Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Sobre Viagens e Saudades




Ando com saudades de mim. Quero me visitar, mas sem malas nem máquina fotográfica. Sem lembranças... Desejo partir, enquanto o dia ainda descansa nos braços da noite. Quero viajar! Perder-me no emaranhado das ruas de um país desconhecido e sentir-me anônima: suprema delícia de ser eu mesma. Encontrar-me!

Viajar para encontrar-me! Hoje, é tudo o que eu mais almejo. Passear pelas ruas dos meus sonhos livremente e olhar sem pudores e sem distanciamento para os meus desejos, assumindo-os.

Quero viajar para esquecer a geografia dos meus passos na pátria de intimidades da qual eu exilei o amor e, só assim, refugiar-me outra vez em seus braços. Cansei de vivê-lo, apenas por meio da escrita e da minha pontuação hesitante.

Por isso quero partir, enquanto ainda sinto saudades de mim... Saudades da minha fome de infinito e de acordar palavras que me façam caber em seus braços, pois, atualmente, tudo o que faço é pontuar as minhas letras com reticências, nas páginas de um amor não assumido.


domingo, 2 de setembro de 2012

Reminiscências – Parte Dois




Numa dessas coincidências da vida volto, no dia seguinte, ao supermercado e encontro, novamente, o meu professor de redação. Conversamos sobre assuntos corriqueiros e, em determinado momento, ele cobra-me o texto anterior, dizendo que o tema sobre o passado ficou incompleto. Faltaram parágrafos sobre o amor: suas dores, alegrias e intimidades. Exige confissões... Digo-lhe que a memória da paixão é frágil. Ele insiste. Eu resisto! Estou cansada de despir-me a cada palavra escrita. Mas, como não tenho alternativa esforço-me para cumprir a tarefa. Vou tirar, mais uma vez, a roupa dos pensamentos... Fazer strip-tease das minhas fantasias.

Houve uma época em que o amor costurava as minhas pautas. Eu alinhavava palavras de carinho e ternura e, com elas, bordava as páginas dos meus textos. Remanescente de uma geração que lutara por liberdade e igualdade acreditei que o passado era um tempo comum aos dois gêneros e que, juntos, poderíamos construir uma relação de amor, confiança e respeito nesse mundo contemporâneo. Ledo engano. A história evoluiu, o homem, não! Ele saiu da caverna, mas continua aparvalhado. Deseja as benesses da evolução para sua espécie, no entanto recusa-se a conceder os mesmos privilégios para a mulher.


Procuro nos arquivos da memória, onde cataloguei as lembranças e não encontro, professor, esse amor que me faça garimpar palavras para antecipar saudades. No terreno dos meus sonhos só houve amor de perdição. Não tenho alegrias e intimidades para festejar, pois desse sentimento só conheço as dores: traição, abandono e solidão. Recuso-me a inventar trajetórias por onde os meus pés não caminharam. Portanto, não me peça para refazer a redação e falar sobre um amor que eu não conheço. Conheço, sim, o amor no universo masculino. Uma terra sem lei e sem respeito.


Cresci no mundo dos homens – de tantas prerrogativas - mas não aceito os seus arreios, não comungo de suas ideias, nem pactuo com os seus privilégios... A não ser que possa usufruir dos mesmos direitos.


Quero para mim, também, o direito à infidelidade, à traição e à esbórnia sem o julgamento nem a condenação do mundo machista. Quero usar as mesmas armas e provocar as mesmas feridas. Quero contar vantagens, fazer piada do sofrimento alheio, enganar os tolos e beber à sua inocência e, ainda assim, não ser taxada de leviana, irresponsável, nem de adúltera. Quero tantas coisas, mas, principalmente, quero que o tempo corra justo, pois nessa luta inglória, onde masculino e feminino se digladiam em busca de direito, poder e reconhecimento, só quem perdeu foi o amor...


E, é por isso, professor, que a minha redação sobre reminiscências está incompleta. Faltou saudade para contar histórias.