Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sábado, 1 de dezembro de 2012

A Verdade na Palavra Escrita




Ele chega pisando forte e vai logo avisando:

- Hoje, é o último dia de aula do curso de redação.  O tema é livre, mas eu quero “sangue, suor e lágrimas”. Quero a verdade na palavra escrita!

Nesse momento, vira-se em minha direção, sorri e completa: - siga o fluxo de suas emoções e deixe que as palavras jorrem sem nenhuma censura.  Depois, olha discretamente para o meu caderno de anotações, como se lhe adivinhasse o conteúdo e deixa-me a sós. Preocupada, pergunto-me: será que ele viu a poesia, na qual eu ainda clamo por tua presença? Sem resposta e sem saída, começo a escrever.

Nos dias de ócio, quando a casa está adormecida e o silêncio arrasta-me para o quintal dos meus sonhos, eu fico ali quieta, no meio do redemoinho das minhas emoções. Arredia, recuso-me a seguir os passos de um sentimento que teima em derramar-se pelas pautas do meu caderno.  Tento fechar as cortinas do passado, enquanto luto bravamente contras às horas que passam lentamente, mas de nada adianta. Ele surge nas minhas lembranças como um cavaleiro intrépido, traz desassossego para a minha alma, desconstrói as certezas com as quais eu edifico os muros da minha indiferença e, ainda exige de mim, coragem e atitude.

Então, rendo-me às evidências e percebo que não sou proprietária do meu tempo, pois ele me espreita a toda hora, quando resolvo apagar os vestígios da tua passagem pela minha vida.  Já não luto mais! Deixo-me seduzir pelas recordações, retiro o verbo do passado e murmuro: ainda penso em ti! Em seguida, rabisco o teu nome nas folhas de papel em branco e deixo que o meu desejo crie a mais bela poesia de amor. Depois, com a casa ainda adormecida e as lembranças, agora, em voz alta, levanto-me devagar, olho-me no espelho e mapeio as rugas do rosto, enquanto lembro o tempo que passou.

Nessa hora, uma dor lancinante faz o meu coração pulsar mais forte, quando penso que tu fugiste dos meus olhos sem me dizer adeus. Revoltada, pego os meus versos de amor e os faço em pedacinhos. Destruo a minha verdade.

Porém, no dia seguinte, em sala de aula, quando vejo o mestre aproximar-se de mim exigindo que eu costure o texto com “sangue, suor e lágrimas”, sinto-me duplamente traída: por sua argúcia e por minha emoção.

Então, mais que depressa, guardo a poesia dentro do caderno de anotações e começo a escrever, sob o olhar atento do professor de redação. 


sábado, 10 de novembro de 2012

Excesso de Bagagem











Vendo-me triste, alguém pergunta:

- O que te faz feliz?

Sem titubear, respondo-lhe que receber e enviar cartas de amor, escritas à mão, devolve-me o sorriso. Surpreendido com o inusitado da resposta, indaga-me:

- Por quê? E, eu lhe digo:

Porque ao abri-las sinto o perfume da felicidade e quando escrevo, nenhuma parte de mim se esgueira por entre os parágrafos. Ali, sou eu nua; amando sem máscaras e sem medo de ser feliz.

No acervo pessoal das minhas melhores lembranças, há sempre um carteiro e uma caixa de correio abastecendo-me de sorrisos e de sonhos. E, na memória afetiva, ecos de um tempo que ainda ressoa em mim lembrando-me de uma jovem que era feliz por que amava, era amada e sentia desejo de partilhar esse afeto com toda a humanidade.

Na construção da narrativa, daquela época, o amor era a coisa mais importante. Ele era o fio condutor para uma vida plena e feliz. Tudo o mais era valor agregado; necessário, mas não indispensável.  Não havia excessos, tampouco prazos de validade.

Porém, hoje, quando os arautos da má notícia anunciam o ‘fim do mundo’ para o dia 21 de dezembro, do corrente ano, preocupo-me com proximidade da data e resolvo fazer um inventário dos meus bens, para melhor aproveitar o tempo que me resta. Perdida nos pensamentos chego à conclusão de que dará excesso de bagagem, se eu resolver levar  o que acumulei durante décadas, pensando que tudo aquilo era a felicidade: casas, carros, títulos de clube, celulares, notebook, roupas de marca, aplicações e algumas quinquilharias... Lembranças das viagens que fiz.

Perplexa, constato que nada daquilo caberá no meu caixão - ele não tem gavetas - nem nos sete palmos de terra destinados a mim, quando chegar à derradeira hora.

Entre surpresa e aliviada por não carregar mais nenhum peso, decido que já é hora de despojar-me também, das vaidades, das ambições, do orgulho, dos rancores e mágoas que alimentaram a minha alma nessa breve passagem pela vida. E agora, que me encontro livre, leve, solta e sem nenhuma carga, sinto-me triste. E, essa tristeza que você vê no meu olhar empanando-lhe o brilho, é pelas pessoas que ainda valorizam coisas que as traças e a ferrugem vão destruir, pois, nesse exato momento, quando penso em felicidade, só me vem à mente aquela época em que a alegria corria solta pelos meus olhos. Por isso, volto à sua pergunta:

- O que te faz feliz? E, reafirmo.

Sinto-me feliz quando abro as cortinas do passado e uma saudade imensa invade-me de tal forma, que eu roubo uma fatia do tempo e percebo que ali, naquele antigo cenário; composto por um carteiro, uma caixa de correio e pelos bordados da minha imaginação está a melhor parte de mim... A mais feliz!  Sem excessos e sem  bagagem.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Em Tom Confessional








Cansado das entrelinhas e do jogo de palavras que escondem a nudez da minha alma você propõe uma trégua e pede:

 - Fale-me do tempo e do amor, em tom confessional!

 Tento articular algumas palavras para esquivar-me, mas é inútil.  Você tem fome de leão e está disposto a dilacerar até o último pedaço da minha intimidade. Desde já, assume as funções do vicariato e fica à escuta. Promete segredo. Diz que veio em missão de paz. Afinal de contas, hoje, somos apenas bons amigos.

Esgotada, física e mentalmente, por uma luta interna onde as vozes do meu querer levam-me de encontro à realidade, estendo as minhas mãos, mostro-lhe três folhas em seus tempos; passado, presente e futuro e confesso-lhe:

- Meu coração era jovem e verde como a esperança! Uma sala de espera, um lugar onde, pacientemente, eu bordava todos os meus sonhos. Tinha a alma tatuada com a frase: desistir, jamais! E, um abraço lambuzado de palavras doces.  Naquele tempo, eu não sentia saudades de mim porque tudo ainda era floração. O relógio, em compasso de espera, fazia as horas passarem lentamente, enquanto a minha vida desabrochava em todo seu esplendor, contemplando um belo porvir! Eu me preparava para viver um grande amor.

