Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

domingo, 5 de dezembro de 2010

Meu Primeiro Autógrafo







Minha filha, quando você teve a ideia de transformar o blog Reconstruindo Caminhos, editando-o como livro, para junto aos seus irmãos, presentear-me no meu aniversário, fui surpreendida pela sua capacidade de reinventar-se. Explico: é que nós, mães, temos a pretensão de achar que os nossos filhos são uma extensão dos nossos pensamentos e, em sendo assim, somos possuídos pela certeza de conhecê-los, tão profundamente, que nada de novo nos escapa... Ledo engano!

Você me surpreendeu, mais uma vez!

Um caminho feito de velas, um buquê de flores sobre a mesa, uma caneta e sessenta livros era a confirmação de que aquele dia 29 de abril, que se apresentava atípico, não fora esquecido, pois até aquele momento nenhum presente ou movimento indicava a lembrança de que aquela era uma data especial: o meu aniversário! Mas, ali estava a prova do carinho, da dedicação e do amor desmesurado: um blog transformado em livros!

Passada a surpresa e a emoção veio a pergunta inevitável: - o que eu farei com esses livros? Sim, porque no prefácio há um derramamento de palavras que, na realidade, só é justificado pelo amor filial! E, em conseqüência disso, pensei: como lidar com as críticas advindas de tamanha pretensão?! Como receber um título que não me cabe?

E, se de repente, alguém me cobra o primeiro autógrafo, o que direi: autografar, eu?

Não sou escritora, pois me faltam o conhecimento, as leituras e a tessitura das palavras. Sou apenas uma escrevinhadora das minhas emoções: quando contemplo o mar, as noites enluaradas, os dias de chuva, as flores, os verdes campos e, principalmente, à noite; minha filha, quando me debruço sobre a sua cama para velar o seu sono.

- A quem dedicarei as minhas letras, esse alfabeto de amor que eu construí brincando com palavras que cheiram a naftalina?

Hoje, pensando nisso, lembrei que é o dia do seu aniversário! O primeiro que passa longe dos meus braços e do carinho da sua família. Ao acordar, num país distante, não há um café da manhã regado com carinho, não há bolo, velas, almoço especial, tampouco um efusivo “Feliz Aniversário,” comemorado por todo o dia, numa extensão da nossa alegria por você fazer parte das nossas vidas, durante esses trinta anos.

Pois bem, é para você que eu dedico, hoje, o meu primeiro autógrafo: a assinatura de um amor desmesurado, cheio de gratidão e carimbado com o selo da eternidade. É para você, Juliana, que vão todos os meus pensamentos de amor, de fé, de alegria e de admiração.

Se eu estivesse ao seu lado, agora, faria uma passarela de pétalas de rosas para tornar o seu caminhar mais suave e diria: o mundo seria melhor, se todos fossem iguais a você!

Gostaria de ser uma escritora, mas não sou! Falta-me, também, a intimidade com as palavras... Porém, nas minhas letras com cheiro de naftalina o alfabeto do amor será sempre seu, pois você foi, sem dúvida, o melhor livro que eu escrevi... Amando!

Feliz aniversário, minha filha!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Silêncio da Alma





Os momentos pontuados pelo silêncio são inesquecíveis... Neles, o verbo cala e a alma, feito criança, espalha lembranças, saudades e brinca com o tempo. Passa a vida a limpo... Silenciosamente.

Há dias em que estou assim: silente! E, se me perguntam, por quê? Eu respondo: - a nudez das palavras ainda veste os meus lábios de poesia, mas me calo... Não quero mais pagar a fatura do abandono, da rejeição e do esquecimento com as minhas letras encharcadas de amor. Cansei!

E, por conta disso, vivo brigando com o tempo verbal da minha escrita. Valho-me da irregularidade do verbo ser para criar as minhas contradições. Ora conjugo-o no pretérito e peço abrigo ao passado, para não expor a nudez dos meus sentimentos; ora no presente, assumindo de vez a incoerência nas minhas palavras e reafirmando esse amor que nego tanto.

Alguns dirão que sou uma fraude! Mas, a quem interessa as minhas dores?

Escrever, nesse caso, é alinhavar palavras que doem, é expor a alma em doses homeopáticas, é lamber as feridas através do verbo, é tocar de leve na dor que lhe consome quando, na verdade, o fogo e o desespero lhe queimam por dentro, e o que você mais deseja é cobrar a fatura desse sofrimento que lhe rouba a paz e o sossego.

Por isso, me calo, distanciando-me do barulho e da nudez das palavras que denunciam a minha dor. Vivo apenas as lembranças e as saudades que cabem dentro de mim e, que não me comprometem, nem fazem sofrer.

Ao transitar, nesse momento, entre o passado e o presente, estabeleço um embate entre o desejo de falar sobre esse amor e as ranhuras que ele me fez, mas... Vence o silêncio da alma.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Um Tempo para Sentir


A escritora Martha Medeiros nos diz: “Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.” Pois bem! Neste tempo de tecnologia avançada, onde tudo vira passado num piscar de olhos, eu quero a minha vida de volta para sentir o que já não sinto e viver o que já não vivo... Vida!

Quero um tempo para saborear a fruta no pé
e algumas horas para descansar à sombra da goiabeira.
Quero um tempo para tardes de sol
e vento no rosto a desalinhar os meus cabelos.

Quero um tempo para sentir o cheiro da grama molhada
e para banhar-me nas lágrimas do céu.
Quero um tempo para observar o jardim cheio de flores
e as borboletas em seus volteios a sugerir-me o prazer da liberdade.

Quero um tempo para abraçar o flamboaiã amigo
e nele armar um balanço para retirar das nuvens
o algodão doce das minhas fantasias.

Quero um tempo de portas e janelas abertas,
para acolher o amigo que se aproxima.
E, de quebra, uma lareira acesa
para, em tardes mornas fazer carinhos e exercitar ternuras...

Quero um tempo para amar...
Voltar a sorrir sem medo de ser feliz!
Quero, enfim, um tempo para sentir!

