É, ‘Seu Chico’, ele passou voando por entre mamadeiras, brinquedos, adolescências, livros e becas, e eu, debruçada na janela, distraí-me vendo a banda passar e não me dei conta que o tempo urgia.

E agora, José? É a pergunta que me faço todos os dias, quando as lágrimas substituem o riso e constato que “naquela mesa tá faltando ele(s) e a saudade dele(s) tá doendo em mim.”

O que fazer com tanto amor, tantas lembranças e esse espaço vazio? Respondo: - Para saudade, recorro às palavras tentando minimizar a dor das ausências, e para o amor, faço a expurgação do egoísmo, libertando-os para a vida: sigam os seus caminhos, meus filhos! O amor que sinto é maior que eu, e tem gosto de liberdade... Tomem as suas asas, se elas não lhes forem suficientes eu empresto as minhas e, de quebra, lhes ofereço a minha coragem de amar e deixar partir. Sejam felizes! Eu estou bem.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Eduardo e Jorge,






No dia 22 de novembro de 2008, escrevi aqui o texto “Minha Casa, tem história!”
Nele, coloquei a minha alma e as minhas lembranças... Era um fato real!
Hoje, ao abrir o site da Tertúlia Virtual, lá estava ele – o caminhão de mudanças – de novo, a me despejar dos meus sonhos.
Ah, meus amigos, decididamente vocês não sabem o quanto me fizeram feliz. Eu estava ‘sem-teto’ e aqui, encontrei abrigo. Obrigada!


"Minha casa, tem história!”A minha filha, preocupada com a minha segurança e o meu bem-estar, verbalizou dessa maneira o seu receio:
- Minha mãe, venda esta casa! Ela ficou espaçosa demais para você, depois que saímos.

Respondi-lhe no ato:
- Filha, a minha casa é um país dentro do meu país. É a minha pátria de intimidades. Ela tem cor, cheiro, som, passos e lembranças. Ela tem história! ... E se me tiram o chão, eu me torno estrangeira de mim mesma.

Ela ainda tentou argumentar, mas foi vencida pelo peso das minhas lembranças.
Disse-lhe eu: Triste é o homem, que não cultiva suas memórias!

- No passado, morei em outra casa, por força das circunstâncias fui obrigada a deixá-la e até hoje, depois de tantos anos, o caminhão de mudanças continua estacionado no mesmo lugar. É que uma menina de olhos tristes e lágrimas silenciosas, vendo-se sem saída, indagou ao motorista: - moço tem espaço aí para levar os meus pertences?

Ele respondeu: - tem, pode ir buscar. Ela, então, olhou-o bem dentro dos olhos e pediu-lhe que a ajudasse a transportar às suas lembranças. Aqui estão: a minha infância, e a felicidade correndo no meu corpo de criança, sorriso fácil, abraçando o mundo. Tem o pé de cajá – cobrindo de amarelo o chão, na madrugada - a goiabeira de onde recolho os frutos quando abro a janela do meu quarto, os pés de pinha, de groselha, de abacate e de mamão. E ainda, o flamboaiã amigo, onde instalei um balanço de cordas para recolher das nuvens, o algodão doce das minhas fantasias. Tem a horta com o verde das alfaces, coentros e pimentões lembrando-me a cor da esperança, e o tomate em seu tom vermelho, dizendo-me que em breve será tempo de paixões. Ah, não posso esquecer o jardim com suas rosas, dálias, cravos e margaridas. Como é bonito ver o orvalho da madrugada depositar as suas gotículas sobre as flores, e sentir o perfume que delas emanam misturando-se na manhã seguinte, ao cheiro que vem da cozinha. E, como é alegre a cozinha da minha mãe e doce a sua figura, a mexer no tacho de canjica, a costurar as pamonhas, a assar o milho verde, preparar a tapioca fresquinha e um delicioso bolo baeta, sempre, acompanhado de uma xícara de café. Tenho, ainda, passeando sobre as minhas memórias, o cheiro da galinha de cabidela, do cozido inigualável, dos famosos bolinhos de bacalhau, das rabanadas e dos perus assados no forno, ajudando-me a lembrar dos sons.

O crepitar do fogão à lenha é um espetáculo à parte: lembra-me o meu tio Chico e os seus fogos de artifícios nas noites de São João. A fogueira acesa provoca o calor que nos aquece, nessa época em que o vento frio anuncia que a canção da chuva vai tocar em nossos telhados. Um som de piano, e as minhas tias Marluce e Laice a dedilharem canções de amor, noite adentro; só interrompido quando o canto do galo já se faz ouvir. Nessa hora, os passos suaves de mãe Julia se aproximam e ela nos diz que a manhã já se avizinha, desejando-nos bons sonhos.

O beijo de boa noite, agora, seu moço, tem gosto de saudades. Os contos de fadas e todas as fantasias que povoam o meu mundo infantil, com seus jogos e brincadeiras, pedem socorro: Por favor, ajude-me a transportar as minhas lembranças! Tem espaço aí?

