Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O Amor em Digitais






O tempo, construtor de sonhos, pulou a cerca das horas e modernizou o amor. Hoje, basta teclar www.solitarioprocura.com.br ao alcance das nossas mãos, podemos escolher com quem partilhar a nossa vida. É o amor na era digital.

Fruto do avanço tecnológico, o computador, essa ferramenta que encurta distâncias e transforma a rotina das pessoas, provocou uma verdadeira revolução na maneira como elas se relacionam. Basta uma tecla acionada e escolhemos o amor em digitais, que pode ser: louro, moreno, alto, baixo, gordo, magro, olhos azuis, castanhos...
Se antes o espaço geográfico era motivo de distanciamento entre os casais, agora, com apenas um toque, uma janela se abre e podemos visualizar e ouvir quem está do outro lado da tela, atenuando, assim, a solidão e a saudade tão comuns àqueles que mantêm relacionamentos à distância. Além disso, temos a vantagem de disfarçar por meio da economia de palavras, os erros do nosso português ruim, pois numa linguagem simbólica não virou naum, você virou vc e também virou tb.

Por outro lado, se hoje é possível dispormos desse instrumento para facilitar a comunicação e diminuir distâncias, é importante que façamos uma indagação: - “que afeto é esse feito de ausências e que sobrevive sem o cheiro, o tato e a emoção do olhar?” O amor, vivenciado dessa maneira, é a antítese daquele que guarda na pele o perfume, na boca o sabor do último beijo e no olhar, a intensidade da paixão. Longe dos sentidos perdemos o melhor da relação: o encontro, o brilho no olhar e a possibilidade de guardar num diário, não virtual, aquela rosa branca - lembrança de uma tarde de carinho - o papel do chocolate preferido e uma mecha de cabelo envolta, cuidadosamente, num laço de fita vermelha. Saudades perfumadas, indeléveis e tão antigas quanto aquele coração esculpido na árvore que, ainda hoje, conserva as nossas promessas... Um amor também em digitais, mas presente, que não possamos esquecer e ignorar ao simples toque da tecla “delete”.

Por tudo isso, só nos resta admitir o sucesso dessa conquista, fruto da modernidade, mas lamentar que o tempo que pulou a cerca das horas, não seja o mesmo que tingiu de sépia as páginas onde registramos a nossa história, porque lá, nas folhas perfumadas de um velho diário, vamos encontrar a vida real ao vivo e em cores, seus encontros e desencontros e um amor construído dia após dia.

2 comentários:

ONG ALERTA disse...

Podemos escolher qualquer coisa hoje, mas precisamos saber sentir, paz.

neli araujo disse...

Gostei muito daqui! Vim através do blog Entremares do Rolando.

“que afeto é esse feito de ausências e que sobrevive sem o cheiro, o tato e a emoção do olhar?”

Esta pergunta eu me faço todos os dias...

Muito boa tua relexão!

Um abraço,

neli