Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sábado, 1 de dezembro de 2012

A Verdade na Palavra Escrita




Ele chega pisando forte e vai logo avisando:

- Hoje, é o último dia de aula do curso de redação.  O tema é livre, mas eu quero “sangue, suor e lágrimas”. Quero a verdade na palavra escrita!

Nesse momento, vira-se em minha direção, sorri e completa: - siga o fluxo de suas emoções e deixe que as palavras jorrem sem nenhuma censura.  Depois, olha discretamente para o meu caderno de anotações, como se lhe adivinhasse o conteúdo e deixa-me a sós. Preocupada, pergunto-me: será que ele viu a poesia, na qual eu ainda clamo por tua presença? Sem resposta e sem saída, começo a escrever.

Nos dias de ócio, quando a casa está adormecida e o silêncio arrasta-me para o quintal dos meus sonhos, eu fico ali quieta, no meio do redemoinho das minhas emoções. Arredia, recuso-me a seguir os passos de um sentimento que teima em derramar-se pelas pautas do meu caderno.  Tento fechar as cortinas do passado, enquanto luto bravamente contras às horas que passam lentamente, mas de nada adianta. Ele surge nas minhas lembranças como um cavaleiro intrépido, traz desassossego para a minha alma, desconstrói as certezas com as quais eu edifico os muros da minha indiferença e, ainda exige de mim, coragem e atitude.

Então, rendo-me às evidências e percebo que não sou proprietária do meu tempo, pois ele me espreita a toda hora, quando resolvo apagar os vestígios da tua passagem pela minha vida.  Já não luto mais! Deixo-me seduzir pelas recordações, retiro o verbo do passado e murmuro: ainda penso em ti! Em seguida, rabisco o teu nome nas folhas de papel em branco e deixo que o meu desejo crie a mais bela poesia de amor. Depois, com a casa ainda adormecida e as lembranças, agora, em voz alta, levanto-me devagar, olho-me no espelho e mapeio as rugas do rosto, enquanto lembro o tempo que passou.

Nessa hora, uma dor lancinante faz o meu coração pulsar mais forte, quando penso que tu fugiste dos meus olhos sem me dizer adeus. Revoltada, pego os meus versos de amor e os faço em pedacinhos. Destruo a minha verdade.

Porém, no dia seguinte, em sala de aula, quando vejo o mestre aproximar-se de mim exigindo que eu costure o texto com “sangue, suor e lágrimas”, sinto-me duplamente traída: por sua argúcia e por minha emoção.

Então, mais que depressa, guardo a poesia dentro do caderno de anotações e começo a escrever, sob o olhar atento do professor de redação.