Então, eis que surgiu o momento presente e eu deixei a sala para ganhar às ruas. Estava pronta, amadureci.  Encontrei o amor e fiz dele o inquilino do meu coração.  Abri os braços e ofereci-me como agasalho para os tempos de tempestades e incertezas. Fiz a doação de um sentimento incondicional.  Fui um templo de alegria e respeito, um porto-seguro, mas de nada adiantou. Você – o amor que eu encontrei – carregava sempre uma mala, o desejo de partir e o passaporte em mãos.  A luz cambiante do momento presente o seduzia e a inquietação da sua alma viajante transformava o aeroporto em porta da sua casa. Mal chegava e já estava de partida. Sabe Deus para onde! Quiçá, para outros braços... Não o vi mais, durante anos.

Porém, quando o futuro começou a mostrar a sua cara e, com ela, uma solidão desenhada: os achaques da idade, os primeiros cabelos brancos, as rugas e cicatrizes do corpo e da alma, tudo isso fez você se aperceber de que as horas passaram inclementes. Já não lhe sobravam anos para tanta aventura. Por isso, tentou voltar à época da sala de espera – quando o meu coração ainda era jovem e inexperiente - e procurou o porto seguro do meu afeto, mas só encontrou a solidão do cais, pois eu também resolvi partir deixando-lhe apenas um bilhete em tom confessional:

“Meu querido,

Passado, presente e futuro – as três folhas secas - são partes de uma mesma árvore e podem significar a morte ou a ressurreição. É tudo uma questão de escolha. Você preferiu a morte. Eu, a vida, mas, agora, é tarde demais para nós dois. Estou amando novamente.  Adeus”!


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Sobre Viagens e Saudades




Ando com saudades de mim. Quero me visitar, mas sem malas nem máquina fotográfica. Sem lembranças... Desejo partir, enquanto o dia ainda descansa nos braços da noite. Quero viajar! Perder-me no emaranhado das ruas de um país desconhecido e sentir-me anônima: suprema delícia de ser eu mesma. Encontrar-me!

Viajar para encontrar-me! Hoje, é tudo o que eu mais almejo. Passear pelas ruas dos meus sonhos livremente e olhar sem pudores e sem distanciamento para os meus desejos, assumindo-os.

Quero viajar para esquecer a geografia dos meus passos na pátria de intimidades da qual eu exilei o amor e, só assim, refugiar-me outra vez em seus braços. Cansei de vivê-lo, apenas por meio da escrita e da minha pontuação hesitante.

Por isso quero partir, enquanto ainda sinto saudades de mim... Saudades da minha fome de infinito e de acordar palavras que me façam caber em seus braços, pois, atualmente, tudo o que faço é pontuar as minhas letras com reticências, nas páginas de um amor não assumido.


domingo, 2 de setembro de 2012

Reminiscências – Parte Dois




Numa dessas coincidências da vida volto, no dia seguinte, ao supermercado e encontro, novamente, o meu professor de redação. Conversamos sobre assuntos corriqueiros e, em determinado momento, ele cobra-me o texto anterior, dizendo que o tema sobre o passado ficou incompleto. Faltaram parágrafos sobre o amor: suas dores, alegrias e intimidades. Exige confissões... Digo-lhe que a memória da paixão é frágil. Ele insiste. Eu resisto! Estou cansada de despir-me a cada palavra escrita. Mas, como não tenho alternativa esforço-me para cumprir a tarefa. Vou tirar, mais uma vez, a roupa dos pensamentos... Fazer strip-tease das minhas fantasias.

Houve uma época em que o amor costurava as minhas pautas. Eu alinhavava palavras de carinho e ternura e, com elas, bordava as páginas dos meus textos. Remanescente de uma geração que lutara por liberdade e igualdade acreditei que o passado era um tempo comum aos dois gêneros e que, juntos, poderíamos construir uma relação de amor, confiança e respeito nesse mundo contemporâneo. Ledo engano. A história evoluiu, o homem, não! Ele saiu da caverna, mas continua aparvalhado. Deseja as benesses da evolução para sua espécie, no entanto recusa-se a conceder os mesmos privilégios para a mulher.


Procuro nos arquivos da memória, onde cataloguei as lembranças e não encontro, professor, esse amor que me faça garimpar palavras para antecipar saudades. No terreno dos meus sonhos só houve amor de perdição. Não tenho alegrias e intimidades para festejar, pois desse sentimento só conheço as dores: traição, abandono e solidão. Recuso-me a inventar trajetórias por onde os meus pés não caminharam. Portanto, não me peça para refazer a redação e falar sobre um amor que eu não conheço. Conheço, sim, o amor no universo masculino. Uma terra sem lei e sem respeito.


Cresci no mundo dos homens – de tantas prerrogativas - mas não aceito os seus arreios, não comungo de suas ideias, nem pactuo com os seus privilégios... A não ser que possa usufruir dos mesmos direitos.


Quero para mim, também, o direito à infidelidade, à traição e à esbórnia sem o julgamento nem a condenação do mundo machista. Quero usar as mesmas armas e provocar as mesmas feridas. Quero contar vantagens, fazer piada do sofrimento alheio, enganar os tolos e beber à sua inocência e, ainda assim, não ser taxada de leviana, irresponsável, nem de adúltera. Quero tantas coisas, mas, principalmente, quero que o tempo corra justo, pois nessa luta inglória, onde masculino e feminino se digladiam em busca de direito, poder e reconhecimento, só quem perdeu foi o amor...


E, é por isso, professor, que a minha redação sobre reminiscências está incompleta. Faltou saudade para contar histórias.

domingo, 26 de agosto de 2012

Reminiscências










De longe, na fila do supermercado, ele – meu professor de redação - grita: essa é fácil, Juliêta! Fale-me do passado. Amanhã!

Acho graça na provocação e aceito o desafio, pois preservo as minhas lembranças em um recanto guardado pelos cercados da memória. Aqui, onde as horas descansam, preguiçosamente, eu encontro um campo fecundo para onde posso vir sempre que seja necessário reinventar a minha própria geografia. Digo reinventar porque não sei o que fazer com esse tempo presente, que só tem serventia para mudar a narrativa dos meus sonhos.

Falar sobre o que passou – quando se foi feliz - é sempre agradável, embora saibamos que o saudosismo é considerado traço distintivo de quem já dobrou o “cabo da boa esperança” e, por vezes, motivo de ironia da parte de quem nos escuta. Mais uma vez aceito o convite, só me resta abrir às comportas do tempo.

Sinto falta do passado, admito! E, falar sobre ele é revisitar a janela dos dias que se foram para dar livre passagem à saudade. É ter em mãos um passaporte para encurtar à distância, entre as páginas viradas da vida. Vida que, hoje, se anuncia tão pródiga em dilapidar o capital dos nossos sonhos. Falar no passado – ontem, antigamente, na minha época - é desconstruir a lógica que rege o tempo linear trazendo-o para afrontar esse presente, que se mostra tão sem futuro.

Futuro que não cabe nos arquivos da minha memória, pois, aqui, eu só coleciono saudades. Saudades de um período sem Celular, sem Twitter, nem Facebook, mas pleno de afetos verdadeiros...

