Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Economizando a Vida









Viver e não ter a vergonha de ser feliz, dizia o mestre Gonzaguinha. Mas, onde encontrar a alegria se vivemos racionando até o próprio desejo de viver? Nunca a palavra contenção esteve tão em evidência como nos dias atuais. Restrita as preocupações que abalam o mercado financeiro e colocam em xeque a economia global, agora, ela também faz parte do cotidiano das pessoas, no que se refere à luta pela felicidade. Estamos economizando vida pelo medo de ser feliz.

De repente, o mundo, esse parque de diversões para uns e teatro de horrores para outros, parece desafiar os nossos limites, impondo-nos escolhas difíceis de se realizarem. Nesse momento surge a pergunta:
- E agora, como ficamos?
- Não ficamos, vivemos!
Vivemos para usufruir do doce sabor do inusitado que a vida nos propicia a cada instante, quando nos permitimos olhar para além dos nossos estreitos e limitados horizontes. Vivemos para entender que no espaço de tempo, entre o véu da noite e o raiar do dia, existem infinitas possibilidades e que, só vivendo, amando e aprendendo é que podemos extrair da vida a seiva que nos alimenta e faz crescer.

Existem pessoas para quem o mundo é um lugar inóspito e cheio de armadilhas. Não amam e não se deixam amar. Vivem trancafiadas dentro de si mesmas e se recusam a pedir ajuda pela impossibilidade de abrirem a mente e o coração. O medo da felicidade paralisa as suas atitudes. Vivem atormentadas, presas numa cadeira de rodas imaginária, em função da dificuldade de dizerem sim para o desejo de viver e ser feliz. São cadeirantes da alma. Não posso (dar, comprar, ir, fazer...) não tenho (tempo, dinheiro, coragem, saúde...) não quero (amar, gostar, visitar, compreender, ser solidário, compassivo...). Essas são defesas usadas por quem não admite que viver se tornou um fardo.

Em contrapartida, existem os atletas da alegria. São corredores de almas e corações livres. Vivem como se não houvesse amanhã, um dia de cada vez e com isso, usufruem o tempo de maneira intensa e verdadeira. Para esses, “viver e não ter a vergonha de ser feliz,” é um compromisso e uma atitude de quem descobriu que a nossa existência só vale a pena, quando dizemos sim. Sim para um convite inesperado, para o amor que chegou de repente, para aquela viagem não programada, para aquele trabalho desafiador e para todas as convocações que nos causam surpresa e nos tiram da rotina e da mesmice, devolvendo o brilho no olhar.
Dizer sim, é desafiador, é assumir responsabilidades, mas é o único caminho para a possibilidade de ser feliz. Fora disso, só existe uma vida mais ou menos... Triste, morna e previsível.

Em decorrência disso, precisamos abrir mão da nossa economia de vida estável, porém insípida, e largar as cadeiras de rodas imaginárias, que nos aprisionam e fazem sofrer.
Deixar a vida nos conduzir para além do limite dos nossos sonhos, é ter um passaporte para um destino ignorado, é correr riscos, mas é, também, a única maneira que temos de gastar o tempo que nos foi dado e ter a certeza de que ele valeu a pena.
Portanto, não economize vida. Viva! E não tenha vergonha de ser feliz!

2 comentários:

Dani Almeida disse...

Certíssima! Que tenhamos a coragem de inaugurar um novo ano de desejos realizados, de mais ousadia, de uma overdose diária de vida. Sem medo do inusitado, do desconhecido. Porque a felicidade pode residir justamente ali. Belo texto. Reli e gostei mais ainda.

entremares disse...

Como é bem verdadeira, esta mensagem.

A vida deve ser sôfrega, deve ser saboreada, não simplesmente consumida. Deve ser degustada, não simplesmente engolida.
Todos os céus azuis são diferentes, não há dois iguais.

Igual, quando muito, só o desânimo de aceitar que nada pode mudar, que nada pode ser diferente.

Um grande abraço.
Rolando