Quero um tempo para sentir, pois estamos vivendo num frenesi, cujo único objetivo é conjugar o verbo fazer, em todos os seus tempos. Parece que isso é a única coisa relevante a fazer em nossas vidas.
Em virtude disso, olhamos para o nosso semelhante com distanciamento; e como diz Jean Paul Sartre: “O inferno são os outros.” E a partir daí, nos afastamos dos nossos afetos, das nossas lembranças do que era ser feliz e, principalmente, do SENTIR, dom singular, incomparável, que é o que nos torna verdadeiramente humanos.


PS: Esse texto é uma homenagem ao blog: “Flor de Lis,” que faz da arte de viver um eterno SENTIR.

sábado, 16 de outubro de 2010

Enquadrar-se






Escreva em 20 ou até 25 linhas sobre o tema: enquadrar-se. Essa é a proposta do professor de redação em sala de aula.

De imediato, reflito: não consigo, pois o que penso e o que sou é a antítese do que ele me pede. Não me enquadro nem nas linhas, nem no tema. Pra falar a verdade, eu me desenquadro no geral...

Vivo à margem de qualquer conceituação do que seja moderno, principalmente, se isso faz referência ao amor. Este sentimento que hoje é colocado nos balcões da vida como mercadoria e que compra quem tem mais dinheiro, status ou poder.

Para enquadrar-me nos moldes atuais, eu teria que abrir mão da minha individualidade... Desconstruir-me. Negar a matéria dos meus sonhos e esse amor tão antigo, que aprendi a amar, amando.

Tudo o que sei sobre esse sentimento é inegociável, sobretudo, porque a moeda pelo qual ele foi adquirido saiu de circulação. Paguei por ele o preço da admiração, do respeito, da compreensão, da tolerância e do perdão. Sentimentos e palavras em desuso, mas que humanizam e que na realidade estamos sempre a cobrar do outro como se fôssemos perfeitos.

Para enquadrar-me eu teria que abrir mão ainda de detalhes que enriquecem as minhas histórias de amor e que guardo nas gavetas da memória como jóias raras... Para alguns são miudezas, bugigangas e quinquilharias que nada acrescentam, mas para mim são como brilhantes que reluzem e dos quais eu não abro mão, nem os trocaria por todo dinheiro do mundo.

São bens e atitudes de valores inestimáveis, entre outros: uma pequena flor colhida no mato, um conjunto de ferramentas para cuidar do jardim, uma tesoura para cortar o frango e uma pequena caneca para tomar café. Presentes que me foram dados por pessoas que cumpriram à risca o manual do bom amor: aquele que se importa com o outro, que sente a necessidade e se antecipa e, principalmente, aquele que se dispõe a gastar o seu tempo, para acender uma fogueira e ouvir a pessoa amada até a queima do último carvão.

Alguns dirão: - Que simplório! Quanto romantismo fora de época!

Ao que eu respondo: - é por isso que eu não me enquadro! Nem nas linhas, nem no tema. Sou adepta dos valores, das atitudes e dos amores antigos... Anacrônicos. E, além disso, já deixei por escrito que ao morrer, quero ser cremada e que as minhas cinzas sejam espalhadas por todos os lugares: calçadas, ruas e praças por onde andei de mãos dadas com os amores da minha vida. Lugares que contam um pouco da minha história. Uma história que venceu o tempo e que tem um sentimento com gosto de eternidade.

Por tudo isso, decididamente, eu não me enquadro nesse pós-modernismo que a tudo comercializa até mesmo o amor, transformando sentimentos, valores e pessoas em marionetes a serviço da propaganda, do consumo e da vaidade exacerbadas.

Sou uma moldura antiga... Uma peça que se desenquadra em 61 linhas e que está fora de uso... Démodé!

sábado, 18 de setembro de 2010

A Verdadeira Beleza que Importa






O poeta Vinícius de Moraes eternizou o culto à beleza na seguinte frase: “as muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.”
Desde então, as mulheres vivem numa crescente busca pela imagem perfeita. Estamos na era das bonecas de plástico...

A estética é algo agradável aos nossos olhos, nisso todos concordamos, mas a medida que serve de parâmetro para avaliar o grau das nossas escolhas e de felicidade, assume nova forma, e aí a coisa toma outro rumo, uma vez que priorizamos o descartável, o transitório e o imponderável.

Vivemos uma época em que o culto ao belo aliado a uma tecnologia avançada virou à tônica do presente e o filão que engorda as contas bancárias de clínicas e academias. Estamos sempre em luta contra os ponteiros do relógio, numa busca desenfreada por algum procedimento que melhore a nossa imagem. Por conseguinte, nos perdemos atrás de algo que não nos define, nem qualifica.

Quando alguém, ou mesmo tu me olhas ou desejas, avaliando apenas os meus atributos físicos, penso: se esse é o preço da tua admiração e do teu amor, não estou disposta a pagar, pois gosto das marcas que o tempo desenhou em meu corpo. São sinais que me individualizam. Não pretendo abrir mão deles para saciar o teu olhar de lobo.

Gosto do que vejo! Não costumo brigar com o espelho. Nele, estão refletidas as minhas rugas e cicatrizes, e na flacidez da minha pele os vestígios das horas que passam. Mas, para além do espelho estou eu. O eu que importa: olhos, ouvidos e mãos. Esses, de fundamental importância para se mensurar a beleza que realmente importa, pois são os meus olhos que se dirigem em tua direção e veem o vazio da tua existência, ainda que nada me contes; são os meus ouvidos que silenciam as vozes do mundo para te ouvir e são as minhas mãos – ainda que enrugadas - que se estendem para te abrigar em noites de frio e tormenta.

Portanto, não me olhes como uma boneca de plástico, valorizando apenas a estética, pois é a minha alma que te salva. É ela que se esvazia de mim para te preencher... E, além do mais, Vinícius que me perdoe, mas essa é a beleza fundamental.

sábado, 21 de agosto de 2010

Uma História Real









Os desígnios de Deus não são para serem entendidos e sim, aceitos!