Triste presente, esse de palavras e amores obsoletos, onde temos que “ tuitar ” todo o nosso sentimento em 140 caracteres. Triste presente, esse de janelas de Facebook, a sugerir amigos. Amigos sem tempo, apressados e reticentes. Números! Tempo triste, esse, de estatísticas para medir afeto, carinho e amizade. Um milhão de amigos, no entanto, uma solidão doída, não partilhada.

Por isso, sinto tanta falta do passado. Principalmente, quando o presente ainda não dobrou a esquina e o futuro é incerto. Sinto falta porque sou olhos, ouvidos, abraços e mãos estendidas. Sou antiga. Sou passado.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Uma Saudade



Ontem, caminhando pela areia da praia, lembrei-me de ti, Rolando. De imediato, me veio o nome de um filme cujo título era: “Nunca te vi, sempre te amei”. Lembrei também que a morte sequestrou os anos que te restavam e, pérfida, dispensou o resgate.

O que fazer agora com essa imensa saudade, meu amigo?

- Conformar-me e deslizar os olhos, diariamente, pelo “chão do infinito” à espera que uma estrela cadente me dê notícias tuas?!

- Não! Decididamente não! Porque saudade é o único patrimônio que amealhei durante esses anos de distância geográfica - entre nós - e não pretendo abrir mão dela, para transformar a tua lembrança num amontoado de cinzas.

Ontem, hoje e sempre, o que eu mais desejo é colocar lenha na fogueira que um dia acendeste, para lembrar-me de ti e das tuas palavras. Palavras que me aqueciam nas noites frias de inverno da alma...

Por isso esse texto, hoje. Desisti de ouvir estrelas. Vou ao teu encontro lá no “Entremares”. Quero constatar que a morte é só uma palavra, uma distância, um vazio. E tu, Rolando; uma amizade, um amor, uma saudade. Sempre!

sábado, 21 de julho de 2012

As Três Marias




Diariamente, caminho pelas ruas dentro de mim e encontro três mulheres. Anônimas! Dei-lhes o nome de Maria: a santa, a mãe e a outra.

No jogo da vida, Maria, a santa, vence de goleada. É imbatível e a todos encanta. Geração, após geração destoa dos costumes vigentes e da modernidade mantendo-se incólume. Com a sua áurea de santidade, convence aos outros de que reta é a sua conduta e que foi concebida para a liturgia do lar... Nada mais a acrescentar sobre ela.

Maria, a mãe!  Lava, passa, cozinha e educa... Tem carta branca para entrar no paraíso, pois na contabilidade da sua vida somente doou carinho, afeto, amor e cuidados. Os filhos são o seu único tesouro. Poderíamos chamá-la, também, de renúncia, pois colocou cercas ao seu redor. Despediu-se da vida quando um frescor interno ainda habitava a sua alma. Poderia ter alçado grandes voos, mas optou por viver à sombra dos que brilham. E, isso é tudo o que sei sobre ela.

Maria, a outra! O próprio nome já lhe pesa... A que poderia ter sido e não foi. Nela há uma rebeldia latente, um desejo enorme de transgredir... Por anos a fio guarda dentro de si uma inquietação que lhe consume os dias e as noites. Debruça-se sobre as lembranças do passado e não aceita que a sua condição de mulher seja passaporte para o atraso das ideias, dos costumes e, principalmente, da justiça social. E, no fluxo de suas incertezas, no silêncio contemplativo das madrugadas, pergunta-se:

- Por que me sinto assim despovoada, estrangeira de mim mesma? Qual o meu lugar no mundo se me tiram o direito à voz e à vida?  Aonde me encaixo no momento atual? Estudo, trabalho, pago os meus impostos e estou em dia com as minhas obrigações cívicas: ajudo a eleger aqueles que vão decidir o destino do meu país. Por que, então, cerceiam o meu direito de ir e vir colocando-me um cabresto, que me desvia do caminho e do avanço significativo das ideias que libertam? Pensando nisso, pede:

- Não me obriguem a olhar para o passado, pois nele eu só enxergo a santa e a mãe.  Elas ainda permanecem no altar do tempo, mas a outra, hoje, é a mulher que mais percorre caminhos, dentro de mim, nas noites insones, pois tem muita sede de viver.  E, em sendo assim, dou-lhe voz e vida tirando-a do anonimato.

- A outra sou eu: moderna, atual, senhora do meu destino e dos meus desejos. Uma mulher bem resolvida...  Sou, também, a santa e a mãe. Juntas, formamos uma trindade pensante. Indissociável. Só não vê quem não quer!





domingo, 8 de julho de 2012

Um Tema de Improviso





Sempre que eu encontro o meu professor de redação, ele desafia-me com os seus temas de improviso. Uma brincadeira que a esta altura não me rende sequer uma nota mínima. É que andei desbotando as minhas saudades. Mas, como recusar um pedido do querido mestre que ao longo dos anos ensinou-me a pontuar as minhas dores?

Refeita da surpresa de vê-lo, assim, diante de mim, ao acaso, não resisti à tentação e comecei a desfiar o meu rosário de queixas.

Ah! Professor, não me peça para acordar as minhas lembranças, pois elas, agora, são permeadas de reticências: daquilo que não fiz, do que não fui e do que não ousei.  Doem, em mim, as folhas do tempo que eu não vivi...

Queria um momento que fosse da minha juventude, para desafiar convenções, regras e preconceitos. Queria um instante apenas, para afrontar o destino que me fez covarde e submissa.

Ousar!  Essa é a palavra de ordem para qual eu nunca dei ouvidos. Arriscar-se, atrever-se, decidir-se... Desarrumar a vida e empacotar lembranças com cheiro de naftalina foi algo que não passou de um intervalo entre a minha vontade e o meu medo. Medo de não saber reinventar a existência dando-lhe um lugar para o imponderável.

Ah, como eu queria - no passado - ter a visão do agora, onde me descobri portadora de quereres e de desejos nunca antes experimentados. Uma pausa nos ponteiros do relógio seria suficiente para que eu inventariasse as minhas dores e decidisse: daqui pra frente tudo vai ser diferente... Mas, hoje, falta-me tempo e sobra coragem!

Por isso, como é finda a nossa conversa e só me restam duas “linhas”, termino a oralidade da minha redação, dizendo: até outro dia, professor!




terça-feira, 19 de junho de 2012

Rótulos e Prazos de Validade



O que me incomoda, poucos sabem, pois viver é transitar entre o que pensam de mim e quem realmente sou... Porém, posso afirmar que algumas atitudes me causam desconforto e, uma delas é essa mania que as pessoas têm de medir e aferir graus de importância à passagem do tempo como se a vida, a felicidade e o prazer pudessem ser medidos em números e tivessem garantia de qualidade, apenas, dentro dos prazos de validade a se vencerem aos quinze, dezoito, vinte e cinco, trinta anos ou um pouco mais que isso.

