Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

terça-feira, 19 de junho de 2012

Rótulos e Prazos de Validade



O que me incomoda, poucos sabem, pois viver é transitar entre o que pensam de mim e quem realmente sou... Porém, posso afirmar que algumas atitudes me causam desconforto e, uma delas é essa mania que as pessoas têm de medir e aferir graus de importância à passagem do tempo como se a vida, a felicidade e o prazer pudessem ser medidos em números e tivessem garantia de qualidade, apenas, dentro dos prazos de validade a se vencerem aos quinze, dezoito, vinte e cinco, trinta anos ou um pouco mais que isso.

Quem disse que a vida, o beijo na boca e o sexo aos quarenta, cinquenta, sessenta e outros “entas” têm que ser contidos e comportadinhos a partir daí? E por que não podem ser tão interessante, intenso e apaixonantes quanto!? O que define a qualidade de uma boa relação?  Será o orgasmo do corpo físico, que se extingue em poucos minutos, ou o arrebatamento da alma que se reconhece nos olhos do outro, quando na mesma sintonia, dando-nos a sensação de plenitude? Essas são perguntas cujas respostas dependem da subjetividade de cada um.

De minha parte, não gosto quando alguém indaga: - que idade você tem? Ou há quanto tempo está sozinha? Pois reconheço o que está implícito na pergunta: rótulos! Há tanta coisa mais importante para saber sobre mim, como por exemplo: que eu tenho sessenta e dois anos, mas alimento a minha alma e o meu corpo, todos os dias, com uma curiosidade e uma alegria naturais às crianças. E, que a estas perguntas mais frequentes que algumas pessoas fazem sobre a passagem dos anos e da solidão, eu sempre respondo:

- Não tenho idade, tenho sonhos! E não gosto de quem passa a vida medindo, mas se isso lhe dá prazer, meça, pois enquanto você faz isso, eu vou ser feliz... Pode parecer grosseira, mas muito mais indelicada que a minha resposta é alguém – ainda que inconsciente - decidir em que momento a felicidade pode bater a minha porta e condicionar isto a um número no meu RG ou a uma data qualquer que indique se o meu prazo de validade está vencido!

Habitamos um tempo em que viver só é visto como sinônimo de frustração e incompetência, mas esquecemos de que viver sozinha não quer dizer solitária. Solitária são todas as pessoas que, engessadas no tempo, não se bastam nem assumem os seus desejos e, por isso, vivem numa eterna fila à procura de alguém que administre a sua vida dentro dos rígidos padrões, do certo e errado, como se o prazer e a felicidade tivessem dia e hora marcados para serem vividos em plenitude.

A essas pessoas eu digo: sou de amores longos; antigos. Daqueles em que os anos se contavam em respeito, cumplicidade e paixão... Muita paixão.  Não gosto de amores sem teto. Desses que a fila anda numa frequência tão assustadora que mal dá tempo de exercer ternuras e fazer carinhos. Incomoda-me esse caos interior que as pessoas abrigam dentro do peito e que as levam a uma corrida incessante e frenética, como se a idade ou o tempo pudessem ser empecilhos à conquista da felicidade.

Por isso, não me coloquem rótulos, nem prazo de validade, pois tenho por hábito ser feliz e viver o amor em qualquer tempo e idade... E, sempre!




sexta-feira, 8 de junho de 2012

Segredos de Confessionário




No teclado, as letras fora da ordem alfabética, lembram-me o lúdico e, instintivamente, quero brincar com as palavras, mas olho para elas e, dentro do meu silêncio tagarela, penso: este é o momento certo para juntar-lhes as notas musicais dos meus gemidos e compor uma linda canção de amor. 

Porém, hesito, pois apropriar-me das palavras e assumi-las como senhora dos meus sonhos e dos meus desejos leva-me, inevitavelmente, a escrever segredos de confessionário.

- Será que estou pronta para fazê-lo, pergunto-me!? E, antes que a dúvida amordace novamente as minhas frases, deixo que as minhas mãos deslizem pelo teclado, libertando-as. Hoje, darei carta de alforria aos meus pensamentos. Vou revelar o meu segredo.

- Amei-o tanto e tão profundamente que esqueci de mim. Dediquei os melhores anos da minha juventude a uma esperança estéril, irmã gêmea do abandono ao qual me entreguei, quando, por minha livre e espontânea vontade, alimentei ilusões de poder reconstruir os caminhos por onde, um dia, desfilou o nosso amor de ontem.

Ontem, tempo pretérito, passado que não passa, pois ainda que lhe reconheçamos o cheiro de naftalina e a fragilidade dos sonhos, falta-nos o alicerce da vontade para admitir que: só é nosso aquilo que possuímos. E, eu nunca o tive. Faltou entrega, mas muito mais do que isso, faltou honestidade e atitude. Sobrou covardia!

Não lhe cobrei royalty por alimentar a sua vaidade com o meu amor, e sim, dignidade e respeito, pois não lhe bati à porta com um pires na mão, apenas amei-o em silêncio, por um longo tempo. Tempo que um dia se esgota sem arrependimentos nem mais saudades, pois venho descobrindo que gosto mesmo é de falar de amor...