O homem olhando-me entre lágrimas, disse: - menina, essa mudança eu não faço por dinheiro nenhum! A sua casa tem história. E partiu, deixando o caminhão estacionado para nunca mais voltar.

domingo, 5 de julho de 2009

Despedida







Era em lugar escuro e acolhedor que ela o escondia. Alimentava-o todos os dias de sua própria seiva e extraía da vida a alegria, a coragem e a garra, transformando tudo isso em um manto de proteção, para envolvê-lo nas noites frias e tempestuosas.
Gostava de saber que ele estava a salvo dentro dela! Concentrada em protegê-lo por dias e meses, numa eterna vigília, ela esqueceu de si e até mesmo do tempo! Lembrou-se, no entanto, do arqueiro... Sabia que ele a usara com um propósito e aceitou, com orgulho, a sua missão, embora soubesse que, no futuro, teria que pagar um preço alto por esse acordo.
(...)
Um belo dia, ele - o arqueiro - flecha em punho, arremessa-a para tão longe quanto dá a potência do seu arco. Ela então, substitui a alegria pela dor e chora, aliás, ambos choram: ele porque perdeu o acolhimento, o abrigo, o refúgio das dores do mundo e ela por saber que, a partir dali, nada mais pode fazer a não ser acompanhá-lo em sua luta titânica, para se transformar em um ser humano decente, num mundo de tantas adversidades...
E hoje, cerram-se as cortinas, o seu papel acaba ali. Devolve-o para o mundo. Esse era o pacto com o arqueiro.
A partir de agora, nasce você, meu filho, pra vida! Morro eu, mãe...

terça-feira, 16 de junho de 2009

Emoções Perfumadas






Um cheiro de terra molhada, aroma de comida caseira e um som nos leva ao passado e faz aflorar as nossas emoções. O tempo alterou o relógio das horas e aos nossos olhos a paisagem mudou, mas para o coração o arrepio da pele ainda é a linguagem das lembranças que não querem partir.

De onde vem o cheiro, o aroma e o som que revolvem memórias e plantam saudades no terreno das recordações? Vêm de lugares longínquos e das ruas que, até hoje, passeiam dentro de nós com seus odores reacendendo a velha chama das emoções perfumadas: é uma chuva miúda que molha a grama e desperta o perfume da terra trazendo um arco-íris em forma de jardim; é um fogão à lenha desenhando carinhos e cuidados em gestos cotidianos, que alimentam, afagam e vão deixando uma fragrância no ar capaz de refazer todo um caminho de volta, num momento como esse, em que as saudades esquecidas estão em repouso no baú dos tempos perdidos; é um som de acordes melancólicos que misturados ao crepitar da madeira abrasam o corpo frio, pois um inverno de saudades faz chover no coração. São as recordações que chegam e partem, redesenhando emoções.

O tempo que a tudo transforma alterou a paisagem, mas a fonte das nossas lembranças é inexaurível. Dentro de nós há um livro aberto repassando páginas, recontando histórias e trazendo à tona, fatos e personagens que resgatam um pouco da nossa vida e do passado... Gosto de olhar para essas folhas, em seu tom de sépia, e sentir o ar carregado de uma fragrância que envolve e encanta. São memórias cinzeladas em nosso coração perfumando o ambiente e o arrepio da pele, é a tradução da linguagem do corpo respondendo ao que ficou esculpido em nossa alma. Basta um cheiro, um aroma ou um som e nós viajamos para o mundo encantado das emoções atemporais...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Que lugar te faz sentir em casa?








Quando me vem essa pergunta à mente, lembro das pessoas que dizem que o seu lugar no mundo é a porta do aeroporto e que não se sentem parte integrante de local nenhum. Nessa hora, penso em mim e nas tantas mudanças que fiz e me pergunto o porquê de tal afirmação.

Tem gente que percorre quilômetros e quilômetros por estrada afora, mas se recusa a fazer a maior de todas as viagens, a única capaz de libertá-la desse sentimento de inadequação: uma viagem ao interior de si mesma. E enquanto isso não acontece, vive sempre de mochila nas costas sem saber, ao certo, qual o seu endereço no mundo. Viaja e leva junto às coisas materiais a sua mudança interna de afetos e sentimentos mal resolvidos, numa eterna andança pra direção nenhuma. Por isso, quando lhe perguntam onde se sente em casa, não sabe o que responder. Mais um entre os nômades da solidão!

Pensando nisso, lembro das várias viagens que fiz e respondo sem pestanejar: o lugar que me faz sentir em casa é dentro de mim e isso independe do local e da situação. A minha casa interior levou muito tempo para ser construída, mas as suas paredes são sólidas o suficiente para abrigar todo e qualquer tipo de mudança. Aonde quer que eu vá levarei a história que construí em minhas andanças pelo mundo e um pouco de cada canto, por onde passei. É dentro de mim que estão fincadas as raízes dos meus afetos e o abrigo que eu chamo de lar.

Em virtude disso, posso afirmar que estou sempre em um lugar confortável e seguro, pois não viajo para me encontrar... Estou sempre dentro de mim e é aqui que me sinto em casa.

Imagem autorizada por:http://www.floresdopantano.blogspot.com/


domingo, 7 de junho de 2009

Sem Título





A nossa passividade ante a miséria humana nos torna cúmplices de um crime: a omissão. Até quando o silêncio da nossa indignação abafará o grito da nossa consciência?

Obs:Veja"MeninosdeDarfur" http://entremares.blogs.sapo.pt/

sábado, 6 de junho de 2009

Coleção de Saudades






Num entardecer feito de sonhos, onde o outono – ante-sala das lágrimas do céu – executa no ar o balé das folhas secas e nos remete de volta ao passado, eu aquieto as minhas dores visitando o antigo porão. Lá, adormecida em um velho baú e distante das garras do efêmero, guardei a minha coleção de saudades: são cartas, fotos e pequenas lembranças, miudezas de um tempo que um dia sonhou com a eternidade.

O vento frio que açoita a minha alma, neste momento, abre a janela do meu coração e eu me rendo diante da evidência de uma saudade tão teimosa: é você outra vez, povoando os meus sonhos juvenis. Tenho em mãos o velho baú e dentro dele reminiscências de nós dois que, uma a uma, vão assumindo o controle do meu pensamento, abastecendo de alegria, de emoção e de sorriso - o mesmo sorriso fácil que naquela época espelhava a nossa felicidade – os meus dias atuais.