Quem disse que a vida, o beijo na boca e o sexo aos quarenta, cinquenta, sessenta e outros “entas” têm que ser contidos e comportadinhos a partir daí? E por que não podem ser tão interessante, intenso e apaixonantes quanto!? O que define a qualidade de uma boa relação?  Será o orgasmo do corpo físico, que se extingue em poucos minutos, ou o arrebatamento da alma que se reconhece nos olhos do outro, quando na mesma sintonia, dando-nos a sensação de plenitude? Essas são perguntas cujas respostas dependem da subjetividade de cada um.

De minha parte, não gosto quando alguém indaga: - que idade você tem? Ou há quanto tempo está sozinha? Pois reconheço o que está implícito na pergunta: rótulos! Há tanta coisa mais importante para saber sobre mim, como por exemplo: que eu tenho sessenta e dois anos, mas alimento a minha alma e o meu corpo, todos os dias, com uma curiosidade e uma alegria naturais às crianças. E, que a estas perguntas mais frequentes que algumas pessoas fazem sobre a passagem dos anos e da solidão, eu sempre respondo:

- Não tenho idade, tenho sonhos! E não gosto de quem passa a vida medindo, mas se isso lhe dá prazer, meça, pois enquanto você faz isso, eu vou ser feliz... Pode parecer grosseira, mas muito mais indelicada que a minha resposta é alguém – ainda que inconsciente - decidir em que momento a felicidade pode bater a minha porta e condicionar isto a um número no meu RG ou a uma data qualquer que indique se o meu prazo de validade está vencido!

Habitamos um tempo em que viver só é visto como sinônimo de frustração e incompetência, mas esquecemos de que viver sozinha não quer dizer solitária. Solitária são todas as pessoas que, engessadas no tempo, não se bastam nem assumem os seus desejos e, por isso, vivem numa eterna fila à procura de alguém que administre a sua vida dentro dos rígidos padrões, do certo e errado, como se o prazer e a felicidade tivessem dia e hora marcados para serem vividos em plenitude.

A essas pessoas eu digo: sou de amores longos; antigos. Daqueles em que os anos se contavam em respeito, cumplicidade e paixão... Muita paixão.  Não gosto de amores sem teto. Desses que a fila anda numa frequência tão assustadora que mal dá tempo de exercer ternuras e fazer carinhos. Incomoda-me esse caos interior que as pessoas abrigam dentro do peito e que as levam a uma corrida incessante e frenética, como se a idade ou o tempo pudessem ser empecilhos à conquista da felicidade.

Por isso, não me coloquem rótulos, nem prazo de validade, pois tenho por hábito ser feliz e viver o amor em qualquer tempo e idade... E, sempre!




sexta-feira, 8 de junho de 2012

Segredos de Confessionário




No teclado, as letras fora da ordem alfabética, lembram-me o lúdico e, instintivamente, quero brincar com as palavras, mas olho para elas e, dentro do meu silêncio tagarela, penso: este é o momento certo para juntar-lhes as notas musicais dos meus gemidos e compor uma linda canção de amor. 

Porém, hesito, pois apropriar-me das palavras e assumi-las como senhora dos meus sonhos e dos meus desejos leva-me, inevitavelmente, a escrever segredos de confessionário.

- Será que estou pronta para fazê-lo, pergunto-me!? E, antes que a dúvida amordace novamente as minhas frases, deixo que as minhas mãos deslizem pelo teclado, libertando-as. Hoje, darei carta de alforria aos meus pensamentos. Vou revelar o meu segredo.

- Amei-o tanto e tão profundamente que esqueci de mim. Dediquei os melhores anos da minha juventude a uma esperança estéril, irmã gêmea do abandono ao qual me entreguei, quando, por minha livre e espontânea vontade, alimentei ilusões de poder reconstruir os caminhos por onde, um dia, desfilou o nosso amor de ontem.

Ontem, tempo pretérito, passado que não passa, pois ainda que lhe reconheçamos o cheiro de naftalina e a fragilidade dos sonhos, falta-nos o alicerce da vontade para admitir que: só é nosso aquilo que possuímos. E, eu nunca o tive. Faltou entrega, mas muito mais do que isso, faltou honestidade e atitude. Sobrou covardia!

Não lhe cobrei royalty por alimentar a sua vaidade com o meu amor, e sim, dignidade e respeito, pois não lhe bati à porta com um pires na mão, apenas amei-o em silêncio, por um longo tempo. Tempo que um dia se esgota sem arrependimentos nem mais saudades, pois venho descobrindo que gosto mesmo é de falar de amor...

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Manual de Sobrevivência




O velho manual de instrução estava ali ao alcance das suas mãos, mas ele desdenhava, olhava de soslaio, evitando comprometer-se. De que lhe serviam aquelas páginas gastas, fruto da experiência alheia!? Queria sorver a vida de um só gole, levantar um brinde a si mesmo e dizer: não dependi de ninguém!

Fonte de prazer e de orgulho foi gastando a frase até se deparar com a solidão, essa velha amiga de todos nós. Recorreu, então, às compras, à bebida e às drogas na tentativa de suprir o abandono ao qual se entregou.

(...)

Hoje, refeito das dores e com mais experiência ele diz:

- Vivo na contramão das coisas. Enquanto uns acumulam bens, serviços e honrarias, eu pratico o desapego daquilo que ao longo do tempo classifiquei como prioridade... Os meus passos outrora hesitantes se encaminham, hoje, céleres para o terreno fértil das coisas simples. Há tão pouco tempo para sentir! Que falta me fez um manual de instrução com as palavras amor e sabedoria em letras maiúsculas, no início do meu caminhar.

Ao nascer me foi dito que a conquista da felicidade era para os mais fortes, belos, sagazes e disponíveis para viver os prazeres da vida.  Orgulho, vaidade e ambição eram o trio de ouro que me levaria ao pódio. Dinheiro e poder o fio condutor para esse almejado lugar.  Ninguém mencionou as palavras amor e sabedoria! Essas, somente o tempo nos apresentou, apesar de conhecê-las por meio de alguns velhos clichês: só o amor constrói; e, dinheiro paga a conta, mas não traz felicidade. 

Vaidade! Tudo é vaidade. Está escrito no mais antigo de todos os livros. Por que será, então, que teimamos em não enxergar o óbvio? O que mais se vê por aí são egos inflados por letras mortas e palavras sem vida!  Buscamos honrarias, mas esquecemos de duplicar o conhecimento em favor do bem comum.  Viver é tão simples, ser feliz mais ainda, no entanto, investimos tempo e esforço naquilo que está distante de nós e esquecemos o amor, fonte de toda sabedoria!

Pensando nisso, lembrou-se do velho manual de instrução, que o amor de  mãe havia colocado em suas mãos para que as dores do mundo não lhe pesassem tanto e sorriu...

