Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quarta-feira, 1 de abril de 2009

O Árbitro






Nas últimas 24 horas, falei ao telefone com algumas pessoas, entrei em contato com outras e li alguns artigos nos jornais sobre assuntos que me interessam. Cheguei à conclusão de que é surpreendente a maneira como cada um reage aos diversos estímulos que a vida oferece. Até aí tudo bem, é a lógica imperando, afinal de contas, somos seres ímpares. Mas, o que mais me deixou surpresa, foi perceber o dedo indicador que certas pessoas apontam na direção do outro, como se a todos – que se fazem julgadores - Deus tivesse dado a posse ou investidura ao cargo de juízes da humanidade.

O fato é que, estão sempre julgando o seu semelhante, quer seja nas relações profissionais, de amizade ou de uma maneira geral. Investem-se defensores de plantão da ética, da moralidade e dos bons costumes, sem nem ao menos saberem o que isso significa.

Ora, meu amigo, eu digo que ser ético é não se arvorar em árbitro. É ter o sentimento do mundo pulsando em si, sabendo que a cada um de nós é dada a responsabilidade de fazermos ao outro, aquilo que gostaríamos que nos fizessem.

Experimente fazer um teste. Tente se colocar no lugar do outro. Atravesse a fronteira do seu egoísmo, do seu ‘muro de berlim’ e veja que há vida lá fora, longe dos seus domínios e distantes dos muros por meio dos quais você se protege e se esconde. Deixe de ditar normas, de dizer que faria melhor, ou então, coloque-se no lugar do outro e promova as mudanças necessárias. Desça do palanque, vá à luta e faça melhor, se é que você é capaz.

Ora, meu amigo, eu digo que a moralidade atravessou as barreiras do tempo, e se adaptou à modernidade, fazendo com que alguns “conceitos” de certo e errado, de próprio e impróprio, fossem revistos ao longo do tempo.

Eu digo que ser ético, ter moral é não tripudiar das escolhas alheias, é respeitar a diversidade, é fazer-se uno com o sofrimento do seu semelhante, entendendo que, na escalada da vida, todos nós tropeçamos, de uma maneira ou de outra, quando nos arriscamos em busca do que nos faz felizes.

Ser moral é ter a coragem de confrontar as suas verdades diante do espelho da alma, e sentir o que o véu da lucidez lhe revela, para além das máscaras que você se impõe no dia a dia. É saber-se humano, é errar, mas compor com os seus desacertos, pequenos mosaicos que darão vida ao desenho da sua existência e que mais adiante, - lá no futuro –farão você se orgulhar de ter tentado, de ter vivido, e construído o seu próprio percurso e não aquele que ditaram para você. Porque vai ter sempre alguém lhe apontando soluções prontas e porções mágicas, para fazer a sua vida acontecer. Vai ter sempre alguém desejando-lhe marionete, para exercer poder sobre a sua vida.

E eu digo que, em se tratando de bons costumes, nada é mais correto do que respeitar a humanidade de cada um, dando-lhe a oportunidade de exercer o seu direito e a sua cidadania e, consequentemente, os seus acertos e desacertos.
Pois, como afirmou a professora Ana Adelaide Peixoto, em seu texto Conversando Fiado: “na vida, não existe erro, mas sim, material para construção do nosso próprio percurso”.

E eu digo, ainda, que ser árbitro é tentador, pois tira o foco das nossas fraquezas e das nossas limitações, para centrar o material de artilharia no outro que, muitas vezes, só cometeu um único pecado: quebrou o espelho de Narciso.

“E Narciso acha feio o que não é espelho”.

5 comentários:

Paula disse...

Ótima reflexão, fiquei aqi pensando...
E adoro essa música do Caetano.
Bjos,
Paulinha

Letti disse...

Julieta,
Você é uma cronista de mão cheia. E o tema não poderia ser mais pertinente.
Tem gente que não se enxerga e preenche seu espelho, vazio de si, do que "julga" ser o erro do outro. Mal sabe que é a imagem dele mesmo e que só (porque) ele não viu, não significa que não esteja lá.
Beijo grande,

Compondo o olhar ... disse...

que texto amiga!! maravilhoso... uma reflexão profunda do ser humano, parabéns!!!

brigadinha pela visita, e volte sempre...

bjocas

C. S. Muhammad disse...

Ai, Juliêta... você escreveu e disse tudo o que eu queria e mais. Como me enoja este hábito de apontar o dedo e de "jogar pedras"...

Cáh! disse...

nao so o post ta perfeito..como a foto que tu colocastes tem tudo a ver neh
boa reflexao!