Vivo assim, imersa em saudades e, por isso, quando a solidão me visita não me encontra despovoada. Em terreno fecundo plantei boas recordações e no meu sítio de memórias a colheita é sempre abundante. Aqui, nos espaços interiores onde caminho silenciosamente e as ausências são mais sentidas, faço-me peregrina das boas lembranças e transformo o meu cotidiano em um novo celeiro de felicidades.

sábado, 30 de maio de 2009

Quebrando Espelhos








Ela estava ali, novamente, diante dele. Já havia feito as pazes com a menina que fora, mas alguma coisa restara para apaziguar dentro dela. O que seria, perguntou-se, e olhou outra vez para o espelho. Foi então que se deu conta: uma chuva de prata banhara os seus cabelos e ante a exigüidade temporal que lhe rondava os dias, fez a si mesma mais uma pergunta: qual é o tempo do amor, ou seja, até que idade lhe é permitido amar?

O espelho que mostrava a imagem de uma garota feliz que amava os Beatles e os Rolling Stones e cuja vida era feita de sonhos refletia, também, uma mulher cujo ideal de felicidade não arrefecera. Ela continuava igual, os fios prateados e as auroras não dormidas - que lhe marcavam o rosto-, não a impediam de ver e sentir a vida como se a juventude ainda lhe fosse presente. Precisava, pois, reconciliar aquelas duas pessoas que habitavam dentro dela porque sabia, por certo, que uma delas teria que partir. A sociedade que lhe impunha vetos, que determinava o limite dos seus sonhos e da sua capacidade de amar, que lhe ditava regras e lhe colocava mordaças; não haveria de perdoar-lhe a ousadia de manter-se jovem, antenada e feliz, num mundo onde o império do efêmero transformava tudo e todos, em peças de museu, em um curto espaço de tempo.

(...)

Pensando nisso tomou uma resolução: a partir de agora irei celebrar o cotidiano sempre, amar de novo e com maior intensidade ‘como se não houvesse amanhã’, pegar as rédeas da minha felicidade e, com ela, sair por aí, tomando banho de chuva, de rio, de mar, escrevendo em suas areias um poema de amor à vida. Irei possuir o desejo pelo insaciável e com ele vivificar a minha existência até o fim dos meus dias.

E sendo assim, quebrou o espelho e fez em pedaços a sua carteira de identidade. A partir daquele momento, ambas, menina e mulher teriam a idade dos seus sonhos... E saiu, “caminhando contra o vento sem lenço e sem documento.” Feliz!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Tema da Tertúlia Virtual








"Você irá passar 10 anos numa pequena ilha deserta no Pacífico, e só poderá levar cinco coisas ou pessoas.Quais seriam?".
Eu levo:

Os políticos corruptos,
Os traficantes de drogas,
Os pedófilos,
Quem promove o trabalho escravo nos dias atuais e
A prostituição infantil.

Depois disso é só rezar para que o lema da nossa bandeira, “Ordem e Progresso”, faça jus a nossa cidadania, e que eu encontre um barco para voltar porque ninguém merece uma vizinhança tão incômoda.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Contemporaneidade do Apartheid






Constata-se a existência do preconceito racial em muitas partes do mundo porque algumas pessoas ainda não entenderam que a roupa da alma não é a pele, que na sociedade atual, onde predominam tantos avanços e conquistas nos direitos humanos, não há espaço para o vilipêndio do homem pelo próprio homem e que é premente uma releitura dos erros do passado, para que não incorramos em mais um retrocesso na história da humanidade.

Vivemos uma época onde não há espaço para idiossincrasias que nos levem a ignorar que os homens se vestem pelas almas e que nelas, residem a força e a fortaleza capazes de modificarem o mundo.

Na atual conjuntura, onde o homem que é forjado na ânsia pela liberdade de ser - de expressar-se livremente - não reconhece cor, raça nem fronteiras senão o que lhe falam os ditames da sua consciência de cidadão livre, não se admite que nenhuma lei ou decreto possa distinguir o ser humano dos seus pares, sem que atraia para si a revolta e o menoscabo de uma sociedade civilizada.

Ninguém desconhece que se lançarmos um olhar em direção ao passado, haveremos de concluir que avançamos muito em direção à conquista dos direitos humanos e resgatamos parte dos nossos erros históricos, mas feito uma chaga ainda estão por aí, as conseqüências de anos de obscurantismo político e cultural. As feridas abertas pelo regime do “Apartheid” que negava aos negros os seus direitos políticos, sociais e econômicos, ainda se fazem presentes na África do Sul e a voz do ex-presidente Nelson Mandela, apesar de ecoar em nós até os dias de hoje, não nos redime da culpa de continuarmos, hipocritamente, fingindo que o preconceito racial não existe e que não segregamos as pessoas em função da cor da sua pele.

Por tudo isso, só nos resta admitir que mesmo diante da luta e do progresso de um homem e do sonho de muitos, ainda temos um longo caminho a percorrer para que possamos assistir a uma sociedade mais justa e mais igual, onde não haja fronteiras nem de cor nem de raça, e onde as futuras gerações estejam livres dessa chaga que tanto nos envergonha.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Segredo







Feito nuvem de algodão doce a brincar com os meus sentidos, a tela do computador me convida a escrever sobre as saudades que venho acumulando ao longo dos anos. Hesito por saber-lhes românticas e, por que sei que logo vão lhes dar nomes, endereço e carteira de identidade. Mas, como resistir ao convite se vivo submersa em lembranças de um passado ainda tão recente.

Gosto, sim, de escrever sobre o amor. Coleciono saudades. Misturo lembranças de amores vividos com fantasias, e assim, componho os meus sonhos. Porém, não há destinatários para as minhas palavras de amor a não ser o próprio amor. Ele, e somente ele, tem a chave perdida dos desejos secretos, para cuidar dos meus devaneios dando-lhes abrigo, acariciando o meu coração em noites de tormenta.

