Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sábado, 21 de agosto de 2010

Uma História Real









Os desígnios de Deus não são para serem entendidos e sim, aceitos!


Por que eu ou por que comigo? É sempre a primeira pergunta que fazemos quando alguma coisa foge a nossa compreensão.


Passar ao largo do sofrimento, nessa vida, é o que todos almejamos... Mas, como isso é impossível, a pergunta é: o que fazer quando ele bate a nossa porta de maneira inesperada?


Aceitar! Ainda que doa, porque os clichês: “tudo tem uma razão de ser” e “nada acontece por acaso,” são explicações que na nossa razão – no momento da dor - não encontram entendimento, nem conforto. Foi o que aconteceu comigo!


Ao folhear as páginas do Jornal Correio da Paraíba, do dia 06 de maio de 1992, eu li a seguinte manchete: “Meninos de rua realizam campanha.” E, logo a seguir, a explicação: “A Comissão de Sapé do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua lançou uma campanha, ontem, para angariar recursos em favor do deficiente visual Carlos de Pontes Coutinho, que depende de um transplante de córneas para ter a visão.”


“A campanha é para adquirir o equivalente a Cr$ 7 milhões, já que o transplante de cada córnea (segundo o Dr. Tarcísio Dias) custa Cr$ 3.500.000,00. Carlos de Pontes Coutinho é voluntário no trabalho com crianças e adolescentes do município de Sapé, portanto pessoa muito querida.”


Os valores supracitados correspondem, hoje, a, mais ou menos, R$ 7.000,00 (sete mil Reais) e R$ 3.500,00 (três mil e quinhentos Reais) respectivamente.


Quando li a notícia, fui tomada por uma forte emoção e pedi a Deus, em prece: “- Senhor! Permite-me ganhar, hoje, na loteria para eu financiar a cirurgia desse homem, pois uma pessoa como essa não pode continuar cega.”


“- Ajuda-me, Meu Deus, a fazer alguma coisa por ele!” Essa foi a última frase que pronunciei naquele longínquo 06 de maio.”


Infelizmente não ganhei na loteria. E, lamentei não poder ajudá-lo...


Pois bem, no dia 10 do mês em curso, já tinha esquecido o assunto, quando pedi ao meu marido uma parte do jornal para ler. Ele entregou-me apenas os classificados. E, qual não foi a minha surpresa ao me deparar com um pequeno anúncio, em que o Dr. Vanderlan Carvalho se oferecia para fazer a cirurgia do Senhor Carlos, gratuitamente. Fiquei feliz e, em silêncio, agradeci a Deus, mas não comentei com ninguém sobre o assunto.


Na quinta-feira, 14 de maio, à tarde, ao encontrar-me com o meu marido no seu local de trabalho para juntos voltarmos para casa; ele sentiu-se mal e teve morte instantânea provocada por um infarto agudo do miocárdio.


(...)


Horas depois, por sugestão de uma amiga, ofereci as córneas dele para doação. Dois médicos recusaram: um, porque não conseguiu localizar os pacientes que precisavam de transplante e o outro, por não possuir banco de olhos. Esse me pediu permissão para oferecer a uma terceira pessoa, ao que eu assenti.


Naquele dia 14, pela manhã, Carlos de Pontes Coutinho viera a João Pessoa para se submeter aos exames e fazer a cirurgia, gratuitamente, conforme prometera o Dr. Vanderlan Carvalho, mas como não havia nenhuma córnea para ser transplantada, voltou para sua cidade.


À noite, ele foi chamado pelo Dr. Tarcísio Dias, àquele que, “coincidentemente,” vinha a ser o oftalmologista que cobrara Cr$ 7 milhões para fazer o transplante, objeto da campanha no Jornal Correio da Paraíba e, que acabara de receber, por indicação de seu amigo, as córneas de meu marido. O inacreditável disso tudo é que ele, também, resolveu fazer o transplante, gratuitamente.


Depois disso, passei a não acreditar em coincidências, pois foi dessa maneira e não com a loteria, que o meu pedido a Deus, para ajudar àquele rapaz, foi atendido.


O que aconteceu me custou muita dor e sofrimento, mas nunca perguntei: por que eu, por que comigo? Pois os desígnios de Deus não são para serem entendidos e sim, aceitos.


