Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sábado, 9 de abril de 2011

Casamento Homoafetivo




Entre o discurso e a realidade existe uma questão de dignidade e de respeito às diferenças...


Dentre os temas polêmicos, talvez o casamento homoafetivo seja o que mais cause estranheza, tendo em vista que não há legislação pertinente sobre tal matéria nem, tampouco, fundamentos que justifiquem – sob o ponto de vista cristão - a união entre pessoas do mesmo sexo.


Em que pese às razões alegadas de que as normas que regem o casamento só foram previstas em função da união entre um homem e uma mulher, é mister se reconhecer que a homossexualidade existe desde os primórdios da história da humanidade e que negar isso é resvalar pela hipocrisia e ignorância.


Diante de tal fato, se faz necessário a regulamentação em lei, que dê amparo e proteja o direito do cidadão, que opta em assumir o seu desejo, como um manifesto da sua liberdade de escolha. Escolha essa assegurada pela nossa Constituição, quando escreve em suas páginas a consagração dos princípios da liberdade e da igualdade de direitos.


Partindo da idéia do respeito à dignidade humana, podemos invocar por mudanças que tire dos guetos da vida quem exerce o mais elementar dos direitos que é o da liberdade.


Embora exista, por parte das religiões, resistência e certo prurido quando o assunto casamento entre iguais é ventilado, não podemos aceitar - sob pena de sermos levianos - o argumento de que a união entre as pessoas só se justifica por meio da procriação. É contraditória tal afirmação, uma vez que vai de encontro às celebrações que vemos, diariamente, entre casais de meia idade ou de jovens, onde a gravidez não é possível nem desejada.


Por outro lado, o que é o casamento senão a união de duas pessoas empenhadas em construir uma vida de respeito, amor, carinho?


Filhos! Sim, conseqüência desse afeto e desse querer só assim serão bem-vindos, amados e respeitados, mas não como imposição para realização do matrimonio, pois, se fosse dessa maneira, não teríamos clínicas psiquiátricas ou psicológicas para dar vazão a tanta demanda (...).


É indiscutível que esse assunto merece ser debatido a exaustão para que não reste a sociedade nenhum ranço que a impeça de sentir que os ventos da evolução, que nos fazem bem em outras áreas, também sejam bem-vindos no que concerne a união entre iguais.


Negar isso às pessoas que lutam por um ideal de justiça, que prime pelo respeito e pela igualdade para todos, é ignorar que a liberdade é o maior patrimônio de uma sociedade que se diz civilizada. Desconhecer o direito do cidadão de ser, sentir e vivenciar outra realidade que não a manifesta pelos padrões, ditos normais, é tirá-lo do seio da sociedade e transferi-lo para os guetos da vida, marginalizando-o. É retroceder no tempo, ignorar as mudanças e os novos códigos de conduta que exige de nós o respeito pelas diferenças.


Ainda que a relação entre pessoas do mesmo sexo nos cause estranhamento, precisamos buscar nas raízes desse comportamento o preconceito que nos leva ao discurso homofóbico e que tanto contribui para a segregação e a infelicidade dos nossos semelhantes. Pois, repito, entre o discurso e a realidade existe uma questão de dignidade e de respeito às diferenças...

7 comentários:

C. S. Muhammad disse...

Belo, inteligente e sensato texto, Julieta. Bjs

Rolando Palma disse...

" Nós, o povo... "

Assim começa de forma magistral a constituição dos Estados Unidos e assim ( para mim ) deveriam fundamentar-se todas as leis... enquanto objectos nascidos da mão humana, e para servir o homem.
Mas, infelizmente... criamos leis como armas e escudos, e de tal forma somos eficientes nesse propósito que as cultivamos dentro de nós próprios, assumindo-as como éticas, morais, verdadeiras.

Esquecemos algo importante. Que nada é imutável, que as consciências mudam e que é dessa mudança que surge o êxito desta caminhada que é viver.

Esquecemos porventura outra coisa, também. Que todos, mas mesmo todos, têm como anseio maior o serem felizes... e que a felicidade não se "mede", não se "quantifica", porque cada um é feliz à sua maneira, nesta ou naquela religião, com esta ou aquela inclinação sexual, com esta ou aquela preferência de futebol.
Nascemos todos diferentes... e é a nossa diferença que nos torna únicos como espécie, capazes de improvisar, de teatralizar, de chorar ou de inventar.

É bem verdade aquilo que escreves, amiga. Estamos tão habituados a que a nossa sombra siga os nossos movimentos... que muitas vezes estranhamos que os outros, na sua própria procura da felicidade, sigam caminhos diferentes dos nossos.

Não são nem melhores nem piores, são simplesmente diferentes. Mas não nos ensinaram suficientemente bem essa palavra... e ser diferente sempre foi sinónimos de não ser normal, como se a normalidade fosse a igualdade absoluta.

Talvez seja esse o paradigma.
Não associar a palavra tolerância à palavra liberdade.


E mais uma vez eu pegaria no título do teu blog e diria que até neste discurso... é necessário reconstruir o caminho, não seguir o caminho porque "ele já lá está" e simplesmente, desenhar novo caminho... se cada um assim o quiser, para ser feliz.


Tudo de bom para ti...

Renata de Aragão Lopes disse...

Tema tão complexo.

Eu o abordei por ocasião de minha especialização em Direito Público.

Páginas e páginas não o esgotaram...

Um abraço,
Doce de Lira

Cacá - José Cláudio disse...

Muito pertinente, Julieta! Não se constrói uma sociedade que preconiza justiça e igualdade de direitos sem a liberdade e o respeito. Questões religiosas, no meu entender nem deveriam permear esses assuntos de foro íntimo. Abraços. Paz e bem.

mizia disse...

Recebi um MEME e indiquei o seu blog para participar, porque ele é lindo. Espero que não se importe. As regras estão na postagem do link abaixo:
http://cantinhodamizia.blogspot.com/
Obrigada !
Bjs

mizia disse...

Julieta,
Fico feliz por seu comentário no meu cantinho e por ficar contente com minha indicação no MEME de seu blog lindo ! admiro muito sua escrita e você !
Sua visita deixou meu cantinho mais enriquecido !
Grata !
Beijinho

ThinkFloyd61 disse...

Seu amigo R. Palma, e com certeza o é, escreveu ou disse tudo... No quesito fé, independente de religião, eu gosto de pensar que houveram escolhas e que é um privilégio estar aqui, o permanecer, a jornada consiste em observar, sentir e perceber; extremamente ligado a paixão pela natureza de tudo, desde a pedra ao diamante, sempre haverá conexão. Roger Waters, Pink Floyd, com rara felicidade, define bem o ser ovelha. Parabéns por seu blog. Boa ventura.
Deixo um convite aos http://thinkfloyd61.blogspot.com/ e http://continuarrespirando.blogspot.com/, será sempre bem vinda. Cuide-se, abraço.