Portanto, não ousem jamais atribuir nomes as minhas saudades, porque de verdadeiro só existe o que sinto, o mais são trocadilhos de palavras que os incautos se apropriam para saciarem as suas vaidades.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O Espelho e Eu







Ele está ali, parado, convidando-me para um encontro. Recuo porque tenho medo e pergunto-me: será que eu estou pronta?
Ela, a menina em mim, diz que não, a mulher responde sim! Ambas carregam, em seus corações, esperanças... E duelam entre si.

Imóvel em seu canto, ele nos espreita a espera de confissões. Quem dará o primeiro passo, parece se perguntar. E ela, até então hesitante, diz: quem é essa que agora me desafia, propondo mudanças e remição para os meus pecados?

Amei sim, e fiz do amor meu projeto de vida. Colori os meus dias com sonhos românticos desafiando os costumes da época. Dei mais de mim do que deveria, ignorando as regras do jogo e da conveniência, ousei cantar em versos esse sentimento por dias, meses e anos, embrulhando-o para presente e colocando-lhe o selo da eternidade. Desafiei o tempo plantando esperanças, tentando salvar o amor, mas o relógio da vida não me deu trégua. Foi um sonho, apenas um sonho e nada mais.

E agora, diante dele e de seu silêncio respeitoso, ela se esvazia de todas as saudades para deixar que a outra fale por si.

-Não me reconheço mais, diz a outra. E voltando-se para ele – o Espelho - diz: acaba de nascer uma nova mulher... Eu! Eu que de mim gosto tanto, coloquei o amor para dormir até que alguém que realmente o mereça venha acordá-lo. Quiçá faça como na canção do Caetano: “venha nos restituir a glória, mudando como um Deus, o curso da história, por causa da mulher”.

E, sem isso, nada feito... Cresci! E a mulher, em mim, disse sim... Mudei! Fiz as pazes com a menina que fui, até então, diante do espelho.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Almas Margaridas





Certas pessoas já nascem etiquetadas e com prazos de validades vencidos. Carregam a inapetência pela vida e se deixam consumir pela pulsação dos dias iguais, como se viver fosse um fardo. Seus traçados são em linha reta e a sinuosidade das curvas que tantas surpresas nos causam, não faz parte do seu viver, por isso trazem, em seus semblantes, as marcas da tristeza, da amargura e do luto.

Conviver com elas é navegar em noites de tempestades, é deixar esvaecer a nossa alegria, para dar lugar ao encadeamento de suas desgraças.
São chamadas de almas penadas porque vivem em completo estado de expiação e temem que, a alegria e o contentamento possam usurpar a remissão dos seus pecados. Planejam a sua vida como um filme preto e branco, feito de desertos, sofrimentos e com um fim presumível.

Quem não conhece uma pessoa assim?

- Elas são vorazes, sugam as nossas energias, alimentam-se do nosso deslumbramento pela vida, e depois, desconcertam as nossas certezas numa tentativa de levá-las a escorrer pelo ralo. São sombras que se abrigam em centelhas, por não terem luz própria.

Ainda bem que, para contrapor a essas criaturas, temos as almas margaridas. Quão belas são!
Seus desenhos são feitos de curvas, que falam de possibilidades... Possibilidades infinitas de fazer, acontecer, dar certo a essa vida cheia de manhas, sôfrega em nos propor desafios para além das nossas combalidas forças.

Alguém conhece uma pessoa assim?

- Elas flamejam por que são feéricas e ao seu toque, tudo se faz vida, alegria e certezas. Iluminam e a sua luz reverbera em nós tornando-nos melhores. Desconhecem o egoísmo, a inveja e a maldade. São dádivas na vida de quem as possui como companhia. Por isso me faço peregrina nos campos e jardins à procura de almas margaridas.

Preciso despoluir-me...

*Este texto é uma homenagem a Nina Sena: cronicasdeumameninafeliz.blogspot.com
*E a menina Beatriz Menéres, pela imagem da margarida

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Um Amor Sem







O meu amor não tem passado, nele só existiu você em mim e isso fez toda a diferença.
O meu amor não tem presente, nele as dores ainda se vão.
O meu amor não tem futuro, nele só o passado resiste e este, é feito das minhas lembranças esfumaçadas...
Preciso de um amor que não doa!

sábado, 18 de abril de 2009

Sem Paraquedas







Feito um pássaro eu desejei alçar voos e em manobras aéreas me perder no silêncio até encontrar o eco do teu gorjeio, e contigo aninhar. Não consegui! A tua natureza migratória cansou as minhas asas e os teus arrufos sinalizaram a nossa falta de sintonia.

E agora, estou em meu refúgio – solitária - observando o outono se despedir à medida que o inverno avizinha-se. Então, lembro do nosso último encontro e em meu sítio de memórias, busco as minhas asas e relembro: havíamos saído em bando, mas nos isolamos em nossas semelhanças. Ali nascia uma grande amizade, sem defesa e nenhuma proteção acolhi-me em tuas asas, desejando que elas fossem o meu passaporte para a felicidade. Voamos em céu de brigadeiro e, por um longo tempo, nenhuma nuvem ameaçou a nossa rota, até que um dia, os primeiros sinais de ‘tempestade’ me deixaram em alerta. A primavera estava chegando e com ela, a alternância e a renovação da vida te convidavam a migrar. Aceitaste o convite! A tua natureza revelou-se na linguagem da despedida e, em meio à turbulência do nosso último voo, partiste deixando-me sozinha... Sem paraquedas!

E hoje, refeita de todo o encantamento que a tua presença provocou em minha vida, eu caminho nas minhas saudades, lembrando que uma andorinha só não faz verão... E recolho as minhas asas partidas.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

A Vida do Campo no Campo da Vida







Entre o burburinho da cidade e a doce paz que há no campo, a minha imaginação passeia e eu lembro que deixei pendurado no varal da minha existência um desejo antigo: viver a vida no campo!