Afinal, a vida ensina!



domingo, 20 de maio de 2012

Atitude





Há algum tempo, o professor de redação pediu-me para dissertar sobre um tema qualquer e, naquele dia, nada parecia mais pertinente, pois eu sangrava por dentro.  Então, escrevi: - eu rasgo o verbo com o meu amor, abro um sulco nas minhas feridas e exponho as minhas cicatrizes, mas tomo uma atitude. Nascia ali, nas páginas da minha dor, a escrita mais sincera que alguém ousou colocar nas pautas de um caderno.

Sem preâmbulos, fui logo dizendo que em mim as palavras não adormecem, elas ganham asas e saem rumo ao seu destino. E, naquela hora, a direção era você. Cobrava-lhe uma atitude! Sim ou não era a resposta ansiada. Talvez, amanhã ou depois seriam frutos de sua indecisão... Não me interessavam.

Pedi-lhe um posicionamento, você respondeu-me com o seu silêncio e, mais uma vez, na ausência das suas palavras perdeu-se o encantamento do meu sentir: acabou-se o amor, diluiu-se o desejo e a minha admiração.

Já não lembro mais o seu rosto, esqueci a sua voz, o som dos seus passos e o perfume do seu corpo. Você não se encaixa mais nas minhas lembranças e, hoje, o passado só me serve para fazer poesia e brincar com as palavras.

Por isso, coloquei nos dedos a sua hesitação e com ela escrevi o tema. Tomei uma atitude e esqueci você!





sábado, 12 de maio de 2012

O Medo e a Vontade




Flavia, do blog "sabe de uma coisa?" escreveu: "(...) ainda não aprendi a manejar com destreza nem os sentimentos, essas pulsões ininteligíveis, nem a palavra, essa lâmina expurgadora (...) E não é que seja essa a minha vontade - essa é a vontade  do meu medo, da minha inexperiência em domá-las”. Por outro lado, o escritor Paulo Coelho nos diz: - “as palavras são a vida colocada no papel”.

Como ficamos então se o nosso medo é maior do que a nossa fome de palavras e elas são a vida descrita no papel?

- Ainda não sei, estou tentando descobrir. Porém, acredito que a vida de verdade é escrita no silêncio, pois o medo que nos leva a domesticar os signos é fruto, talvez, da total incapacidade das pessoas em traduzi-los e, por isso, nos fechamos nessa ausência de ruído.

O escritor Leo Buscaglia nos diz que há muitos tipos de símbolos. A linguagem oral – ou escrita - é apenas um deles. Diz, também, que as coisas mais lindas poderiam acontecer se nos calássemos.

Meditando sobre isso, nesse dia chuvoso, propício a lembranças e saudades, eu me pergunto:- por que será que quando calo a minha fome de palavras, tudo que me resta é a tua ausência e o teu silêncio? Será que a vida te dói tanto na alma, que preferes escondê-la das pautas do teu caderno domesticando os símbolos para não expor a tua nudez? Se tudo isso é verdade tenho que lamentar, porque como disse Leo, em seu livro, “Vivendo, Amando e Aprendendo”: “basta uma coisa muito, muito pequena para nos unir e, no entanto, estamos todos tão juntos, mas morremos de solidão”.
  
Lembro-me, agora,  da vontade e do medo de Flavia e desisto de buscar o entendimento. Opto por traduzir os sinais das páginas do meu silêncio, libertá-los e confessar sem receio: eis a minha vida e a minha alma expostas no papel. Sou eu em carne viva! Sou eu, ainda... Tua!




domingo, 6 de maio de 2012

A Vida em Pequenos Gestos



Em dias de temporal... Sou criança! As lágrimas do céu purificam-me deixando-me em estado de leveza e quietude. Deixo-me seduzir pelas lembranças e o meu avesso sai a passear com o adulto que eu me tornei. É a oportunidade que tenho de lavar a minha alma, de corrigir o meu percurso e de observar a vida em seus pequenos gestos.

Em dias de temporal... Sou menina! Desligo a TV, não leio jornais nem revistas, não quero saber da crise por que passa o mercado internacional, tampouco sobre a última cotação do dólar. Não viajo nem olho vitrines! Em dias de temporal... Já disse: sou menina! Pego a vida pelas mãos e saímos a passear por aí, procurando alguém de sorriso e coração abertos para alegrar o dia e apaziguar a alma.

A vida em flash de memórias convida-me a olhar lá fora e tal qual um filme em preto e branco revejo-a como ela é: uma sucessão de acontecimentos, uma roda gigante que não para de rodar, intercalando movimentos de subida e descida para nos mostrar que nada é para sempre; nem as tristezas nem as alegrias, somente as boas lembranças... Essas, sim, oriundas dos pequenos gestos, são as responsáveis por encherem os nossos dias de uma alegria inefável. 

Olho ao redor e me detenho a observar o vaivém das pessoas, que em movimentos frenéticos ligam á TV; leem jornais e revistas, apressadamente; acompanham as notícias do mercado cambial através da internet e certificam-se das últimas decisões do governo. Viajam e olham vitrines... Diariamente!

Então, eu penso: se tudo se repete e se a roda gigante em sua subida e descida nos faz enxergar as oscilações do nosso viver, por que será que não nos damos conta de que somos viajantes de uma terra onde a felicidade só se encaixa nos pequenos gestos? 

Nessa hora, desejo que um temporal desça sobre mim e lave a minha casa de dentro inundando espaços e porões, por onde as teias de aranha teceram certezas de que a vida é só essa repetição de fatos... Já não sou adulto! A criança que há em mim deixou-se seduzir pelas lágrimas do céu e descobriu a vida em seus pequenos gestos.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Amor e Liberdade




Existem amores que carregam no peito o lema: sem jeito pra ser feliz! Entendem-se bem com a poesia quando derramam seus versos nas páginas em branco, mas não encontram espaço na vida real. Faltam-lhes as asas da liberdade, pois amar é morar dentro do outro sem tomar posse. 

O amor deveria ser uma casa de portas e janelas abertas, para que pudéssemos entrar e sair livremente. Uma casa de passagem onde a alegria do encontro, da cumplicidade e do companheirismo fossem responsáveis por retardar a despedida e, quando houvesse, que ela tivesse a medida do respeito e da admiração dos primeiros dias.

Mas não é isso que acontece, apesar de vivermos uma época em que a liberdade amorosa é tão cultuada. Há sempre nas relações atuais, uma porta cujo indicativo saída de emergência parece invocar a impermanência e, por ali passam a intolerância, a violência e o desamor. Queremos amar e ser amados. Falamos tanto sobre o amor, celebramos esse sentimento em cantos e em versos, mas o que prevalece, nesses tempos modernos, é um novo conceito de escravidão, onde se barganha a posse do outro em troca de um possível afeto. Afeto que está mais para jugo, subserviência e senhorio do que para o amor, pois quem deseja subjugar o outro desconhece a liberdade da alma e a sua capacidade de se doar livremente...

Desconhece, também, que quanto mais livre somos mais fazemos festa dentro de nós para celebrar esse porto seguro, que é dormir e acordar dentro dos olhos do ser amado... Eternamente! E, que essa, sim, é uma “escravidão escolhida” e, só por isso, tão importante e duradoura.

