Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

terça-feira, 6 de abril de 2010

Sessenta Anos







Preciso de tempo para desenrolar o novelo da vida, pois, no passado, gastei-o com coisas de somenos importância e agora ele me foge feito areia entre os dedos. É a ampulheta passando velozmente a cobrar as horas que me restam.

Este mês eu completo sessenta anos. Fisicamente, não coloquei silicone nem fiz retoques. Só na alma! Aqui onde as coisas realmente acontecem, eu fiz uma plástica. A minha está uma criança! Ávida por mudanças e com sede de conhecimento, ela passeia por caminhos onde a juventude, a pressa e o anseio por liberdade não pisaram. Os meus olhos outrora inquietos e o meu desejo febril, hoje, repousam na imensidão do mar, nas noites enluaradas e nas folhas de outono que caem lembrando que é tempo de renovação.

Sessenta anos e há pouco o que comemorar, pois a vida, de verdade, começa agora. Antes, era só um trailer! Pena que as horas sejam tão escassas para a criança, a jovem e a mulher que acordaram em mim. Uma trindade cheia de desejos e conquistas a realizar... Um trio cheio de boas intenções para se lançar ao desafio de viver sem mágoas, rancores e preconceitos de toda e qualquer natureza.

Preciso de um pouco mais de tempo para ousar o que ainda não fiz, mas ele se nega, zomba das minhas vontades, brinca com as minhas certezas e quando me dou conta, está partindo sem que eu possa lhe dizer o tanto que aprendi. Digo-lhe apenas que, hoje, é a época certa para fazer uma nova semeadura, mas ele desdenha e diz: - agora é tarde! E eu penso: Ah! Se soubesse do meu desejo por mudanças e quanto entusiasmo eu ainda tenho, talvez concedesse em atrasar os ponteiros do relógio só para me dar uma nova chance! Outra oportunidade para mudar as regras e virar o jogo da vida, que sempre começa quando está terminando...

Este mês eu completo sessenta anos, mas aqui dentro, onde as coisas realmente acontecem, estou nascendo agora. Plena de maturidade e querendo pôr em prática todas as lições que aprendi.

7 comentários:

Chica disse...

Lindo e pra cima esse post! Tenho 61 e acho também isso.Temos tanto a fazer! beijos,tudo de bom e qual odia do niver?chica

Solange Maia disse...

ah... essas mulheres...

como não amá-las ???

lindas palavras Juliêta... e que estes anos tenham sido a construção dessa estrada linda pela qual caminha hoje, que estes momentos de agora sejam mágicos, arrebatadores, cheios de vida, e que te façam a mulher mais feliz do mundo !!!!!

adoro suas palavras...
adoro...

Salve !!!!

Libel disse...

Olá Julieta,

A vida é maravilhosa e na sua magnífica diversidade, vai-nos oferecendo constantemente novas situações, para as quais nunca estamos verdadeiramente preparados,
mas que se traduzem em diferentes experiências e aventuras. Com a idade vamos ganhando calo e dando um sentido precioso a tudo que acontece à nossa volta, por isso certas limitações da experiência forçam-nos a crescer continuamente; mantêm-nos tensos, esforçados. Permitem-nos ter constantemente objectivos diferentes. Dão colorido à nossa vida. É assim que nos podemos manter de algum modo jovens em qualquer idade.
Não somos poupados a sofrimentos, mas é-nos dada a possibilidade de reagir e continuar a avançar.
Se temos saudade do que ficou atrás, também nos é permitido sonhar com o que está adiante.
Se conservamos o sabor de derrotas que tivemos, também planeamos a vitória que se segue.

"A vida é uma aventura ousada ou, então, não é nada".

Por isso, que sejam 50, 60, 70, mas que sejam ousados e felizes!!..

PARABÉNS AMIGA PELA TUA JOVIALIDADE E ESCRITA MARAVILHOSA!!..
É um prazer passar por aqui!!..

Manu disse...

Olá Julieta
É um previlégio poder ler as palavras com que celebra o seu aniversário.
A autencidade de uma vida sentida, assumida e sonhada, uma vida cheia de recomeços como se agora tivesse nascido.
Não importa o tempo que o tempo tem, importa viver como se a vida fosse uma eterna Primavera, renascendo em cada palavra sentida de uma forma lúcida, poética, plena de esperança.
A ampulheta pode não parar, mas a força do seu querer do ousar, anularão o passar dos anos, porque alma não tem aniversário.
Muitos parabéns Julieta!
A sua escrita me deixa encantada.

Beijos
Manu

lis disse...

Oi Julieta
Quanta beleza nas suas palavras, fico sorvendo cada gotinha dessa maturidade feito criança , desse desejo que está dentro de nós e nao sabemos como vivenciar .
Viva plenamente , inicie o jogo e ganhe dessa vez!
Linda , voce é bela de todas as maneiras e com todas as idades.
beijinhos

jorge manuel brasil mesquita disse...

E MAIS UM PARA MIM. A VIDA COMEÇA QUANDO COMEÇA O DIA E MORRE COM NOITE FECHADA. SOMOS SÓ UMA SUCESSÃO DE DIAS, UNS DE LÁBIOS AO LÉU, OUTROS DE PUPILAS NOCTURNAS. QUEM SABE QUANTOS MAIS?

nINGUÉM (jORGE mANUEL bRASIL mESQUITA)

BIBLIOTECA NACIONAL, 13/04/2004 - 16h30

ETPLURIBUSEPITAPHIUS.BLOGSPOT.COM

Rosinda disse...

Passei por aqui porque um post da Manu me suscitou curosidade. Valeu a pena! Aliás pelo pouco que li sei que vou voltar mais vezes, encontro por aqui, muita vida e sabedoria. Parabéns!
Um bj
onix-Rosinda