A reedição do meu sonho de menina, que eu estreio em pensamento hoje, inunda as minhas lembranças e trazem à tona as minhas saudades esquecidas: acordar cedo, tomar leite colhido direto do peito da vaca, caminhar pela relva de pés descalços - sentindo o vento frio em meu rosto -; ouvir o trinar dos passarinhos a desafiar as horas, que passam lentamente, assistir a um entardecer feito de silêncios e ter uma rede na varanda para abrigar os meus sonhos. Tudo traz para o meu querer a pulsação das urgências: preciso viver no campo! Longe da poluição do ar que me sufoca e da sonora, que afeta a minha audição e me impede de ouvir a musicalidade que vem das águas dos rios, dos mares e das cachoeiras. Longe da violência, e da vida noturna da cidade grande, que desconhece a beleza de uma noite de luar, tendo como fundo musical os acordes de uma viola, e como companhia, um céu bordado de estrelas.

A vida no campo me faz feliz! Abastece de sorrisos o meu viver e cultiva o meu encantamento pela natureza. Por isso preciso pegar carona nessas recordações, para despertar de vez as minhas vontades e tirar do varal o sonho, trazendo-o para a realidade.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Prazer





Prazer, sentimento que nos leva a abrir a comporta dos nossos desejos. Muito já se falou sobre as suas diversas formas e a maneira como reagimos a ele, mas pouco se disse sobre a vulnerabilidade que estamos expostos, quando nos deixamos cegar por esse contentamento e esquecemos a transitoriedade da sua natureza.

Ao nos enredarmos pelos meandros do prazer, devemos estar atentos ao significado que emprestamos aos nossos quereres uma vez que a felicidade proporcionada nos leva à ilusão de posse e de eternidade, quando o que temos são só momentos, onde as nossas urgências encontram abrigo e a felicidade, feita de instantes, se faz possível.

Há pessoas que violam todos os códigos de conduta, esvaziam a alma de pudores e se deixam levar pela efemeridade do prazer. Esquecem ideologias, trocam de partidos, fazem conchavos de toda natureza objetivando conseguir a satisfação, sempre ilusória, de que o desejo incessante dele – o prazer – justifique todos os meios para alcançá-lo. São eles, os amantes do poder, que esquecem a ética e a moral em função da saciedade, de um desejo que lhes massageie o ego. Para essas criaturas, o abecedário que empregam na cartilha onde ensaiam os seus discursos, só forma uma frase: que nos locupletemos todos e que se dane a Nação.

Esse é um prazer obscuro, manejado com destreza nos palanques da vida desse país e que parece se repetir “ad infinitum” ou até o momento, em que a nossa indignação possa dizer: chega! E com isso provarmos o quão ilusório e passageiro ele pode ser.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

O Árbitro






Nas últimas 24 horas, falei ao telefone com algumas pessoas, entrei em contato com outras e li alguns artigos nos jornais sobre assuntos que me interessam. Cheguei à conclusão de que é surpreendente a maneira como cada um reage aos diversos estímulos que a vida oferece. Até aí tudo bem, é a lógica imperando, afinal de contas, somos seres ímpares. Mas, o que mais me deixou surpresa, foi perceber o dedo indicador que certas pessoas apontam na direção do outro, como se a todos – que se fazem julgadores - Deus tivesse dado a posse ou investidura ao cargo de juízes da humanidade.

O fato é que, estão sempre julgando o seu semelhante, quer seja nas relações profissionais, de amizade ou de uma maneira geral. Investem-se defensores de plantão da ética, da moralidade e dos bons costumes, sem nem ao menos saberem o que isso significa.

Ora, meu amigo, eu digo que ser ético é não se arvorar em árbitro. É ter o sentimento do mundo pulsando em si, sabendo que a cada um de nós é dada a responsabilidade de fazermos ao outro, aquilo que gostaríamos que nos fizessem.

Experimente fazer um teste. Tente se colocar no lugar do outro. Atravesse a fronteira do seu egoísmo, do seu ‘muro de berlim’ e veja que há vida lá fora, longe dos seus domínios e distantes dos muros por meio dos quais você se protege e se esconde. Deixe de ditar normas, de dizer que faria melhor, ou então, coloque-se no lugar do outro e promova as mudanças necessárias. Desça do palanque, vá à luta e faça melhor, se é que você é capaz.

Ora, meu amigo, eu digo que a moralidade atravessou as barreiras do tempo, e se adaptou à modernidade, fazendo com que alguns “conceitos” de certo e errado, de próprio e impróprio, fossem revistos ao longo do tempo.

Eu digo que ser ético, ter moral é não tripudiar das escolhas alheias, é respeitar a diversidade, é fazer-se uno com o sofrimento do seu semelhante, entendendo que, na escalada da vida, todos nós tropeçamos, de uma maneira ou de outra, quando nos arriscamos em busca do que nos faz felizes.

Ser moral é ter a coragem de confrontar as suas verdades diante do espelho da alma, e sentir o que o véu da lucidez lhe revela, para além das máscaras que você se impõe no dia a dia. É saber-se humano, é errar, mas compor com os seus desacertos, pequenos mosaicos que darão vida ao desenho da sua existência e que mais adiante, - lá no futuro –farão você se orgulhar de ter tentado, de ter vivido, e construído o seu próprio percurso e não aquele que ditaram para você. Porque vai ter sempre alguém lhe apontando soluções prontas e porções mágicas, para fazer a sua vida acontecer. Vai ter sempre alguém desejando-lhe marionete, para exercer poder sobre a sua vida.

E eu digo que, em se tratando de bons costumes, nada é mais correto do que respeitar a humanidade de cada um, dando-lhe a oportunidade de exercer o seu direito e a sua cidadania e, consequentemente, os seus acertos e desacertos.
Pois, como afirmou a professora Ana Adelaide Peixoto, em seu texto Conversando Fiado: “na vida, não existe erro, mas sim, material para construção do nosso próprio percurso”.