Por isso, estamos fadados a encontros e desencontros, enquanto não aceitarmos que tu e eu podemos ser uma equação feliz, a partir do momento em que reduzirmos às expectativas, em torno das quais construímos o nosso patrimônio emocional, a um único objetivo: à felicidade de morar dentro do outro sem tomar posse, pois o verbo amar para ser conjugado precisa de liberdade.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Não Me Faça Doer Tanto





Vivo pelo avesso onde tudo é carne viva: desejo, saudade, tempo e solidão.

Os olhos da minha memória percorrem as dobras do tempo e, estupefata, concluo que a felicidade deve ser um lugar longínquo ou uma palavra inventada por quem acredita que tem a posse da eternidade e, por esse motivo, está sempre adiando a vida. Esquece que ela é feita de momentos e que não devemos perdê-los. Thoreau, já nos alertava sobre isso quando dizia: “Ah, Deus, chegar às portas da morte só para ver que nunca se viveu”.

Penso que aqueles que estão sempre adiando um projeto, protelando uma decisão ou deixando de fazer qualquer coisa que exija coragem, determinação e confiança em si mesmos dizem a mesma coisa. São os amantes dos tempos suspensos! Protelam a sua felicidade e adiam a própria vida e, assim, constroem muralhas em torno de si para se protegerem. Adiam a vida, sim, e quando a morte lhes ensina sobre o valor do tempo, sobre limites e finitude eles se enchem de tristeza pelas coisas que não viveram e dizem: ah, se... 

Vivo pelo avesso onde tudo é carne viva! E, em mim, tudo dói: o projeto de vida esquecido na gaveta, o beijo e o abraço que não dei, o encontro ao qual não compareci, os riscos que eu evitei por medo de sofrer, e tantas e tantas coisas; mas, principalmente, o amor que enclausurei por medo de ser feliz ou por incompetência de lidar com o imponderável... E isto, hoje, me leva a perguntar:

Tempo, tempo, tempo, que queres tu, de mim? E, quantas vezes mais eu farei essa indagação, mas evitarei ouvir a resposta somente por medo de tomar decisões, de traçar caminhos e de seguir? Quantas horas eu ainda perderei assistindo aos meus desejos se transformarem em poeira de estrada, de estrelas e de sonhos?

Em seu livro, Vivendo, Amando e Aprendendo, Leo Buscaglia nos alerta: “A vida é um banquete e a maior parte dos idiotas está morrendo de fome”.

Então, eu penso: morro a cada dia! Morro quando não digo que preciso de você ou quando tenho que decidir entre o sim e o não e opto pelo talvez, levando os meus passos e os meus sonhos para um futuro incerto. Tão poucas palavras, sim ou não, mas decisivas no meu percurso em busca da felicidade. Felicidade que eu coloco bem longe de mim, quando ajo dessa forma e, que um dia, quando a solidão for a minha única companheira me fará pedir: por favor, não me faça doer tanto!

domingo, 25 de março de 2012

Reescrevendo a Vida




Viver é escrever a sua história de próprio punho. É ser autor do seu destino...

Nascemos sem passado. Somos folhas de papel em branco, onde as pessoas brincam com as palavras e vão criando o roteiro da nossa vida. Nas primeiras experiências estamos absolutamente entregues, tal qual o barro nas mãos do oleiro. Sem reservas! O tempo, esse compositor de destinos, dirá o que prevaleceu na arte de escrever: se a onipotência ou a sensibilidade das pessoas que passam no caminho e deixam suas marcas impressas na nossa alma...

Debruçando-me, hoje, sobre as lembranças, acredito que a primeira opção é responsável por vivermos em constante rota de fuga para esquecer o passado. Isto significa dizer que, em determinados momentos, damos poder demais às pessoas e quando elas nos tomam de assalto a fé e a confiança, recomeçar se faz necessário. Nessa hora, é importante lembrar que sempre é possível reconstruir caminhos e agir de conformidade com essa canção: “começar de novo e contar comigo, vai valer a pena, ter amanhecido, sem as tuas garras, sem o teu domínio...”

Recomeçar, mas sempre com os olhos da memória voltados em direção aos nossos sonhos. Tendo conhecimento de que o amor e a felicidade estão mais próximos do riso do que do pranto e são escolhas nossas. E, ainda, que entregar a vida nas mãos do outro requer a maturidade e a sabedoria que só a passagem do tempo nos pode conceder. Por isso, não devemos abrir mão delas, caso contrário, estaremos voltando às páginas em branco e a inocência dos primeiros anos, permitindo assim, que escrevam o roteiro e ditem as nossas escolhas.

Precisamos saber, também, que em pleno século XXI a ordem do dia é ser feliz e isso inclui quebrar velhos padrões, pois, por mais que pareça clichê, a felicidade mora dentro e não fora de nós. Qualquer coisa que venha de fora é apenas um complemento ou, no máximo, um convidado a participar da nossa festa interior.

Dessa forma, podemos concluir que viver, viver de verdade, é reescrever a vida, mas de próprio punho. É reconstruir caminhos de acordo com os nossos sonhos. É começar tudo de novo, com garra, confiança, coragem e assumindo a autoria da própria vida.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O Que Aprendi Sobre o Amor




Na minha pressa em conhecer o amor, fiz um rascunho, um esboço, um desenho mal-acabado sobre ele e te inventei... Depois, saí de mim para buscar abrigo em ti. Que pena! Estavas vazio. Então eu aprendi...
Aprendi que a eternidade cabe ali, justinha, dentro do meu amor, pois gosto do para sempre, do cotidiano, de suas certezas e de saber onde me encontrar, quando estou fora de mim...
Aprendi que quando eu estou fora de mim é porque fiz morada dentro de ti. Sou a noite que abraça o dia e a alma que incendeia ... O amor que eu aprendi pressupõe convicção, estabilidade e segurança. Fora da materialidade! Nele, eu adormeço e acordo todos os dias, como no útero materno, e dele, tiro o meu sustento!
Aprendi que ele prolonga o meu sorriso para acolher a tua alegria, empresta a minha memória para os teus esquecimentos, faz minhas as tuas saudades e, com elas, cria uma colcha de retalhos para agasalhar os teus sonhos.
Aprendi, ainda, que é no meu corpo que ele procura abrigo para a tua ânsia de eternidade e, um lugar de acolhimento, onde a tua alma reconhece a minha... Aprendi, também, que quando estamos absolutamente entregues, numa relação, longe é uma distância que não existe, nem se ressente, nem se inquieta com ausências, pois amar é ir além da paixão e do prazer!
Por último, aprendi que amar é atravessar o momento da nudez. É quando a minha alma incendeia a tua...

terça-feira, 6 de março de 2012

Memórias do Olhar




Houve um tempo em que você sabia o significado da palavra amor. Bastava olhar nos meus olhos. Hoje, vira as sílabas pelo avesso, estuda a semântica, analisa dados, mas continua sem entendê-lo. Perdeu o hábito de ser feliz!

