Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sábado, 21 de julho de 2012

As Três Marias




Diariamente, caminho pelas ruas dentro de mim e encontro três mulheres. Anônimas! Dei-lhes o nome de Maria: a santa, a mãe e a outra.

No jogo da vida, Maria, a santa, vence de goleada. É imbatível e a todos encanta. Geração, após geração destoa dos costumes vigentes e da modernidade mantendo-se incólume. Com a sua áurea de santidade, convence aos outros de que reta é a sua conduta e que foi concebida para a liturgia do lar... Nada mais a acrescentar sobre ela.

Maria, a mãe!  Lava, passa, cozinha e educa... Tem carta branca para entrar no paraíso, pois na contabilidade da sua vida somente doou carinho, afeto, amor e cuidados. Os filhos são o seu único tesouro. Poderíamos chamá-la, também, de renúncia, pois colocou cercas ao seu redor. Despediu-se da vida quando um frescor interno ainda habitava a sua alma. Poderia ter alçado grandes voos, mas optou por viver à sombra dos que brilham. E, isso é tudo o que sei sobre ela.

Maria, a outra! O próprio nome já lhe pesa... A que poderia ter sido e não foi. Nela há uma rebeldia latente, um desejo enorme de transgredir... Por anos a fio guarda dentro de si uma inquietação que lhe consume os dias e as noites. Debruça-se sobre as lembranças do passado e não aceita que a sua condição de mulher seja passaporte para o atraso das ideias, dos costumes e, principalmente, da justiça social. E, no fluxo de suas incertezas, no silêncio contemplativo das madrugadas, pergunta-se:

- Por que me sinto assim despovoada, estrangeira de mim mesma? Qual o meu lugar no mundo se me tiram o direito à voz e à vida?  Aonde me encaixo no momento atual? Estudo, trabalho, pago os meus impostos e estou em dia com as minhas obrigações cívicas: ajudo a eleger aqueles que vão decidir o destino do meu país. Por que, então, cerceiam o meu direito de ir e vir colocando-me um cabresto, que me desvia do caminho e do avanço significativo das ideias que libertam? Pensando nisso, pede:

- Não me obriguem a olhar para o passado, pois nele eu só enxergo a santa e a mãe.  Elas ainda permanecem no altar do tempo, mas a outra, hoje, é a mulher que mais percorre caminhos, dentro de mim, nas noites insones, pois tem muita sede de viver.  E, em sendo assim, dou-lhe voz e vida tirando-a do anonimato.

- A outra sou eu: moderna, atual, senhora do meu destino e dos meus desejos. Uma mulher bem resolvida...  Sou, também, a santa e a mãe. Juntas, formamos uma trindade pensante. Indissociável. Só não vê quem não quer!





domingo, 8 de julho de 2012

Um Tema de Improviso





Sempre que eu encontro o meu professor de redação, ele desafia-me com os seus temas de improviso. Uma brincadeira que a esta altura não me rende sequer uma nota mínima. É que andei desbotando as minhas saudades. Mas, como recusar um pedido do querido mestre que ao longo dos anos ensinou-me a pontuar as minhas dores?

Refeita da surpresa de vê-lo, assim, diante de mim, ao acaso, não resisti à tentação e comecei a desfiar o meu rosário de queixas.

Ah! Professor, não me peça para acordar as minhas lembranças, pois elas, agora, são permeadas de reticências: daquilo que não fiz, do que não fui e do que não ousei.  Doem, em mim, as folhas do tempo que eu não vivi...

Queria um momento que fosse da minha juventude, para desafiar convenções, regras e preconceitos. Queria um instante apenas, para afrontar o destino que me fez covarde e submissa.

Ousar!  Essa é a palavra de ordem para qual eu nunca dei ouvidos. Arriscar-se, atrever-se, decidir-se... Desarrumar a vida e empacotar lembranças com cheiro de naftalina foi algo que não passou de um intervalo entre a minha vontade e o meu medo. Medo de não saber reinventar a existência dando-lhe um lugar para o imponderável.

Ah, como eu queria - no passado - ter a visão do agora, onde me descobri portadora de quereres e de desejos nunca antes experimentados. Uma pausa nos ponteiros do relógio seria suficiente para que eu inventariasse as minhas dores e decidisse: daqui pra frente tudo vai ser diferente... Mas, hoje, falta-me tempo e sobra coragem!

Por isso, como é finda a nossa conversa e só me restam duas “linhas”, termino a oralidade da minha redação, dizendo: até outro dia, professor!