E eu digo, ainda, que ser árbitro é tentador, pois tira o foco das nossas fraquezas e das nossas limitações, para centrar o material de artilharia no outro que, muitas vezes, só cometeu um único pecado: quebrou o espelho de Narciso.

“E Narciso acha feio o que não é espelho”.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Tempo de Janela



Espreito a vida através da janela.
Lá fora tudo é movimento. Aqui dentro, também!
Lá, o mundo explode em guerras, inundações, fome, abandono, abuso, inflação e desemprego.
Aqui, uma implosão decreta guerra à minha fome de amor e torna árida a terra prometida dos meus sonhos...


Uma saudade inunda a casa do meu coração e não encontrando inquilino, abusa do seu direito de ir e vir, provocando aumento constante em meus batimentos cardíacos.


De tanto esperar o meu coração deu férias coletivas ao amor, à paixão, à emoção e deixou que a razão desse aviso prévio à saudade.
Saio da janela e abro a porta. A vida real é lá fora. O presente me espera. Vou à luta!

sexta-feira, 13 de março de 2009

O Desejo


Tomei posse do meu desejo e com ele saí por aí, catando a minha ‘liberdade de ser’.

Quando vim ao mundo não entreguei a ninguém o meu livre arbítrio, nem passei escritura pública dos meus anseios. Fui tatuada com o signo da liberdade e é em nome dela, que exijo respeito ao meu desejo e a minha distinção.

Onde está escrito que eu tenho que abrir mão da minha individualidade, para massificar o meu pensamento e me tornar igual?”
Não, mil vezes não! Sou livre e o meu querer é soberano, pois ele é fruto da minha liberdade de escolha.
... E por ela, só eu respondo.

domingo, 1 de março de 2009

A Outra








Agora, danou-se! Lá vem ela outra vez...
Basta uma chuva miúda, um som de piano e um arco-íris apontando no ar, para que a mulherzinha, a quem ela deu abrigo por tanto tempo, apareça para perturbar.


Esgueirando-se sorrateiramente por entre as notas musicais, ela marca a sua presença – ainda que a intenção não seja essa - de maneira que já não dá para passar despercebida. Um certo brilho no olhar e uma lágrima furtiva, que caí distraidamente, revela a emoção que tanto teima em esconder.
Lá se vão os bons propósitos e aquele projeto de começar uma vida nova, sem espaço para sentimentalismo barato, nem sonho romanesco... Ela está de volta! Com seu amor carmesim, vivo e intenso, tecendo fantasias irrealizáveis e celebrando pactos com a eternidade.


De nada adiantou perguntar ao meu coração o que ele desejava! A decisão clara e evidente, explícita na resposta: “-Enterrar o passado! Ocupar espaços plantando sementes de amor e colocar em degredo este estado permanente de saudades,” não arrefeceu o desejo – dela - de viver um amor hollywoodiano, tipo: “Uma Linda Mulher.” Ela, também quer o seu conto de fadas!


E agora, interno essa louca ou não? O que fazer com essa mulherzinha que, em pleno século XXI, ousa desafiar a lei das relações descartáveis, do fica-fica produtivo, do beijinho, beijinho, bye, bye, em nome de um sentimento tão démodé?


A resposta não se faz esperar: - manda essa desvairada de volta ao passado, dá-lhe de presente um luar, um violão, um céu bordado de estrelas e um amor com jeito de eternidade, só assim, ela sossega o facho!
Quanto a mim, prefiro me adaptar as novas leis do mercado e dele tirar proveito... Beijinho, beijinho, bye, bye.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A Liberdade das Asas





Caminho pelos desertos de mim à procura do que fui um dia: se lagarta, o casulo não me serve mais, pois nas asas de uma borboleta eu ganhei vida e, hoje, sacio essa fome de mim recolhendo fragmentos de minhas asas para me recompor.

O invólucro não me seduz e o porto seguro já não me atrai. Quero a liberdade das asas, dos ventos e das manhãs primaveris, para pousar nas margaridas e, junto a elas, sentir a brisa em meu rosto saudando um novo dia... Um outro recomeço. Chega de fazer promessas que não posso cumprir. De iniciar o ano com uma lista interminável de bons propósitos, se cada amanhecer traz uma nova perspectiva de fazermos diferente, o velho hábito de sofrer – sem sofrer - e nós nem nos damos conta disso.


Listas não servem pra nada, pelo menos, não nesse caso. Elas falam a linguagem do cotidiano, da mesmice, e, muitas vezes, o que estamos precisando é de uma boa corrente de ar, de uma arejada nas idéias pra botar fora os sonhos obsoletos, e os desejos irrealizáveis...


Por isso, viajo pelos desertos de mim a princípio adejando, e logo depois, alçando vôos em direção ao infinito, que é o limite da minha capacidade de sonhar e de me refazer.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Cheiro de Maresia





Antes era um filme colorido, um arco-íris de felicidades, uma porta aberta para as possibilidades.
Depois, uma película em preto e branco, um céu nublado anunciando o cinza e uma porta fechada adivinhando tempestades.


O cheiro de maresia aportou em meus devaneios e de longe, de muito longe, eu vi o teu barco sumir.
A chuva que cai nesse instante são as lágrimas colhidas de minha dor.
E, agora, no meu amor, não há peças em reposição! Uma vez rejeitado, desprezado... Enterra-se!

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A Palavra e o Silêncio








A que se ter respeito com a palavra, mas a linguagem do silêncio... Ah, como ele fala, e como fala! Os nossos olhos têm a vastidão de um deserto em branco feito folha de papel, e neles escrevemos canções e histórias de amor que a borracha do tempo não consegue apagar.