Por que eu ou por que comigo? É sempre a primeira pergunta que fazemos quando alguma coisa foge a nossa compreensão.


Passar ao largo do sofrimento, nessa vida, é o que todos almejamos... Mas, como isso é impossível, a pergunta é: o que fazer quando ele bate a nossa porta de maneira inesperada?


Aceitar! Ainda que doa, porque os clichês: “tudo tem uma razão de ser” e “nada acontece por acaso,” são explicações que na nossa razão – no momento da dor - não encontram entendimento, nem conforto. Foi o que aconteceu comigo!


Ao folhear as páginas do Jornal Correio da Paraíba, do dia 06 de maio de 1992, eu li a seguinte manchete: “Meninos de rua realizam campanha.” E, logo a seguir, a explicação: “A Comissão de Sapé do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua lançou uma campanha, ontem, para angariar recursos em favor do deficiente visual Carlos de Pontes Coutinho, que depende de um transplante de córneas para ter a visão.”


“A campanha é para adquirir o equivalente a Cr$ 7 milhões, já que o transplante de cada córnea (segundo o Dr. Tarcísio Dias) custa Cr$ 3.500.000,00. Carlos de Pontes Coutinho é voluntário no trabalho com crianças e adolescentes do município de Sapé, portanto pessoa muito querida.”


Os valores supracitados correspondem, hoje, a, mais ou menos, R$ 7.000,00 (sete mil Reais) e R$ 3.500,00 (três mil e quinhentos Reais) respectivamente.


Quando li a notícia, fui tomada por uma forte emoção e pedi a Deus, em prece: “- Senhor! Permite-me ganhar, hoje, na loteria para eu financiar a cirurgia desse homem, pois uma pessoa como essa não pode continuar cega.”


“- Ajuda-me, Meu Deus, a fazer alguma coisa por ele!” Essa foi a última frase que pronunciei naquele longínquo 06 de maio.”


Infelizmente não ganhei na loteria. E, lamentei não poder ajudá-lo...


Pois bem, no dia 10 do mês em curso, já tinha esquecido o assunto, quando pedi ao meu marido uma parte do jornal para ler. Ele entregou-me apenas os classificados. E, qual não foi a minha surpresa ao me deparar com um pequeno anúncio, em que o Dr. Vanderlan Carvalho se oferecia para fazer a cirurgia do Senhor Carlos, gratuitamente. Fiquei feliz e, em silêncio, agradeci a Deus, mas não comentei com ninguém sobre o assunto.


Na quinta-feira, 14 de maio, à tarde, ao encontrar-me com o meu marido no seu local de trabalho para juntos voltarmos para casa; ele sentiu-se mal e teve morte instantânea provocada por um infarto agudo do miocárdio.


(...)


Horas depois, por sugestão de uma amiga, ofereci as córneas dele para doação. Dois médicos recusaram: um, porque não conseguiu localizar os pacientes que precisavam de transplante e o outro, por não possuir banco de olhos. Esse me pediu permissão para oferecer a uma terceira pessoa, ao que eu assenti.


Naquele dia 14, pela manhã, Carlos de Pontes Coutinho viera a João Pessoa para se submeter aos exames e fazer a cirurgia, gratuitamente, conforme prometera o Dr. Vanderlan Carvalho, mas como não havia nenhuma córnea para ser transplantada, voltou para sua cidade.


À noite, ele foi chamado pelo Dr. Tarcísio Dias, àquele que, “coincidentemente,” vinha a ser o oftalmologista que cobrara Cr$ 7 milhões para fazer o transplante, objeto da campanha no Jornal Correio da Paraíba e, que acabara de receber, por indicação de seu amigo, as córneas de meu marido. O inacreditável disso tudo é que ele, também, resolveu fazer o transplante, gratuitamente.


Depois disso, passei a não acreditar em coincidências, pois foi dessa maneira e não com a loteria, que o meu pedido a Deus, para ajudar àquele rapaz, foi atendido.


O que aconteceu me custou muita dor e sofrimento, mas nunca perguntei: por que eu, por que comigo? Pois os desígnios de Deus não são para serem entendidos e sim, aceitos.


E, além do mais, ficou a lição: o que tem de acontecer tem força! Coincidências não existem!




terça-feira, 10 de agosto de 2010

Para Meu Filho, Gilberto







- E aí, coroinha, tu me amas?
- Sim, meu filho, eu te amo!
- Pouco, muito ou uma exorbitância?
- Uma exorbitância!
- Se eu morrer, tu choras?
- Choro.
- Pouco, muito ou uma exorbitância?

Era dessa maneira – com esse diálogo - que entravas em nosso lar e feito um furacão pedias casa, comida, roupa lavada e de quebra um amor incomensurável (sem cobranças, é claro!) capaz de abrigar os teus anseios e curar todas as tuas carências.

(...)

Mas, de repente, se fez silêncio. Um silêncio incômodo! Que fala de ausência e de saudades... Olho a mesa posta e ouço a canção: “Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele, tá doendo em mim”.

- Penso: será que exerci o amor de mãe em sua total plenitude? Será que falei que te amava o suficiente para te abastecer de certezas pelo resto de tua vida?

- Não sei! Amor por mais que se dê, ainda é pouco, dirão alguns.

Se pouco, se muito ou uma exorbitância, eu não sei. A verdade é que eu te amo o bastante para te ver crescer e ir embora; ainda que isso me doa, para te ver trilhar caminhos nunca antes percorridos; ainda que isso me incomode, para te imaginar nas fronteiras do perigo; e ainda assim, te incentivar a partir.

Amo-te tanto e tão intensamente, que ao te colocar no mundo deixei meu coração em aberto, só para abrigar todos os teus sonhos como se fossem meus.

Amo-te tanto e a tal ponto, que vivo brigando com as horas que se esvaem, que se esgotam e mal me dá oportunidade de falar de amor, de ajeitar carinhos e construir ternuras.

“O Tempo não Para” já dizia o poeta Cazuza. Por isso, quero aproveitar, hoje, da urgência do meu sentimento para eternizar nessas poucas linhas o amor, o respeito e a admiração que sinto, por ti, meu filho.

