Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A Liberdade das Asas





Caminho pelos desertos de mim à procura do que fui um dia: se lagarta, o casulo não me serve mais, pois nas asas de uma borboleta eu ganhei vida e, hoje, sacio essa fome de mim recolhendo fragmentos de minhas asas para me recompor.

O invólucro não me seduz e o porto seguro já não me atrai. Quero a liberdade das asas, dos ventos e das manhãs primaveris, para pousar nas margaridas e, junto a elas, sentir a brisa em meu rosto saudando um novo dia... Um outro recomeço. Chega de fazer promessas que não posso cumprir. De iniciar o ano com uma lista interminável de bons propósitos, se cada amanhecer traz uma nova perspectiva de fazermos diferente, o velho hábito de sofrer – sem sofrer - e nós nem nos damos conta disso.


Listas não servem pra nada, pelo menos, não nesse caso. Elas falam a linguagem do cotidiano, da mesmice, e, muitas vezes, o que estamos precisando é de uma boa corrente de ar, de uma arejada nas idéias pra botar fora os sonhos obsoletos, e os desejos irrealizáveis...


Por isso, viajo pelos desertos de mim a princípio adejando, e logo depois, alçando vôos em direção ao infinito, que é o limite da minha capacidade de sonhar e de me refazer.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Cheiro de Maresia





Antes era um filme colorido, um arco-íris de felicidades, uma porta aberta para as possibilidades.
Depois, uma película em preto e branco, um céu nublado anunciando o cinza e uma porta fechada adivinhando tempestades.


O cheiro de maresia aportou em meus devaneios e de longe, de muito longe, eu vi o teu barco sumir.
A chuva que cai nesse instante são as lágrimas colhidas de minha dor.
E, agora, no meu amor, não há peças em reposição! Uma vez rejeitado, desprezado... Enterra-se!

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A Palavra e o Silêncio








A que se ter respeito com a palavra, mas a linguagem do silêncio... Ah, como ele fala, e como fala! Os nossos olhos têm a vastidão de um deserto em branco feito folha de papel, e neles escrevemos canções e histórias de amor que a borracha do tempo não consegue apagar.

Se alguém me pergunta se estou falando a verdade, eu lhe indico o caminho dos meus olhos: eles não mentem, jamais!
Neles, eu silencio o meu desejo mais eloquente para que as palavras brinquem de enganar. 
Se eu tivesse o dom da poesia ou a delicadeza e a sensibilidade do poeta, lançaria um olhar enternecido às palavras para que elas me libertassem dos sonhos impossíveis, que uma noite insone, me faz sonhar: - sonho com declarações de amor, com ternuras antigas despejando favos de mel em minha boca, com palavras sussurradas ao meu ouvido em forma de canções mas quando acordo, vejo apenas um dicionário de mentiras, no meu mundo da imaginação.

Ah, as palavras! Como elas destroem sonhos e desejos. E como mentem... 
O silêncio por sua vez, esquece os erros do meu português ruim, com suas vírgulas mal colocadas, seus pontos e vírgulas hesitantes, suas crases não percebidas, suas interrogações duvidosas e suas concordâncias verbais, para dizer com o olhar o que um mundo de palavras não conseguiu silenciar: eu minto cada vez que falo e amo cada vez que olho...

Na linguagem do meu olhar eu guardo um mundo de segredos!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A Ponte do Começo de Mim







No meu caminho há sempre uma ponte que me leva ao começo de mim quando insisto em acolher uma atitude contrária ao que sou. Não tem jeito, fui moldada na argamassa dos meus ideais, e eles assinaram um contrato com a eternidade. Estão sempre por aí, exigindo providências e feituras, que muitas vezes ultrapassam a minha capacidade de ação. Fazer o quê? Vou vivendo e aprendendo cada vez mais a exercer a minha cidadania, procurando fazer a diferença entre tantos seres mutilados por percepções enganosas.