Faz parte do processo evolutivo do ser humano estudar a linguagem das palavras e buscar a sua significação. Mas, o essencial, aquilo que tem importância, não está na escrita e sim, no silêncio – aquele que fala através do olhar - embora poucos o compreendam ou lhe deem atenção.
Não importa o que eu diga ou escreva. Não se prenda a dados! Não me leve tão a sério! Estou apenas exercitando a minha liberdade de criar, de brincar com as palavras. Esteja atento, sim, ao que dizem os meus olhos, pois eles traduzem aquela nudez que eu não desejo expor, mas que escapa derramando a memória dos desejos que deixei guardados nas gavetas da minha alma.

Por isso, não desvie os seus olhos dos meus... Essa é a única maneira de você entender o significado da palavra amor. Quanto às palavras, esqueça-as! Elas não guardam saudades, tampouco desejos.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Grávida de Esperança




Um encontro casual, embora improvável, é o que desejam os meus olhos quando percorrem lugares, ruas, esquinas e, ávidos procuram por ti.
Quase meio século de sonhos e esperança a se derramarem pelos desertos da tua ausência... Tantas horas já se passaram desde a última vez que nos vimos e esse amor teimoso, enxerga a eternidade como um bebê e continua esperando, esperando...
Os sonhos da alma ainda transbordam no horizonte perdido dos meus desejos mais secretos. Os da pele? Ah! Esses perderam-se nas dobras do tempo, mas continuam vívidos e cheios de quereres.
Procuro por ti todas as noites, meu amor, e te encontro! Na minha fantasia dançamos, nus e sem máscaras, a mais bela canção de amor: a entrega. Então, grávida de esperança eu fecho os olhos da alma e o meu corpo fala... Tateando, exigente.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Nua! Sem Medo de Amar




Perguntaste-me outro dia: - Quem é você?
Respondi: - Se queres saber quem eu sou, despe-me e olha profundamente para o meu avesso. Essa sou eu. Nua! Sem medo de amar...
Não irás me encontrar na superfície ou borda, pois na aparência sou igual a todo mundo quando tento disfarçar o medo, a insegurança, o orgulho, a vaidade e, também, o meu amor. Procura-me ali, naquele cantinho escuro, porque perdida entre sombras e lembranças que se movem dentro de mim; encontrarás ternura, carinho, paixão, arrebatamento e paz. Essa sou eu. Nua! Sem medo de amar...
Perguntaste-me se eu ainda te amo. Respondi: - Voltarei a te amar quando me quiseres despida, transparente, diáfana, porque só assim posso ser tua... Sendo eu! Não me peças para querer-te quando me obrigas a esconder o meu avesso no labirinto das aparências, pois a única forma de me sentir viva e inteira é na liberdade de ser quem sou... Nua! Sem medo de amar...
Não satisfeito com as respostas, perguntaste-me o que realmente querias saber: - Ainda és minha?
Então, pensei, pensei e respondi: - Não, não sou... Tua!? Não! Pois quero-te também inteiro. Sem manhas nem artimanhas. Livre das aparências... Nu! Sem medo de amar...
Quero o teu avesso!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Entre Números e Sonhos



Há um tempo que passa e, esse conta-se em números – é a juventude do corpo, que tem pressa porque vive aprisionado na ilusão dos dias... Há outro que também passa, mas esse conta-se em sonhos - é a maturidade da alma! É quando a bênção da idade madura põe fim à ansiedade, à urgência e nos liberta da censura e da escravidão dos números, fazendo-nos menos exigentes, mais reflexivos, pacientes, sábios e sonhadores.
Hoje, enquanto a passagem dos anos faz marcas em meu corpo e acrescenta-lhe um algarismo, desejo, razão e sensibilidade juntam-se harmoniosamente, para que a minha alma engatinhe no mundo livre dos sonhos. Nessa hora, eu faço um brinde à sua independência e vontade de ser feliz: sem amarras!
O meu olhar, a partir desse momento, passeia pelos dias absorvendo tudo ao redor. Nada escapa a minha retina... O brilho das estrelas não é apenas luminosidade, é festa para os meus olhos e o clic da máquina fotográfica não capta apenas o instante, ele registra a eternidade para a qual eu estou prestes a dar as minhas despedidas. Então, tudo passa a ter um sentido e um peso diferente. Aí, eu penso na minha juventude e relembro.
- No meu passado, tudo era motivo de frustração: fiquei infeliz porque perdi uma viagem, um emprego, um “grande amor”; fiquei triste porque rompi com o meu melhor amigo, mudei de endereço, de planos; e, entre outras coisas, fiquei depressivo porque não suportei o peso do adeus definitivo, o ser diferente e não saber partilhar a minha solidão. Orgulho, vaidade, soberba e poder foram heranças da minha juventude. E, agora, razão e sensibilidade são testemunhas da minha melhor idade.
Pouco importa, atualmente, se o vizinho tem uma casa, um carro ou um emprego melhor que o meu. Se a fibra do meu cabelo, a cor da minha pele ou a minha orientação sexual fizer a festa para os desocupados de plantão. Nem se deixo de sair nas colunas dos dez mais – ricos e famosos – tampouco se o meu português ruim impedir-me de sentar à mesa do chá das cinco...
Rótulos e etiquetas!? Estou dispensando, hoje, em nome da liberdade de ser feliz comigo mesma, pois tenho, dentro dessa alma que engatinha, – apesar dos anos - um manancial de amor, ternura e carinho que não envelhecem, nem se contam pelo uso.
Por isso, enquanto a minha alma caminha por entre números, eu festejo a sua maturidade brindando à vida, aos sonhos, ao fim das urgências e ao tempo que passa trazendo leveza, quietude, mansidão e sabedoria.

domingo, 15 de janeiro de 2012

O Outro e Você




“Somos todos filhos do tempo e ele está nos devorando diariamente, desde o momento em que nascemos”.

Por que será, então, que vivemos ou projetamos a vida sempre no futuro?

A resposta, talvez esteja no fato de que ao levá-la para o porvir, nos sentimos confortáveis em retardar o exercício do amor e do cuidado. O olhar para o outro, seja ele pai, mãe, filho, irmão, parente, amigo ou amante, é de eternidade. Pensamos que todos estarão lá, ao alcance de nossas mãos, na hora e na data marcadas pelo relógio da nossa conveniência, ou seja, no nosso tempo! No tempo do nosso egoísmo e descaso, da nossa arrogância e desamor, do orgulho e da vaidade que sempre ditam as normas, quando o assunto é cuidar do bem-estar do próximo.

Betinho, irmão do Henfil, sabiamente nos advertiu: “quem tem fome - seja do que for - tem pressa”. Não existe amanhã para quem tem os olhos da memória voltados para o terreno infértil das ações e atitudes que nunca saem do papel ou do mundo das ideias.

Tempo! Palavra que, hoje, habita o terreno da escassez de afetos, de carinho, de respeito e de consideração. Estamos todos desaprendendo que “somos tão menos, um sem o outro” e, que, nada é permanente a não ser o passar das horas.