Amo-te tanto que, diante do silêncio da tua ausência, resolvi dizer que a saudade é tamanha, que o tempo resolveu zombar de mim porque ele sabe passar e eu não sei...

Sinto a tua falta!

domingo, 1 de agosto de 2010

Aprendiz do Caminho






Enquanto caminho, aprendo!

Não carrego manual de instrução, tampouco possuo uma tecla liga/desliga/deleta. Vou vivendo e aprendendo com a vida. Ela, e só ela, me dá o norte que preciso à medida que corrijo os erros do meu caminhar.


Não construo certezas, apesar de viver em um mundo cheio de regras e de tantos semideuses. O meu dia-a-dia se alimenta do inesperado e a cada instante revejo as minhas convicções. Olho para o outro e antes de apontar-lhe o indicador, penso: o que eu faria se estivesse em seu lugar? E, aprendo! Aprendo mais sobre o amor - fonte de toda sabedoria – e escolho viver em paz com a minha consciência.


Por não possuir manual, erro, e erro feio algumas vezes, mas utilizo as frases mal costuradas do meu orgulho para pedir perdão. O efêmero, o passageiro e o transitório, essa trindade que adjetiva as minhas horas e ensina sobre a passagem do tempo, também me dá a percepção de que administrar essa tríade com inteligência, respeito e humildade, é viver com sabedoria. Sabedoria necessária para me desviar das linhas retas, das respostas prontas e das soluções mágicas, que a todo instante estão sendo apresentadas pelos semideuses de plantão.


Tenho procurado conhecer mais sobre atalhos – caminhos diferentes - e confesso que isso, me faz sentir melhor. Eles me fornecem o aprendizado necessário, pois interrompem os meus passos, nas linhas retas, me obrigam a olhar em volta e me humanizam. Os meus pés, agora, são andarilhos de um caminhar sem pressa porque desenvolvi, no percurso, uma compreensão maior sobre quem sou e o que estou fazendo com aquilo que me tornei...


E, por que já não há tantas horas assim para serem desperdiçadas, entendo que: só se aprende, vivendo! De nada adianta as regras e os manuais de instruções, pois o que vale mesmo são as ranhuras que ela, a vida, nos faz, obrigando-nos a sermos mais brandos, mais compreensíveis e humanos no julgamento dos nossos semelhantes e nas nossas atitudes no meio em que vivemos.


Por isso, hoje, enquanto caminho, aprendo! Pois, um olhar diferenciado sobre a arte de viver me ensina a não gastar os meus dias e as minhas horas à toa! Sou um aprendiz do caminho dos meus próprios erros.

sábado, 3 de julho de 2010

Que país é esse, meu Deus!?





Não entendo de política tampouco de futebol. Talvez venha daí, desse desconhecimento, a ousadia do comentário: o Brasil está de chuteiras, enquanto os seus filhos chafurdam, literalmente, os pés na lama...
Não entendo, mas confesso que gostaria de entender. Como é possível uma nação, onde há tanta carência de investimentos em saúde, educação e moradia; onde há desvio de verbas públicas; uma política que beira o ridículo, com alguns dos seus representantes pegos com dinheiro em meias e cuecas, e outros fazendo manobras com o tempo verbal, para pôr em dúvida a lei da ficha limpa dos candidatos que pretendem representar, apesar de tudo, os nossos anseios nas eleições vindouras. Repito, gostaria de entender o porquê de ficarmos indiferentes, alienados, colocando a emoção ou o coração no lugar da razão.

Ah, como seria bom ver toda essa flama, essa energia e esse entusiasmo a serviço do bem-estar coletivo, num esforço conjunto para mudar os rumos da nossa pátria. Tanta desigualdade social, tanta miséria provocada pela má gestão do dinheiro público, e nós - os brasileiros - ali, atrás de onze homens e uma bola, seguimos firmes, fortes e animados – sem está nem aí – ostentando o orgulho nacional, no peito e na raça, por causa de uma “Jabulani”, quando há segredos a desvendar nos porões, por onde campeia a desonestidade e escoam as nossas riquezas.

“O Brasil não é um país sério.” - Frase atribuída ao general Charles de Gaulle, e assumida pelo embaixador Carlos Alves de Souza Filho, tempos depois, em um livro de memórias, - nunca fez tanto sentido quanto agora, pois, enquanto o país fecha as suas portas: repartições, bancos, comércio, indústria e escolas, para que o espetáculo do futebol tenha audiência e dê frutos a quem interessa; os nordestinos, estupefatos, veem as suas vidas serem arrastadas, literalmente, por um mar de lama, sem que haja um movimento efetivo – com a mesma dose de entusiasmo e patriotismo - tanto dos políticos quanto do povo em geral, para que catástrofes dessa natureza não mais ocorram.


Em nenhum momento da nossa história – à exceção das Diretas Já – vimos os brasileiros tão empenhados em mudar, de fato, os rumos da nação... Ninguém veste as cores da bandeira com tanto empenho e orgulho – como faz em época de Copa do Mundo - para defender o Brasil dos seus políticos corruptos que, eleição após eleição, deixa-o mais pobre e envergonhado.


Que país é esse, meu Deus!?

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O Contraponto









Somos nós que fazemos a nossa história, por isso não nos peçam para aceitar regras ou preceitos criados por uma sociedade machista, pois os tempos são outros e nós mulheres - ah! nós mulheres - há muito que fomos à luta.

Faz anos que deixamos de ser a menininha do papai e a bonequinha de luxo que o marido gostava de exibir. Já não temos mais casa, comida e roupa lavada à custa do “chefe da família.” Hoje, contribuímos com o suor do nosso rosto para o custeio familiar. Temos jornadas duplas, triplas e ainda nos cobram a beleza e a estética de um corpo bem cuidado, para não perdermos o posto de “rainha do lar.”

- Onde já se viu tamanho despautério? E o contraponto?

