Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

domingo, 26 de agosto de 2012

Reminiscências










De longe, na fila do supermercado, ele – meu professor de redação - grita: essa é fácil, Juliêta! Fale-me do passado. Amanhã!

Acho graça na provocação e aceito o desafio, pois preservo as minhas lembranças em um recanto guardado pelos cercados da memória. Aqui, onde as horas descansam, preguiçosamente, eu encontro um campo fecundo para onde posso vir sempre que seja necessário reinventar a minha própria geografia. Digo reinventar porque não sei o que fazer com esse tempo presente, que só tem serventia para mudar a narrativa dos meus sonhos.

Falar sobre o que passou – quando se foi feliz - é sempre agradável, embora saibamos que o saudosismo é considerado traço distintivo de quem já dobrou o “cabo da boa esperança” e, por vezes, motivo de ironia da parte de quem nos escuta. Mais uma vez aceito o convite, só me resta abrir às comportas do tempo.

Sinto falta do passado, admito! E, falar sobre ele é revisitar a janela dos dias que se foram para dar livre passagem à saudade. É ter em mãos um passaporte para encurtar à distância, entre as páginas viradas da vida. Vida que, hoje, se anuncia tão pródiga em dilapidar o capital dos nossos sonhos. Falar no passado – ontem, antigamente, na minha época - é desconstruir a lógica que rege o tempo linear trazendo-o para afrontar esse presente, que se mostra tão sem futuro.

Futuro que não cabe nos arquivos da minha memória, pois, aqui, eu só coleciono saudades. Saudades de um período sem Celular, sem Twitter, nem Facebook, mas pleno de afetos verdadeiros...

Triste presente, esse de palavras e amores obsoletos, onde temos que “ tuitar ” todo o nosso sentimento em 140 caracteres. Triste presente, esse de janelas de Facebook, a sugerir amigos. Amigos sem tempo, apressados e reticentes. Números! Tempo triste, esse, de estatísticas para medir afeto, carinho e amizade. Um milhão de amigos, no entanto, uma solidão doída, não partilhada.

Por isso, sinto tanta falta do passado. Principalmente, quando o presente ainda não dobrou a esquina e o futuro é incerto. Sinto falta porque sou olhos, ouvidos, abraços e mãos estendidas. Sou antiga. Sou passado.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Uma Saudade



Ontem, caminhando pela areia da praia, lembrei-me de ti, Rolando. De imediato, me veio o nome de um filme cujo título era: “Nunca te vi, sempre te amei”. Lembrei também que a morte sequestrou os anos que te restavam e, pérfida, dispensou o resgate.

O que fazer agora com essa imensa saudade, meu amigo?

- Conformar-me e deslizar os olhos, diariamente, pelo “chão do infinito” à espera que uma estrela cadente me dê notícias tuas?!

- Não! Decididamente não! Porque saudade é o único patrimônio que amealhei durante esses anos de distância geográfica - entre nós - e não pretendo abrir mão dela, para transformar a tua lembrança num amontoado de cinzas.

Ontem, hoje e sempre, o que eu mais desejo é colocar lenha na fogueira que um dia acendeste, para lembrar-me de ti e das tuas palavras. Palavras que me aqueciam nas noites frias de inverno da alma...

Por isso esse texto, hoje. Desisti de ouvir estrelas. Vou ao teu encontro lá no “Entremares”. Quero constatar que a morte é só uma palavra, uma distância, um vazio. E tu, Rolando; uma amizade, um amor, uma saudade. Sempre!