Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O Espelho e Eu







Ele está ali, parado, convidando-me para um encontro. Recuo porque tenho medo e pergunto-me: será que eu estou pronta?
Ela, a menina em mim, diz que não, a mulher responde sim! Ambas carregam, em seus corações, esperanças... E duelam entre si.

Imóvel em seu canto, ele nos espreita a espera de confissões. Quem dará o primeiro passo, parece se perguntar. E ela, até então hesitante, diz: quem é essa que agora me desafia, propondo mudanças e remição para os meus pecados?

Amei sim, e fiz do amor meu projeto de vida. Colori os meus dias com sonhos românticos desafiando os costumes da época. Dei mais de mim do que deveria, ignorando as regras do jogo e da conveniência, ousei cantar em versos esse sentimento por dias, meses e anos, embrulhando-o para presente e colocando-lhe o selo da eternidade. Desafiei o tempo plantando esperanças, tentando salvar o amor, mas o relógio da vida não me deu trégua. Foi um sonho, apenas um sonho e nada mais.

E agora, diante dele e de seu silêncio respeitoso, ela se esvazia de todas as saudades para deixar que a outra fale por si.

-Não me reconheço mais, diz a outra. E voltando-se para ele – o Espelho - diz: acaba de nascer uma nova mulher... Eu! Eu que de mim gosto tanto, coloquei o amor para dormir até que alguém que realmente o mereça venha acordá-lo. Quiçá faça como na canção do Caetano: “venha nos restituir a glória, mudando como um Deus, o curso da história, por causa da mulher”.

E, sem isso, nada feito... Cresci! E a mulher, em mim, disse sim... Mudei! Fiz as pazes com a menina que fui, até então, diante do espelho.

Um comentário:

Lúcia disse...

Que maravilha quando a gente se reconcilia com outras de nós que nos habita! Mesmo que mais tarde outras apareçam nos exigindo uma nova reconciliação.
Que bom poder compreender as suas palvaras!
um abraço.