É interessante verificar que por onde os nossos olhos passeiam só encontram homens grisalhos, carecas, barrigudos, insuportavelmente arrogantes, vaidosos e cientes do seu poder, que, na maioria das vezes, resume-se apenas ao peso do seu bolso...

Pobres homens! Compram, hoje, em moeda vigente, pílulas azuis e a companhia de uma jovem que lhes tragam de volta a juventude e a virilidade perdida... E ainda chamam isso de amor!

Enquanto isso, nós, antigas menininhas e bonecas, que hoje também estudam, trabalham, pagam seus impostos e participam ativamente do progresso socioeconômico desta nação, temos que amargar a “solidão do único cálice de vinho,” porque viver e amar sem compromisso são prerrogativas dos homens.

Pobres homens! Esquecem que a vaidade, o orgulho e o poder estão no contraponto que nos dá o direito e a possibilidade de fazer tudo igual e ainda assim, escolhemos ser diferentes por respeito e compromisso apenas a nós mesmas...

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Desabafo






“-A marca da minha digital está aí. Essa sou eu! Portanto, não falem por mim, nem assumam o que não sou tampouco o que não sinto mais. Ainda conservo a voz, a lucidez e a minha capacidade de locomoção. Também conheço o meu papel e sei a hora certa de me retirar de cena!”

Esse foi o desabafo que ela fez, quando alguém lhe roubou a identidade, tomou posse de suas palavras e apresentou-se em seu lugar...

Que estranha mania têm as pessoas de pensar e falar em nome das outras. Não lembrava de ter feito qualquer confidência ou declaração de amor, mas aquela criatura propagava aos quatro ventos que sabia quem tinha a posse do seu coração e era o dono do seu amor. Coitada! Não soube ler nas entrelinhas a diferença entre o real e a fantasia... Não compreendeu que ela alinhavou retalhos de saudades, na época em que a sua alma espreitava a vida lá fora, apenas porque gostava de inventar histórias...

terça-feira, 15 de junho de 2010

Aprendendo a Amar







Matriculei-me em tua vida para juntos aprendermos o exercício do amor, do companheirismo e da cumplicidade. Frequentei um curso sobre fidelidade e com mãos de ternura aprendi a exercer o carinho que adormecia a tua alma... Fiz pós-graduação em paciência, tolerância, respeito e um pacto com a eternidade. Fiz tuas as minhas asas para que a alegria de voar não me distanciasse de ti... E foi aí, que eu me perdi: o sonho era só meu!

Hoje, desalada e sujeita às tentações, não sobrevoo mais nem os desertos da minha alma... Recolho-me, porque do amor só conheço a fantasia.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Cicatrizes






Tenho todas as mulheres dentro de mim e sou apenas uma... Carrego na alma, velhas e novas cicatrizes. Por isso, vivo sempre em carne viva!

Vou fundo no amor e na dor, porque gosto de intensidades e de envolvimentos. Não gosto do morno! Exercito a minha capacidade de sofrer até a última consequência e depois me despeço do sofrimento como se ele nunca houvesse feito parte de mim. Aprendi a conviver com as intempéries da vida e a respeitar todas as suas estações. Nesse momento, estou aprendendo a dizer adeus. Adeus de palavras e de sentimentos... Não os quero mais guardados nas gavetas da minha alma.

Fui outono... Passarela de folhas caídas. Fui inverno... Lareiras acesas. Sou museu... Sou do dentro... Sou saudades... Mas, sou acima de tudo primavera: " deixo-me cortar pra voltar sempre inteira."




sábado, 12 de junho de 2010

Faxina na Alma






Ontem, fez um lindo dia de sol. Animada, resolvi que amanhã carimbaria o meu coração com os dizeres: fechado pra balanço, faxina na alma! Mas, hoje... Ah, essa chuva que não passa e derrama lembranças fazendo-me vestir às mãos de poesia para abrigar, de novo, essa saudade que põe a minha alma em desalinho e faz festa, apenas, para o teu coração.

Penso: existem histórias de amor que não passam de um rascunho e outras que, décadas depois, ainda reclamam de nossos lábios a verdade dos nossos desejos... Isso é fato! Mas, o que fazer quando o desenho do voo não sinaliza o cansaço das tuas asas e as minhas pegadas na areia indicam que estive apenas de passagem por tua vida?

Concluo: tu és ar e eu, terra... E eu "só sei voar com os pés no chão", apesar de minha mente sempre vaguear preguiçosa, em desacordo com a urgência do meu desejo de ser feliz.

O tempo, esse capricho da natureza, não congela sentimentos nem respeita as estações. Ora chove, ora faz sol... Por isso, preciso apagar as tuas marcas na minha alma e começar uma vida nova. Quero ser feliz outra vez...

Portanto, a partir de hoje, ainda que essa chuva coloque o meu coração em desalinho, vou escolher lembranças que façam festa apenas dentro de mim.

Ah, essa chuva, essa saudade! Elas inventam tantas histórias. Quem sabe amanhã eu tenha um lindo dia de sol...






segunda-feira, 17 de maio de 2010

Um Destinatário para o Verbo Amar





Pelas janelas quebradas da minha alma eu vejo as horas passarem inclementes, desbotando saudades, enquanto eu insisto em tecer a vida com os fios da esperança...

O tempo desenha em meu corpo as marcas do tempo, mas preserva-me a alma nas pontas dos dedos para que o verbo caiba no universo dos meus sonhos e a saudade brinque de rabiscar o teu nome...

Sigo brincando com as palavras... Basta uma vírgula mal colocada, uma interrogação tardia, uma exclamação fora de hora ou três pontinhos e lá se vão as minhas letras pontuadas pela hesitação do meu amor não assumido... Alguém dirá: é ele! Eu respondo apenas que a posse das palavras não é minha, mas de quem as ler. Em minhas mãos eu tenho apenas o alfabeto e, quando escrevo, dou-lhes vida, mas quem as ler dá-lhes um universo de sentidos.