E, além do mais, ficou a lição: o que tem de acontecer tem força! Coincidências não existem!




terça-feira, 10 de agosto de 2010

Para Meu Filho, Gilberto







- E aí, coroinha, tu me amas?
- Sim, meu filho, eu te amo!
- Pouco, muito ou uma exorbitância?
- Uma exorbitância!
- Se eu morrer, tu choras?
- Choro.
- Pouco, muito ou uma exorbitância?

Era dessa maneira – com esse diálogo - que entravas em nosso lar e feito um furacão pedias casa, comida, roupa lavada e de quebra um amor incomensurável (sem cobranças, é claro!) capaz de abrigar os teus anseios e curar todas as tuas carências.

(...)

Mas, de repente, se fez silêncio. Um silêncio incômodo! Que fala de ausência e de saudades... Olho a mesa posta e ouço a canção: “Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele, tá doendo em mim”.

- Penso: será que exerci o amor de mãe em sua total plenitude? Será que falei que te amava o suficiente para te abastecer de certezas pelo resto de tua vida?

- Não sei! Amor por mais que se dê, ainda é pouco, dirão alguns.

Se pouco, se muito ou uma exorbitância, eu não sei. A verdade é que eu te amo o bastante para te ver crescer e ir embora; ainda que isso me doa, para te ver trilhar caminhos nunca antes percorridos; ainda que isso me incomode, para te imaginar nas fronteiras do perigo; e ainda assim, te incentivar a partir.

Amo-te tanto e tão intensamente, que ao te colocar no mundo deixei meu coração em aberto, só para abrigar todos os teus sonhos como se fossem meus.

Amo-te tanto e a tal ponto, que vivo brigando com as horas que se esvaem, que se esgotam e mal me dá oportunidade de falar de amor, de ajeitar carinhos e construir ternuras.

“O Tempo não Para” já dizia o poeta Cazuza. Por isso, quero aproveitar, hoje, da urgência do meu sentimento para eternizar nessas poucas linhas o amor, o respeito e a admiração que sinto, por ti, meu filho.

Amo-te tanto que, diante do silêncio da tua ausência, resolvi dizer que a saudade é tamanha, que o tempo resolveu zombar de mim porque ele sabe passar e eu não sei...

Sinto a tua falta!

domingo, 1 de agosto de 2010

Aprendiz do Caminho






Enquanto caminho, aprendo!

Não carrego manual de instrução, tampouco possuo uma tecla liga/desliga/deleta. Vou vivendo e aprendendo com a vida. Ela, e só ela, me dá o norte que preciso à medida que corrijo os erros do meu caminhar.


Não construo certezas, apesar de viver em um mundo cheio de regras e de tantos semideuses. O meu dia-a-dia se alimenta do inesperado e a cada instante revejo as minhas convicções. Olho para o outro e antes de apontar-lhe o indicador, penso: o que eu faria se estivesse em seu lugar? E, aprendo! Aprendo mais sobre o amor - fonte de toda sabedoria – e escolho viver em paz com a minha consciência.


Por não possuir manual, erro, e erro feio algumas vezes, mas utilizo as frases mal costuradas do meu orgulho para pedir perdão. O efêmero, o passageiro e o transitório, essa trindade que adjetiva as minhas horas e ensina sobre a passagem do tempo, também me dá a percepção de que administrar essa tríade com inteligência, respeito e humildade, é viver com sabedoria. Sabedoria necessária para me desviar das linhas retas, das respostas prontas e das soluções mágicas, que a todo instante estão sendo apresentadas pelos semideuses de plantão.


Tenho procurado conhecer mais sobre atalhos – caminhos diferentes - e confesso que isso, me faz sentir melhor. Eles me fornecem o aprendizado necessário, pois interrompem os meus passos, nas linhas retas, me obrigam a olhar em volta e me humanizam. Os meus pés, agora, são andarilhos de um caminhar sem pressa porque desenvolvi, no percurso, uma compreensão maior sobre quem sou e o que estou fazendo com aquilo que me tornei...


E, por que já não há tantas horas assim para serem desperdiçadas, entendo que: só se aprende, vivendo! De nada adianta as regras e os manuais de instruções, pois o que vale mesmo são as ranhuras que ela, a vida, nos faz, obrigando-nos a sermos mais brandos, mais compreensíveis e humanos no julgamento dos nossos semelhantes e nas nossas atitudes no meio em que vivemos.


Por isso, hoje, enquanto caminho, aprendo! Pois, um olhar diferenciado sobre a arte de viver me ensina a não gastar os meus dias e as minhas horas à toa! Sou um aprendiz do caminho dos meus próprios erros.