Se alguém me pergunta se estou falando a verdade, eu lhe indico o caminho dos meus olhos: eles não mentem, jamais!
Neles, eu silencio o meu desejo mais eloquente para que as palavras brinquem de enganar. 
Se eu tivesse o dom da poesia ou a delicadeza e a sensibilidade do poeta, lançaria um olhar enternecido às palavras para que elas me libertassem dos sonhos impossíveis, que uma noite insone, me faz sonhar: - sonho com declarações de amor, com ternuras antigas despejando favos de mel em minha boca, com palavras sussurradas ao meu ouvido em forma de canções mas quando acordo, vejo apenas um dicionário de mentiras, no meu mundo da imaginação.

Ah, as palavras! Como elas destroem sonhos e desejos. E como mentem... 
O silêncio por sua vez, esquece os erros do meu português ruim, com suas vírgulas mal colocadas, seus pontos e vírgulas hesitantes, suas crases não percebidas, suas interrogações duvidosas e suas concordâncias verbais, para dizer com o olhar o que um mundo de palavras não conseguiu silenciar: eu minto cada vez que falo e amo cada vez que olho...

Na linguagem do meu olhar eu guardo um mundo de segredos!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A Ponte do Começo de Mim







No meu caminho há sempre uma ponte que me leva ao começo de mim quando insisto em acolher uma atitude contrária ao que sou. Não tem jeito, fui moldada na argamassa dos meus ideais, e eles assinaram um contrato com a eternidade. Estão sempre por aí, exigindo providências e feituras, que muitas vezes ultrapassam a minha capacidade de ação. Fazer o quê? Vou vivendo e aprendendo cada vez mais a exercer a minha cidadania, procurando fazer a diferença entre tantos seres mutilados por percepções enganosas.

Posso evoluir em diversos aspectos da minha vida, estagiar pelas mais diversas culturas, mas aquilo que sou e que fez parte do alicerce que serviu para construção das minhas raízes; isso continua inalterado. Não sofre de impermanência.


Quer um exemplo? Nada, nenhum dinheiro, nem nenhum poder do mundo, me fazem trair as minhas convicções e os meus valores morais. Tudo o que aprendi sobre o respeito ao direito do outro, à natureza e ao amor incondicional pela minha Pátria – quaisquer que sejam os seus governantes e seus desmandos – ficaram impregnados em mim, perfumando a minha alma de uma forma indelével.


Por conta disso, no meu dia e a cada dia procuro exercer a tolerância e a paciência, mas está difícil diante de tanto descalabro. Olho através da janela do meu carro e vejo o cidadão a minha frente – será que ele pode ser chamado assim – atirando o lixo à rua. Abro os jornais e vejo, envergonhada, a corrupção campeando e a impunidade servindo de convite, de porta de entrada, para aqueles que querem que a lei de Gerson permaneça “ad infinitum”. Ouço histórias de autoridades que deveriam dar exemplos, mas que se locupletam no poder à custa da miséria alheia. E como se não bastasse tudo isso, ainda tem o anacronismo de certas pessoas que parecem estar na era da pedra lascada e não sabem ainda os seus lugares no mundo. Do contrário, não exibiriam sua arrogância e o seu despreparo pra vida, perguntando por aí: 
-“vocês sabem com quem estão falando?”

Ah, que dá uma vontade danada de responder, isso dá:
- “se o senhor não sabe, imagine eu!”


É por essas e outras, que alguns brasileiros se desencantam e vão embora. Esquecem que o Brasil são eles e atravessam uma estrada que não tem ligação com a ponte do começo de mim!

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Essa tal Felicidade!



O que me dói é não saber certezas. É não ter as respostas antecipadas para os “se”.

E se eu tivesse aberto a porta do meu coração para aquele novo amor, o que teria acontecido? E se tivesse vivido aquela paixão avassaladora, que me consumiu dias e noites, qual teria sido o seu fim? E se tivesse dado asas àquela voz tentadora despejando ternuras ao meu ouvido, cada vez que eu atendia ao telefone. O que poderia ter surgido a partir daí? E se tivesse feito àquela viagem... Aquele curso? Oferecido o meu perdão, o meu ombro amigo. Quais seriam as conseqüências de tudo isso?


É, são tantos os “se” e tantas as possibilidades de se viver, quando deixamos o conforto da janela de onde vemos a vida passar, para abrirmos a porta ao inesperado, que somente aqueles que se arriscam são capazes de vivenciar.


Por vezes, tememos que essa e não aquela atitude, que esse e não aquele caminho seja o melhor. Mas esquecemos que escancarar a porta nos dá uma visão do todo, possibilita a entrada do ar que nos dá a vida. Que da janela o que temos é apenas parte da paisagem; enquanto que a porta significa a liberdade do primeiro passo. Asas para voar! Livre, leve, solto e ainda correndo o risco de ser feliz.


Pagar pra ver, eis o preço dessa tal felicidade!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O Encontro



Havia se passado tantos anos e ele, agora, ali parado, trazendo em suas mãos, as nossas cartas de amor.
Gotas de chuva misturavam-se às lágrimas de alegria. Eu chorava por dentro!
A poeira do tempo levara consigo o marcador das horas.
Naquela noite, o meu amor tinha a idade dos meus 15 anos.
O relógio parado desistira de contar o tempo, diante da resistência daquele amor, que não se rendera ao passar dos anos.
Ali estavam ele, ela e um amor guardado por quase meio século dentro de uma caixinha de veludo.
(...)
Que pena! Fui ao seu encontro nas asas dos meus sonhos, mas você não se vestiu de amor...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Pausas





Não dê pausas à vida! Esse foi o conselho que eu dei a alguém que estava a interpretar os sinais que andara recebendo por esses dias.