Procuro na escrita um destinatário para o verbo amar do meu amor, enquanto atravesso desertos de dor e solidão tentando resgatar a minha identidade. Gasto as palavras na tentativa de gastar também esse amor mal resolvido. E me pergunto: se elas me faltarem, esse amor, que está escondido entre pausas e vírgulas, também será esquecido?

Preciso tentar... Pois não quero mais um sentimento que me faz perder o rumo, o prumo, o chão e me leva pra longe de mim... Há tanta ausência entre a minha vida e a tua que, hoje, eu só sei contar o amor em saudades... E o tempo, em solidão!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Um Homem Singular






Aquele embrulho lhe pareceu estranho... Mas, ao lembrar do temperamento romântico e da delicadeza do seu amor, ficou em silêncio. Decidiu esperar! Conhecia bem a linguagem daquele olhar e, naquele dia, havia uma alegria incontida que contrastava com a serenidade dos gestos e com o tom suave da sua voz. Alguma travessura eles guardavam...

Não precisou esperar muito! Enquanto ela tirava fotos e feliz, comemorava o dia do seu aniversário, ele tirou um borrifador daquela sacola e começou a espargir água sobre o embrulho. E, ante o seu espanto, a revelação: ele havia trazido da sua cidade, um buquê de rosas vermelhas e durante todo o percurso, molhava as flores, para que elas não murchassem e perdessem a beleza. Cuidava delas com o mesmo amor, carinho e atenção que dedicou àquela mulher, por anos a fio.

Foi só então que ela se deu conta de quantos anos havia se passado desde a última vez que eles se encontraram e quão precioso era ser amada, assim, por aquele homem tão especial...

Um homem inteligente! Que tem respeito pelo tempo que passa velozmente e nos reduz a pó. Que sabe que as suas cinzas vão se espalhar pelos ventos e transformar vaidade, soberba, orgulho e poder em matéria para o caminhar dos que ficam... E por ter a noção exata de sua finitude e a emoção à flor da pele, vive o amor com a delicadeza e a sensibilidade que o sentimento exige...

Um homem singular! Que assume o seu querer, mas guarda-o no silêncio do olhar e na beleza das rosas...

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O Avesso da Mentira








Se é para viver, que eu esteja sempre inteira e se é para escrever, que a verdade seja a minha conduta.
Eu, pecadora, confesso: revisitar o passado, dói!

Pois ainda é tão presente a dor da minha saudade que durmo e acordo desejando a monotonia dos dias iguais, onde tudo é igualmente familiar, mas não causa tanto sofrimento.

É que, no momento, estou em fase de despedidas e cicatrizações e escrever me expõe em carne viva! Por isso, garimpo palavras que escondem o que sinto e brinco de enganar a dor. Troco de pele. Minto! Porque a mentira é a minha fortaleza e o avesso dela é a realidade desse amor que eu nego tanto.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Licença Para Sentir Saudades








Pelas frestas da memória visito o meu estoque de recordações, faço um inventário das minhas saudades e penso: construir-me é um processo difícil e doloroso, pois a vida e as suas urgências tentam me ensinar a abrir mão de pessoas, coisas e lugares e eu não consigo.

Já faz algum tempo que, intimada pelo carinho dos meus filhos, resolvi fazer uma faxina em meus porões. Lá, encontrei um baú repleto de lembranças que me expôs o que chamo de minha pátria de intimidades. Nessa ocasião, remexendo em velhas fotografias, cartas de amor e pedaços de carinhos, pensei: na minha vida ninguém está de passagem e, por isso, em meus afetos também não há prazos de validade.

Como posso esquecer as pessoas que partiram encantadas pelo brilho das estrelas? E as outras que, acreditando nas promessas do porvir, permaneceram ao meu lado desafiando o tempo da esperança?

Como deixar de ouvir palavras alinhavadas em ternuras - antecipando carinhos - e sentir cheiros que ficaram guardados no sítio da memória?

Como não revisitar lugares que remetem a uma alegria escancarada, se em todas as minhas lembranças há sempre um rastro de felicidade?

Por tudo isso, parece que o meu destino é não aprender a dizer adeus, pois no enredo da minha vida não há um alvará de soltura para a saudade.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Sessenta Anos







Preciso de tempo para desenrolar o novelo da vida, pois, no passado, gastei-o com coisas de somenos importância e agora ele me foge feito areia entre os dedos. É a ampulheta passando velozmente a cobrar as horas que me restam.

Este mês eu completo sessenta anos. Fisicamente, não coloquei silicone nem fiz retoques. Só na alma! Aqui onde as coisas realmente acontecem, eu fiz uma plástica. A minha está uma criança! Ávida por mudanças e com sede de conhecimento, ela passeia por caminhos onde a juventude, a pressa e o anseio por liberdade não pisaram. Os meus olhos outrora inquietos e o meu desejo febril, hoje, repousam na imensidão do mar, nas noites enluaradas e nas folhas de outono que caem lembrando que é tempo de renovação.

Sessenta anos e há pouco o que comemorar, pois a vida, de verdade, começa agora. Antes, era só um trailer! Pena que as horas sejam tão escassas para a criança, a jovem e a mulher que acordaram em mim. Uma trindade cheia de desejos e conquistas a realizar... Um trio cheio de boas intenções para se lançar ao desafio de viver sem mágoas, rancores e preconceitos de toda e qualquer natureza.

Preciso de um pouco mais de tempo para ousar o que ainda não fiz, mas ele se nega, zomba das minhas vontades, brinca com as minhas certezas e quando me dou conta, está partindo sem que eu possa lhe dizer o tanto que aprendi. Digo-lhe apenas que, hoje, é a época certa para fazer uma nova semeadura, mas ele desdenha e diz: - agora é tarde! E eu penso: Ah! Se soubesse do meu desejo por mudanças e quanto entusiasmo eu ainda tenho, talvez concedesse em atrasar os ponteiros do relógio só para me dar uma nova chance! Outra oportunidade para mudar as regras e virar o jogo da vida, que sempre começa quando está terminando...

