Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

domingo, 5 de julho de 2009

Despedida







Era em lugar escuro e acolhedor que ela o escondia. Alimentava-o todos os dias de sua própria seiva e extraía da vida a alegria, a coragem e a garra, transformando tudo isso em um manto de proteção, para envolvê-lo nas noites frias e tempestuosas.
Gostava de saber que ele estava a salvo dentro dela! Concentrada em protegê-lo por dias e meses, numa eterna vigília, ela esqueceu de si e até mesmo do tempo! Lembrou-se, no entanto, do arqueiro... Sabia que ele a usara com um propósito e aceitou, com orgulho, a sua missão, embora soubesse que, no futuro, teria que pagar um preço alto por esse acordo.
(...)
Um belo dia, ele - o arqueiro - flecha em punho, arremessa-a para tão longe quanto dá a potência do seu arco. Ela então, substitui a alegria pela dor e chora, aliás, ambos choram: ele porque perdeu o acolhimento, o abrigo, o refúgio das dores do mundo e ela por saber que, a partir dali, nada mais pode fazer a não ser acompanhá-lo em sua luta titânica, para se transformar em um ser humano decente, num mundo de tantas adversidades...
E hoje, cerram-se as cortinas, o seu papel acaba ali. Devolve-o para o mundo. Esse era o pacto com o arqueiro.
A partir de agora, nasce você, meu filho, pra vida! Morro eu, mãe...

7 comentários:

Andreia disse...

Nossa fiquei arrepiada!
Como escreves menina, de onde vem esta fonte...
Texto maravilhoso, terno e emocionante!
Beijosss e obrigada pela doce visita.
Tenha um delicioso Domingo!!!

dade amorim disse...

Olá, Juliêta. VIm deixar um beijo e carinho.

Andreia disse...

Olá! Obrigada por sua agradável visita e doces palavras...
Espero que volte sempre!!!
Beijos e uma linda semana...

Nina disse...

Ju!
os meninos crescem, criam asas. Penso qd os meus tiverem que sair de casa, acho que eu vou sofrer um bocado. Saudade qd eles eles fazem pequena viagem sem mim, ja doi,imagina eles saindo pra morar longe, vixi maria.

vc escreve tao bem querida.

entremares disse...

Quando ele abriu os olhos, foi recebido pela luz.
No local onde antes se abrigava, reinava a escuridão… uma escuridão macia e cinzenta, repleta de toques, de frases longínquas e sabores estranhos. A vida, esse indecifrável mistério… escorria-lhe por entre os dedos, percorria-lhe o corpo, palpitava o coração.
O choque foi brutal.
Respirar era um gesto doloroso, sentir frio era algo de estranho, nunca provado.
De repente, sentiu-se jogado de braços em braços, até se imobilizar sobre uma pele de sabor conhecido, um gosto familiar.
Serenou.
Os ruídos exteriores foram diminuindo aos poucos, embalado por uma mão quente que o apertava.
Abriu os pulmões e chorou.
Chorou não de fome, nem de frio, nem de desconforto. Chorou simplesmente por ter nascido. Chorou simplesmente por, de uma estranha maneira, ter morrido também…


( Os laços perduram... o amor constrói-se... e vence o tempo, vence tudo )

Beijos.

Gilberto disse...

Lindo texto!!!! bjos maezinha. Te amo uma exorbitância

Ronaldo Monte disse...

Gostaria de saber mais sobre esta perda. O texto está muito metaforizado. Mas seja como for, como diz o filósofo Zeca Pagodinho, "o dono da dor sabe quanto dói". De minha parte, digo com conhecimento de causa: toda separação é dolorosa. Um beijo. Ronaldo.