Por que será que estamos, na maioria das vezes, adiando decisões e empacotando felicidades para serem usufruídas mais tarde?
Há sempre um amanhã... Um depois... Um quando eu estiver pronto... E a vida feita de pausas vai passando em desacordo com o relógio do tempo. Quando nos damos conta, o que temos é um corpo gasto, cansado, arrastando-se por aí, atrás de uma juventude perdida, de um ideal não concretizado, de uns minutos a mais para viver na UTI da felicidade. O que temos é uma alma vestida de palavras suspensas: quase, talvez, quem sabe um dia e, depois, um coração atormentado pelo “se”: se eu tivesse dito, feito, ido, amado.
E o tempo escorrendo por entre os dedos, feito areia da praia, nos diz: agora é tarde!


Decididamente, eu não gosto de pausas. Eu tenho fome de viver!

sábado, 24 de janeiro de 2009

Perdidos e Achados



Ao entardecer saí para caminhar na praia. O mar em movimento de fluxo e refluxo esvaziava as suas águas em baixa maré.
Olhando a distância vi um pequeno grupo de pescadores com o olhar atento ao que as ondas depositavam na areia. Andavam de um lado a outro, sempre em linha reta, disputando espaços.
Aproximando-me, perguntei a um deles:
“-Moço, posso entrar no mar ou tem algo estranho acontecendo?” Respondeu-me:
“-Pode tomar seu banho tranqüila. Nós estamos aqui esperando os perdidos.”
“-Perdidos?” Indaguei-lhe curiosa.
“-Sim, os perdidos que o mar sempre devolve”. Disse-me ele.
Olhei-o mais uma vez, e pensativa entrei em águas profundas desejando me perder para que algum pescador solitário me encontre e, em noite de lua cheia, arme sua rede para comigo pescar estrelas.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Seguindo os teus Passos





Sigo os teus passos porque eles me dizem que o infinito é logo ali. Arrisco, e na areia deixo registrada as pegadas dos meus sonhos. Cato conchas e colho estrelas para bordar em meu vestido. À noite me visto de amor e te espero. Ainda sou tua.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Asas da Esperança






Nas asas da esperança eu me abasteço de sonhos. Lanço um novo olhar em direção ao amanhã, que sempre se anuncia como oportunidade de reescrevermos a nossa história e reflito no quanto desperdiçamos as horas, que podem ser usadas de uma maneira bem mais proveitosa e feliz.
Alço vôos inimagináveis em meu mundo de fantasias e sonho. O meu momento é de desconstrução: penso em rever o arquivo de minhas memórias para deletar o que passou, afinal de contas, não se volta ao passado com o presente batendo insistentemente à nossa porta.
Mas aí, o silêncio traz você em forma de saudades e viajamos juntos outra vez, em meu mundo de faz-de-conta. Sonho! E o meu momento é de construção: pego um barco chamado desejo e atravesso um mar de possibilidades. Lembro a nossa história de amor e embarco de vez para a terra da felicidade onde você e eu debutamos o primeiro amor.
Relembro!
(...)
De volta ao mundo real o presente me solicita! O tic-tac do relógio me lembra o passar das horas.
Desperdício do tempo?
Carpinejar me desperta do sonho, dizendo que sim.
“Um amor atrasado não é amor. Um amor atrasado é amizade depois de um amor que não aconteceu.”

Recolho as asas da esperança!

domingo, 18 de janeiro de 2009

Declaração de Amor



Olho através da janela e rasgo o véu da noite. Colho estrelas e estendo-as uma a uma no varal dos meus sonhos.
Rezo e peço a Deus que qualquer dia desses, tu sejas uma delas e eu o tenha por toda a vida.

Pela manhã o sol invade o meu quarto e em sorrisos aquece o meu corpo com o seu abraço, convidando-me a fazer amor em sua cama. Sigo-o dócil e obediente, ainda que, o meu desejo em chamas já tenha denunciado toda a ansiedade da espera.
Sou tua por mais um verão embora deseje sê-lo por toda a vida.
Abraço-te e em tuas águas ouço a canção do teu silêncio. O balançar suave de tuas ondas me enche de alegria e eu me dôo inteira ao teu amor.

Sou a tua amante mais fiel e a minha pele morena é a marca registrada da tua posse. Me tens, sempre que quiseres, sou a tua escrava branca ansiando a negritude da tua senzala.

Amo-te!

sábado, 17 de janeiro de 2009

Feliz 2009




São 15 horas de uma sexta-feira do dia 02 de janeiro de 2009 e eu acabo de chegar ao apartamento que aluguei na praia de Ponta de Campina.

Uma solidão gostosa se instala de repente, fruto do prazer que tenho em minha própria companhia. O resto da tarde e a noite serão minhas.
Lá fora, ele – o mar - me espera e, aqui dentro, uma taça de vinho para aquecer a minha alma. Em minhas mãos está um lápis ávido por destravar palavras presas na garganta e preencher espaços em branco nesta folha de papel. Saudades do teclado!

Uma quietude e um silêncio me transportam ligeirinho, para o meu mundo de fantasias. Penso: Como estará a minha vida daqui a alguns anos? E começo a tecer os fios dessa trama criando um bordado feito das escolhas que fiz. Não há tristezas nem arrependimentos! Começaria tudo outra vez, não mudaria uma vírgula do que já passou. O que aconteceu me transformou na pessoa que eu sou e ninguém é mais feliz que eu com a própria imagem. Gosto do que me tornei. Sem narcisismo! Conheço cada parte do meu corpo e sei como ele reage quando se multiplica em pedacinhos procurando colo e cola para viver inteiro.

Aprendi a compor uma cocha de retalhos feita dos pedaços de felicidade que a vida me deu. E ela me foi generosa: realizei sonhos, amei e fui amada, e de quebra, nesse ano que se inicia, ainda recebi esse mar que em suas águas, minhas lágrimas se confundem com saudades de você.
Feliz 2009!