Este mês eu completo sessenta anos, mas aqui dentro, onde as coisas realmente acontecem, estou nascendo agora. Plena de maturidade e querendo pôr em prática todas as lições que aprendi.

terça-feira, 16 de março de 2010

Por que escrevo?







Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora...

Gosto de ter as mãos cheias de letras e com elas, uma a uma, construir matéria de sonhos. Encanta-me o fato de poder manusear o alfabeto e com ele fazer escolhas de maneira lúdica. Não tenho, porém, a menor intimidade com as palavras, pois quando ouso falar elas me atropelam com a sua velocidade, distanciando-me das pausas e dos silêncios. Por isso, escrevo! Quem sabe, um recurso para disfarçar a minha timidez?!

Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco.

Há quem me acuse de saudosista e de viver no passado. Cobram-me até por vocábulos que se tornaram obsoletos e que eu os pronuncio. Dizem ser por absoluta incapacidade de abrir mão do que ficou pra trás. Não sei se isso é fato, o que sei é que ando sentindo falta de tanta coisa, que só brincando com as palavras consigo trazer para perto de mim, um pouco do muito que perdi para esse admirável mundo novo...

terça-feira, 9 de março de 2010

Os Caras-Pintadas





Existe um ‘Haiti’ rondando as nossas cabeças! Placas tectônicas em constantes atritos. Um espaço aberto para o lixo cotidiano dos jornais e TVs deitar-se em ‘berço esplêndido’ ou um convite para o despertar da consciência a nos pedir: ação?!

Por que será que não nos damos conta disso?
Dia após dia, de maneira escancarada, a realidade se apresenta aos nossos olhos pedindo um olhar mais atento para o que se passa ao redor... Fingimos que não vemos! E um vulcão adormecido em cinzas nos adverte: pagarás um alto preço por fazer parte dessa nação que, hoje, ignoras... É a consciência reclamando cidadania, ante a passividade e a inércia com que observamos a vida pública dos nossos representantes. Onde estão os caras-pintadas de outrora?


Imagem: Blog do Poeta Álvaro Alves de Faria

segunda-feira, 1 de março de 2010

Saudades Engavetadas






Da varanda da sua casa ela espreitava o caminho. O seu olhar varria ruas e dobrava esquinas na esperança de que ele aparecesse. Contava as horas, os minutos e os segundos. Precisava da sua presença para amenizar a saudade que a consumia... De repente, como num passe de mágica, ele surgia em sua farda azul e amarela, trazendo nas mãos um amontoado de sonhos.
Era o carteiro, mensageiro de tantas ilusões!

Hoje, ao abrir o armário do seu quarto ela encontra palavras guardadas na gaveta. Pega-as e fica absolutamente entregue às suas lembranças... Pede emprestado à memória um tempo feliz e faz as pazes com o passado!

Já não lhe dói tanto ter amado sozinha durante todo esse tempo, pois a geografia do amor tem os seus acidentes de percurso e além do mais, nessa hora, uma colcha de retalhos feita de boas recordações lhe apazigua a alma aquecendo-a por dentro. Olha outra vez para suas saudades engavetadas; lembra do tempo passado, do carteiro, das ilusões e faz um inventário do seu amor! Reedita lembranças e pensa: “foi eterno enquanto durou.” Depois disso, fecha a gaveta, dá um sorriso e diz: agora eu estou pronta... Aceito! E começa a ser feliz outra vez...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Castanha e ameixa, por favor!








Insight na linguagem comum é como se fosse um estalo. De repente, uma ideia ou uma lembrança, que parece vir dos porões da vida, nos acorda pedindo um novo olhar sobre...

Por que não pensei nisso antes?! É a pergunta que fazemos nessa hora.

Pois bem, dessa vez a iluminação tem cor e sabor: castanha e ameixa, por favor! Esse é o pedido que ela sempre faz na mesma sorveteria que freqüenta há anos. E não é só isso! Têm outros hábitos que foram se instalando, lentamente, sem que ela se apercebesse: o mesmo caminho para ir e vir, o mesmo restaurante, o banco, a mesma marca de carro, a praia... Até um velho amor embrulhado para presente num papel já gasto pela poeira do tempo. Tudo igual! Não importa o tempo e as suas estações a sugerir mudanças. Ela engessou a vida, se fez estátua.

Castanha e ameixa o seu sorvete preferido durante décadas, foi o fio condutor desse estalo que ora se apresenta, pedindo soluções práticas e urgentes. Por que não se abrir para o novo mudando de cores e sabores, traçando outros destinos e fazendo novas escolhas?

São perguntas para as quais ela ainda não tem respostas, mas que já foram entregues ao tempo, para que a solução esteja muito mais em acordo com o desejo da sua alma e menos com o imediatismo que pontua as decisões baseadas em valores de referência, tais como: modismo, vaidade ou a “solidão do único cálice de vinho.”

Mudança é como carinho de mãe... Tem que ser espontânea, abrangente e alcançar o lugar aonde – ainda - não podemos ir...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Resposta ao Tempo







Não conto a minha idade pela passagem dos anos numa linguagem matemática, onde um mais um é igual a dois. Ela é a soma perfeita da alegria, do assombro e do encantamento que esbarram em mim, a todo instante, quando dobro as esquinas da vida.

Não tenho medo das rugas nem da flacidez da pele, tampouco do luar de prata que se espalha sobre os meus cabelos. Tenho medo é de deixar de viver, de não espreitar o que se passa lá fora e de não aquecer o que guardo aqui dentro: meus sonhos!

Foram tantas as mudanças e tão grandes as transformações por mim presenciadas, nesses anos passados, que ouso perguntar ao tempo se “ele se rói com inveja de mim porque sabe passar e eu não sei.” Continuo a sonhar os meus sonhos de menina... Ele – o tempo – só conta do lado de fora.

