Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

domingo, 24 de abril de 2011

Tempo de Despedidas




É tempo de deixar ir! De esquecer cores, cheiros, sons, passos e lembranças. Tempo de despedidas, de encerrar ciclos e de fechar portas. Literalmente! Ouço o som dos meus gemidos, mas aumento o volume da canção dos meus sonhos. Então, decidida, bato a porta e vou. Levo um coração sem amarras que é para abrigar as delicadezas da nova vida que vão chegar...

Despeço-me do passado!?

- Não sei! Uma palavra em suspenso, “ontem”, ainda mexe comigo: é o meu foco de resistência. Isso que me faz tecer palavras para não apagar memórias.

Quero resgatar uma época feliz para depois, deixar ir!... Fazer-se poeira de estrada, de estrelas e de sonhos.

Esse é o meu desafio! E por isso escrevo.

- Estou de mudança. A antiga casa com suas cores, cheiros, sons, passos e lembranças, vai ficando para trás. Então, eu me pergunto:
- Será que vai mesmo? Ou ela caminhará para sempre por minhas lembranças feito um viajante sem pouso?
- E, se isso acontecer? Estarei sendo paradoxal, com o meu saudosismo sempre em pauta, em contraposição com o desejo ir, de mudar?
- Como conciliar o passado e o presente se o tempo, esse “compositor de destinos”, trabalhou nas minhas lembranças com delicadeza, deixando-me um inventário de bens intangíveis?

O fato é que, agora, ao olhar cada cômodo da casa, eu revisito as saudades. E penso: o que é que eu tenho do futuro?

- Nada! Apenas um presente que vai virar passado, quando outras paisagens, histórias e personagens tecerem os fios dessa nova tessitura. Porém, a vida nunca mais será a mesma... Não, a vida das minhas emoções, aquele quartinho cheio de lembranças, ainda quente, do perfume dos dias felizes.

Olho em volta, tudo é saudades! O riso das crianças, a mesa posta, com mãos de ternura, a música, tantas coisas e, ainda, a marca da tua ausência que nunca passa...

Fomos construtores de um sonho que deu certo... A nossa casa, hoje, tem história. Uma história que a modernidade está querendo demolir, mas, que ao apagar das luzes e bater da última porta, não será esquecida, pois eu embalo coisas, fecho malas e tranco portas, mas, como um viajante sem pouso, levo as minhas raízes.

9 comentários:

✿ chica disse...

Emocionante esse momento e fico aqui pensando o quanto dói fechar a porta e deixar ...

Mas vai em frente ,leva as recordações boas e segue.

Tudo será legal,te desejo! beijos,FELIZ PÁSCOA! chica

manu disse...

As mudanças são sempre difíceis, amiga Julieta, mas quem nos disse que viver é fácil?
Então há que manter as raízes, para que uma nova árvore rebente e possa ver crescer novas flores que darão seus frutos.
O passado já era, há que libertá-lo, aceitando o que foi, limpando o que não faz mais sentido e partir disposta a reconstruir caminhos.
Desejo-lhe toda a sorte do mundo.

Beijo enorme
Manu

Cacá - José Cláudio disse...

Juliêta, sua despedida é tão bela e tão cheia de ternura que confesso-me emocionado. Lindíssima essa prosa poetizada. Meu abraço e bons pousos em todas as suas viagens. paz e bem.

Juliana Almeida disse...

Nos despedimos todos os dias, de tudo: das pessoas, dos sabores que aos poucos somem do paladar, da paisagem que muda no horizonte - e nunca será a mesma - do dia que passou.

As boas lembranças permanecem... Dizer "adeus" é muitas vezes libertar-se às possibilidades do porvir.

A casa é só uma casa, ao fim. O que faz dela especial é a vida que a habita.

Sejamos então, e sempre, vida e luz.

Libel disse...

Olá Julieta,

Percebo pelo lindo e emocionado texto que estás de mudança, costuma dizer-se aqui, casa nova, vida nova, então, aproveita essa onda, renova tua pele, teu coração, tua alma, porque tudo o que é lembrança boa, fica sempre, essas moram junto connosco a vida toda.
Tudo muda, a cor das casas depois da chuva, das estações, dos anos. Mudam os nossos afetos mais profundos, guardados também lá dentro do nosso peito, no silêncio das nossas vidas, na esperança dos nossos sonhos. E porque tudo muda, eis que a lembrança é sempre mais bonita.
Olha, eu lembro de paisagens, ambientes, pessoas, sobretudo os sons de palavras, algumas até incompletas, e, talvez, por isso mesmo, tão bonitas. Cheiros e perfumes delicados também jamais me sairão da mente. Lugares e pessoas têm cheiros peculiares, aprendi durante a vida, esses aromas ficam registados na gente. Guardo paisagens, jardins, um campo de trigo , um punhado de nuvens no céu. Penso sempre que me são importantes todas as coisas que vi e recordo-as sempre com brilho nos olhos.
Por isso, vivo feliz, porque tudo isso pude sentir, ver e apreciar, assim como estar aqui nesse momento, lendo esse delicioso texto, que me convida a sonhar.

Tudo de bom amiga, seja feliz com as novas mudanças...

Beijos

Nina disse...

Pois eu é que nao acredito! Julietaaaaaaaaaaa vc voltou!!!!!!!!!!!!!!

Sabe que outro dia lembrei de ti? Li tua historinha da árvore...

E nada de mudar, viu?? rsrs, fique, permaneca querida.
Foi um prazer te rever Juju, um prazer mt grande.
Um bj e um abraco, ó, tu tá linda na foto do perfil ;-)

Socorro disse...

Oi Juliêta,
Tá lindo o seu trabalho. Adorei o seu Blog. Parabéns, não só pelo texto, mas por todo o conteúdo.
Beijos, Socorro.

Dani Almeida disse...

Que lindo texto!
Que as raízes, fincadas aos nossos pés, não nos impeçam de viver novas experiências. Dani

Lorena Melo disse...

É importante encarar esse desafio... mesmo sabendo que é muito difícil. Belo texto Dona Ju, como sempre!! SAudade!!!