Posso evoluir em diversos aspectos da minha vida, estagiar pelas mais diversas culturas, mas aquilo que sou e que fez parte do alicerce que serviu para construção das minhas raízes; isso continua inalterado. Não sofre de impermanência.


Quer um exemplo? Nada, nenhum dinheiro, nem nenhum poder do mundo, me fazem trair as minhas convicções e os meus valores morais. Tudo o que aprendi sobre o respeito ao direito do outro, à natureza e ao amor incondicional pela minha Pátria – quaisquer que sejam os seus governantes e seus desmandos – ficaram impregnados em mim, perfumando a minha alma de uma forma indelével.


Por conta disso, no meu dia e a cada dia procuro exercer a tolerância e a paciência, mas está difícil diante de tanto descalabro. Olho através da janela do meu carro e vejo o cidadão a minha frente – será que ele pode ser chamado assim – atirando o lixo à rua. Abro os jornais e vejo, envergonhada, a corrupção campeando e a impunidade servindo de convite, de porta de entrada, para aqueles que querem que a lei de Gerson permaneça “ad infinitum”. Ouço histórias de autoridades que deveriam dar exemplos, mas que se locupletam no poder à custa da miséria alheia. E como se não bastasse tudo isso, ainda tem o anacronismo de certas pessoas que parecem estar na era da pedra lascada e não sabem ainda os seus lugares no mundo. Do contrário, não exibiriam sua arrogância e o seu despreparo pra vida, perguntando por aí: 
-“vocês sabem com quem estão falando?”

Ah, que dá uma vontade danada de responder, isso dá:
- “se o senhor não sabe, imagine eu!”


É por essas e outras, que alguns brasileiros se desencantam e vão embora. Esquecem que o Brasil são eles e atravessam uma estrada que não tem ligação com a ponte do começo de mim!

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Essa tal Felicidade!



O que me dói é não saber certezas. É não ter as respostas antecipadas para os “se”.

E se eu tivesse aberto a porta do meu coração para aquele novo amor, o que teria acontecido? E se tivesse vivido aquela paixão avassaladora, que me consumiu dias e noites, qual teria sido o seu fim? E se tivesse dado asas àquela voz tentadora despejando ternuras ao meu ouvido, cada vez que eu atendia ao telefone. O que poderia ter surgido a partir daí? E se tivesse feito àquela viagem... Aquele curso? Oferecido o meu perdão, o meu ombro amigo. Quais seriam as conseqüências de tudo isso?


É, são tantos os “se” e tantas as possibilidades de se viver, quando deixamos o conforto da janela de onde vemos a vida passar, para abrirmos a porta ao inesperado, que somente aqueles que se arriscam são capazes de vivenciar.


Por vezes, tememos que essa e não aquela atitude, que esse e não aquele caminho seja o melhor. Mas esquecemos que escancarar a porta nos dá uma visão do todo, possibilita a entrada do ar que nos dá a vida. Que da janela o que temos é apenas parte da paisagem; enquanto que a porta significa a liberdade do primeiro passo. Asas para voar! Livre, leve, solto e ainda correndo o risco de ser feliz.


Pagar pra ver, eis o preço dessa tal felicidade!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O Encontro



Havia se passado tantos anos e ele, agora, ali parado, trazendo em suas mãos, as nossas cartas de amor.
Gotas de chuva misturavam-se às lágrimas de alegria. Eu chorava por dentro!
A poeira do tempo levara consigo o marcador das horas.
Naquela noite, o meu amor tinha a idade dos meus 15 anos.
O relógio parado desistira de contar o tempo, diante da resistência daquele amor, que não se rendera ao passar dos anos.
Ali estavam ele, ela e um amor guardado por quase meio século dentro de uma caixinha de veludo.
(...)
Que pena! Fui ao seu encontro nas asas dos meus sonhos, mas você não se vestiu de amor...