Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Não Me Faça Doer Tanto





Vivo pelo avesso onde tudo é carne viva: desejo, saudade, tempo e solidão.

Os olhos da minha memória percorrem as dobras do tempo e, estupefata, concluo que a felicidade deve ser um lugar longínquo ou uma palavra inventada por quem acredita que tem a posse da eternidade e, por esse motivo, está sempre adiando a vida. Esquece que ela é feita de momentos e que não devemos perdê-los. Thoreau, já nos alertava sobre isso quando dizia: “Ah, Deus, chegar às portas da morte só para ver que nunca se viveu”.

Penso que aqueles que estão sempre adiando um projeto, protelando uma decisão ou deixando de fazer qualquer coisa que exija coragem, determinação e confiança em si mesmos dizem a mesma coisa. São os amantes dos tempos suspensos! Protelam a sua felicidade e adiam a própria vida e, assim, constroem muralhas em torno de si para se protegerem. Adiam a vida, sim, e quando a morte lhes ensina sobre o valor do tempo, sobre limites e finitude eles se enchem de tristeza pelas coisas que não viveram e dizem: ah, se... 

Vivo pelo avesso onde tudo é carne viva! E, em mim, tudo dói: o projeto de vida esquecido na gaveta, o beijo e o abraço que não dei, o encontro ao qual não compareci, os riscos que eu evitei por medo de sofrer, e tantas e tantas coisas; mas, principalmente, o amor que enclausurei por medo de ser feliz ou por incompetência de lidar com o imponderável... E isto, hoje, me leva a perguntar:

Tempo, tempo, tempo, que queres tu, de mim? E, quantas vezes mais eu farei essa indagação, mas evitarei ouvir a resposta somente por medo de tomar decisões, de traçar caminhos e de seguir? Quantas horas eu ainda perderei assistindo aos meus desejos se transformarem em poeira de estrada, de estrelas e de sonhos?

Em seu livro, Vivendo, Amando e Aprendendo, Leo Buscaglia nos alerta: “A vida é um banquete e a maior parte dos idiotas está morrendo de fome”.

Então, eu penso: morro a cada dia! Morro quando não digo que preciso de você ou quando tenho que decidir entre o sim e o não e opto pelo talvez, levando os meus passos e os meus sonhos para um futuro incerto. Tão poucas palavras, sim ou não, mas decisivas no meu percurso em busca da felicidade. Felicidade que eu coloco bem longe de mim, quando ajo dessa forma e, que um dia, quando a solidão for a minha única companheira me fará pedir: por favor, não me faça doer tanto!