Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Um Tempo para Sentir


A escritora Martha Medeiros nos diz: “Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.” Pois bem! Neste tempo de tecnologia avançada, onde tudo vira passado num piscar de olhos, eu quero a minha vida de volta para sentir o que já não sinto e viver o que já não vivo... Vida!

Quero um tempo para saborear a fruta no pé
e algumas horas para descansar à sombra da goiabeira.
Quero um tempo para tardes de sol
e vento no rosto a desalinhar os meus cabelos.

Quero um tempo para sentir o cheiro da grama molhada
e para banhar-me nas lágrimas do céu.
Quero um tempo para observar o jardim cheio de flores
e as borboletas em seus volteios a sugerir-me o prazer da liberdade.

Quero um tempo para abraçar o flamboaiã amigo
e nele armar um balanço para retirar das nuvens
o algodão doce das minhas fantasias.

Quero um tempo de portas e janelas abertas,
para acolher o amigo que se aproxima.
E, de quebra, uma lareira acesa
para, em tardes mornas fazer carinhos e exercitar ternuras...

Quero um tempo para amar...
Voltar a sorrir sem medo de ser feliz!
Quero, enfim, um tempo para sentir!

Quero um tempo para sentir, pois estamos vivendo num frenesi, cujo único objetivo é conjugar o verbo fazer, em todos os seus tempos. Parece que isso é a única coisa relevante a fazer em nossas vidas.
Em virtude disso, olhamos para o nosso semelhante com distanciamento; e como diz Jean Paul Sartre: “O inferno são os outros.” E a partir daí, nos afastamos dos nossos afetos, das nossas lembranças do que era ser feliz e, principalmente, do SENTIR, dom singular, incomparável, que é o que nos torna verdadeiramente humanos.


PS: Esse texto é uma homenagem ao blog: “Flor de Lis,” que faz da arte de viver um eterno SENTIR.

6 comentários:

Chica disse...

Muito lindo esse texto e consequentemente, a homenagem!beijos,tudo de bom,chica

Carlos disse...

... o que d'antes era percebido apenas pelos híper sensíveis, revela-se agora em versos apresentando sua identidade de poetisa. A poesia inerente de seus textos envolvia-nos como brisa no abraço morno da tarde... Sempre foi poesia o que nos brindava, mas agora é visível aos curiosos de passagem; inteligentes, ao retornarem outras vezes. Abraço fraterno e um beijo no coração.

lis disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lis disse...

Oi Julieta
Obrigada pela homenagem, nem me avisa né? rsrs
Acertou no texto da Martha Medeiros
porque é cheio das coisinhas que tanto gosto! e que todas nós gostamos,
saborear fruta no pe´, sentir o vento , o cair da chuva molhando a terra , os jardins floridos com borboletas à volta , janelas abertas pra aquecer
as manhãs ...
São detalhes Ju, me encontro muito nos detalhes.
Obrigada , um lindo fim de semana , que tenha apaziguado seu coração das perdas e voltado a sorrir e escrever.
beijinhos e abraços

Obrigada pela comprensão rs

Armindo C. Alves disse...

Julieta
Não quero comentar. Só dizer que o seu texto é de uma beleza comovente.

A Lis é uma força da natureza- É vida e sentimento.

Abraço.

Sueli disse...

Geralmente, achamos que somos o que pensamos, mas, na verdade, somos o que sentimos. Então, quando deixamos pensamentos tomarem conta de nós, deixamos de "ser". Belo texto! Beijão!