Por isso, se ainda me destinam um lugar nesse trem que eu chamo de vida, deixem-me entrar no vagão da frente, porque a criança que adormece em mim, ainda está dando os seus primeiros passos e não pretendo acordá-la para contar números. Além do mais, fazer aniversário é apenas um compromisso com a possibilidade de fazer a vida diferente e ser feliz todos os dias, não importa a idade.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Fora do Ar






Um relógio parado, uma roupa que não cabe mais, um voo perdido que tento inutilmente alcançar, é assim que eu me sinto: fora do tempo! Caminho, hoje, por entre as ruas dentro de mim e só encontro o passado... É um museu de imagens, palavras e sons cheio de significados. Promessas de vida!

(...)

Lá fora, em meio ao burburinho que agita a cidade, a vida fervilha... Procuro placas indicativas do caminho para felicidade e não encontro.
Que tempo é esse que despreza a gratuidade dos bens não perecíveis: amor, carinho, ternura, compreensão e respeito? Que tempo é esse tão diferente do meu, aqui dentro? Acho que perdi a bússola, o guia, o norte, o rumo, a direção! Estou fora do ar, nesse presente, onde tudo é muito confuso, atropelado, incerto... Oba, oba... Descartável!

(...)

Olho para a época em que o tom das folhas é amarelado e um hiato em minha memória é permeado por odores de naftalina, e me convenço: estou à deriva no tempo. E isso, se deve muitos mais aos valores cultuados nessa vida apressada, em que até as palavras se tornam obsoletas, do que a adaptação que me é exigida por esse mundo moderno.

Por isso, volto para o meu estoque de saudades - museu de carne e vida - e deixo que o meu sorriso se prolongue enquanto o tempo desfila as suas lembranças... Estou fora do ar!

sábado, 16 de janeiro de 2010

Horas de Saudades






Podemos nascer de várias maneiras e uma delas vem carregada de significação: partir; deixar a casa, cortar laços e ter no olhar um passado. Essa talvez seja a forma mais dolorida. Abrir mão do colo, do conforto e da certeza do caminho seguro... Mas, que outro jeito há? Quando crescemos o suficiente não cabemos mais nos braços e regaços e a vida nos cobra vida?!

Partir para nascer. Processo difícil e doloroso: requer tempo, coragem e uma paciência que não se encaixa nas horas de saudades... É que, de repente, tudo dói... E uma avalanche de recordações torna desejável até a rotina dos dias iguais. Tudo aquilo por que lutamos perde a importância e nosso projeto de vida sucumbe diante do poder das lembranças. Vivemos uma solidão abissal!

O que fazer então, quando o sorriso e a alegria abrem espaço para a tristeza e o desânimo ou quando alimentar-nos só é possível com o sal das nossas lágrimas?

- Nascer de novo! Desabitar medos, vencer a hesitação e deixar o porto seguro. Esquecer a pouca experiência em prol de um novo desafio. Ser livre para fazer escolhas... Tudo isso requer coragem e decisão, porque partir de algum lugar, ainda que titubeando, é a única maneira que temos de reinventar a vida e fazê-la valer a pena.

*Para Gilberto, meu filho!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Economizando a Vida









Viver e não ter a vergonha de ser feliz, dizia o mestre Gonzaguinha. Mas, onde encontrar a alegria se vivemos racionando até o próprio desejo de viver? Nunca a palavra contenção esteve tão em evidência como nos dias atuais. Restrita as preocupações que abalam o mercado financeiro e colocam em xeque a economia global, agora, ela também faz parte do cotidiano das pessoas, no que se refere à luta pela felicidade. Estamos economizando vida pelo medo de ser feliz.

De repente, o mundo, esse parque de diversões para uns e teatro de horrores para outros, parece desafiar os nossos limites, impondo-nos escolhas difíceis de se realizarem. Nesse momento surge a pergunta:
- E agora, como ficamos?
- Não ficamos, vivemos!
Vivemos para usufruir do doce sabor do inusitado que a vida nos propicia a cada instante, quando nos permitimos olhar para além dos nossos estreitos e limitados horizontes. Vivemos para entender que no espaço de tempo, entre o véu da noite e o raiar do dia, existem infinitas possibilidades e que, só vivendo, amando e aprendendo é que podemos extrair da vida a seiva que nos alimenta e faz crescer.

Existem pessoas para quem o mundo é um lugar inóspito e cheio de armadilhas. Não amam e não se deixam amar. Vivem trancafiadas dentro de si mesmas e se recusam a pedir ajuda pela impossibilidade de abrirem a mente e o coração. O medo da felicidade paralisa as suas atitudes. Vivem atormentadas, presas numa cadeira de rodas imaginária, em função da dificuldade de dizerem sim para o desejo de viver e ser feliz. São cadeirantes da alma. Não posso (dar, comprar, ir, fazer...) não tenho (tempo, dinheiro, coragem, saúde...) não quero (amar, gostar, visitar, compreender, ser solidário, compassivo...). Essas são defesas usadas por quem não admite que viver se tornou um fardo.

Em contrapartida, existem os atletas da alegria. São corredores de almas e corações livres. Vivem como se não houvesse amanhã, um dia de cada vez e com isso, usufruem o tempo de maneira intensa e verdadeira. Para esses, “viver e não ter a vergonha de ser feliz,” é um compromisso e uma atitude de quem descobriu que a nossa existência só vale a pena, quando dizemos sim. Sim para um convite inesperado, para o amor que chegou de repente, para aquela viagem não programada, para aquele trabalho desafiador e para todas as convocações que nos causam surpresa e nos tiram da rotina e da mesmice, devolvendo o brilho no olhar.
Dizer sim, é desafiador, é assumir responsabilidades, mas é o único caminho para a possibilidade de ser feliz. Fora disso, só existe uma vida mais ou menos... Triste, morna e previsível.

Em decorrência disso, precisamos abrir mão da nossa economia de vida estável, porém insípida, e largar as cadeiras de rodas imaginárias, que nos aprisionam e fazem sofrer.
Deixar a vida nos conduzir para além do limite dos nossos sonhos, é ter um passaporte para um destino ignorado, é correr riscos, mas é, também, a única maneira que temos de gastar o tempo que nos foi dado e ter a certeza de que ele valeu a pena.
Portanto, não economize vida. Viva! E não tenha vergonha de ser feliz!