Precisamos desacelerar o passo em direção ao futuro para vivenciarmos a liturgia dos afetos e o exercício do amor; esse amor que pacifica os nossos dias e nos alerta que a eternidade é, tão somente, um jeito frio de prolongar o desamor, a fome, a miséria e, também, uma maneira simples de dizer: eu não me importo!

E, se no lugar do outro fosse você? O que faria?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Carta a um Amor Desconhecido



A ti que habitas o imaginário das minhas fantasias...
Coloquei os meus sonhos na gaveta da memória, certa de que, em algum momento, eles teriam serventia, mas foi tudo em vão... Entardeci, enquanto esperava, pois a natureza efêmera dos teus desejos sequestrou as minhas ilusões deixando-me, somente, lembranças e um rasto de perfume que eu gastei e, ainda hoje gasto, colecionando saudades.
Em que caminho eu te perdi, ó meu amor desconhecido, fruto das minhas quimeras!? Procuro-te, agora, nas veredas dos meus sonhos e não te encontro mais. Então, como em um quadro feito de mosaico vou colocando peça por peça, reconstruindo a imagem que fiz de ti, até conseguir definir o contorno do teu rosto. Nesse instante, dou-te as feições do meu querer e, quero-te tanto, que me esqueço... Mas, logo penso: já cumpri o rito de passagem na estrada das ilusões quando saciei a minha fome de infinito e alimentei esse amor por tantos anos. Agora, quero viver um dia de cada vez, sem memórias e sem sonhos.
Quero embebedar-me de palavras vivas... Sentir o gosto da vida a descer pela minha garganta; provocando-me, inebriando-me e trazendo-me o sorriso aberto das coisas recém-descobertas.
Não te quero mais, ó meu amor desconhecido! Foste chama a queimar os melhores anos da minha vida... Houve dias em que deixei o meu coração vaguear por aí preenchendo as minhas horas com uma saudade doída de ti. Encharquei a minha alma de lembranças e de saudades, calei a minha fome de palavras e tudo o que me restou foi a tua ausência...
Não te quero mais, ó meu amor desconhecido!

domingo, 8 de janeiro de 2012

Fidelidade em Novos Tempos




O amor que é tecido em fios de esperança, na maioria das vezes, debruça-se sobre as horas e perde-se no tempo, desarrumando afetos. Esmaecem-se as fotografias! Por isso, não quero mais gastar palavras, nem tintas, para acariciar egos... Cansei!
É fácil escrever sobre ti, meu amor! Basta lembrar as dores e os sofrimentos... Difícil mesmo é desenhar teus traços com o pincel da saudade. Sobra tinta! Pois, enquanto eu te esperava e vestia-me de sonhos, o tempo encarregava-se de delir a pintura do porta-retrato.
Ele, esse teu amigo frívolo e fugaz, cobrou de mim o que deverias ter, também, para oferecer-me: fidelidade! O “que seja eterno enquanto dure”, do Vinícius, colocou cercas ao meu redor, mas te libertou para o “posto que é chama” e, ficamos assim: para ti, os direitos do mundo machista; para mim, os deveres da lealdade...
Se somos feitos da mesma matéria, por que tu podes e eu, não!? Se tudo é temporário, eu também posso ser! Não há garantias de fidelidade em uma relação que não quer compromissos e espalha suas chamas, feito uma língua de fogo, destruindo a esperança de quem acreditou que o eterno seria para os dois...
Pois bem, se não queres cobranças, nem que te coloquem expectativas sobre os ombros, fazes o mesmo em relação a mim, porque, afinal de contas, vivemos uma nova época...
E, em sendo dessa maneira, ficamos assim: ninguém é de ninguém, posto que é chama, mas que seja eterno enquanto dure, para os dois! Pois, isto é uma questão de respeito e de direito.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Uma Carta para Minha Filha




Outro dia, enquanto conversávamos, a minha filha quis saber sobre o valor das coisas. Não no seu sentido material, mas sobre o grau de importância que determinados fatos têm e como eles afetam o nosso processo de formação e influenciam na maneira como enxergamos à vida. Por isso, resolvi escrever-lhe esta carta.
Minha filha,
A minha infância transcorreu sem maiores problemas, porque tive a sorte de ser filha de pais que tinham excelentes condições financeiras. Porém, nela não havia espaço para brinquedos, festas de aniversário, nem contos de fadas. Para eles, apenas estudo e boa alimentação eram prioridades...
Morei numa rua em que todas as meninas da minha idade eram filhas únicas e mimadas. Nada lhes era negado... Os meus olhos de menina, daquela época, viam desfilar diante de si todas as bonecas e brinquedos que eram lançados no mercado e que depois iam enfeitar as prateleiras dos quartos cor-de-rosa que tanto encantaram a minha infância.
Festas de aniversário! Essas eram temáticas, cada uma mais bonita que as outras. E, para colorir e embelezar ainda mais esse mundo infantil, das minhas amigas, histórias de contos de fadas lhes antecipavam uma boa noite de sono e sonhos.
Eu, porém, cresci com poucos brinquedos e esses, comprei-os na feira: panelinhas de barro para brincar de cozido, bonecas de pano (que chamávamos de bruxas de pano) e outras que eu recortava das revistas de papelão. Lembro-me, também, de um bambolê que ganhei de uma tia.
Festa de aniversário!? - Nunca comemorei! E as histórias de contos de fadas eu mesma lia para mim, surgindo daí o meu gosto pela leitura, que teve seu início com as revistas Lulu e Bolinha.
Porém, numa certa noite de natal, quando a minha espera pelo brinquedo desejado, já cansara de esperar, eis que surge, junto aos meus sapatinhos, a boneca mais linda que alguém já pôde ganhar. Não tinha cabelos, nem roupas, apenas uma fraudinha, uma mamadeira e um urinol. Se eu fechar os olhos, agora, mesmo já tendo transcorrido tanto tempo, consigo reviver a cena com a mesma emoção e alegria... Inesquecível! Aquele presente ficou feito tatuagem em meu coração e na minha memória.
E, sabe por que eu lhe conto tudo isso nessa carta? - É para responder a sua pergunta sobre o valor das coisas.
- Quando você e seus irmãos nasceram eu proporcionei-lhes tudo o que o dinheiro podia comprar, entre brinquedos, festas e outros bens materiais. Queria dar a vocês o que nunca tive... Um dia, chamei cada um, em separado, e perguntei-lhe qual o brinquedo que mais o havia marcado ou que lhe trouxera maior alegria. Todos deram a mesma resposta: - mainha, foram tantos que eu nem lembro mais...
Então, nessa hora, a vida me ensinou o real valor das coisas... Quando nos faltam, valorizamos! Quando temos em abundância nem a memória nos ajuda. E, isso serve também, para medir a importância das pessoas em nossas vidas, pois muitas delas viram móveis e utensílios ou um adorno a mais a enfeitar as prateleiras da nossa existência.