Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

terça-feira, 5 de março de 2013

Um Retrato Fiel – A Outra



 


Um dia, estávamos em sala de aula à espera do professor de redação, quando chegou alguém da diretoria avisando-nos que ele faltara. Em seguida, apresentou-nos Auxiliadora, professora de português que ia substituí-lo a partir daquele dia. Bastou-nos um simples olhar para aquela doce criatura e soubemos que, dali por diante, estaríamos em boas mãos.

Passados os momentos iniciais ela, como forma de nos conhecer melhor, pediu-nos que fizéssemos uma redação, ou melhor, que pintássemos com as palavras um retrato fiel de quem éramos. Então, comecei a desenhar a mulher que eu nunca fui, mas que mora em mim desde sempre...

Sou tantas. Sou plural! Dentro de mim moram muitas mulheres... Duas, habitam em silêncio, aviltadas por aquela que escolhi não ser, mas essa - que escolhi não ser - vaga por aí – sempre presente - passando ao largo das convenções de uma sociedade machista e hipócrita, que ao substantivo masculino tudo aceita e justifica e, a ela cobra, ao final de cada mês, impostos e obrigações oriundos de sua cidadania, mas não lhe reconhece o direito de ser plural. Torpe contradição, como essa e tantas outras, fere-lhe os olhos e os ouvidos, diariamente.

Essa outra, dentro de mim, produtiva e insatisfeita, anseia por liberdade... Há uma “Madame Bovary” nas minhas noites insones, na sutileza dos passos que eu não dei e nas saudades - páginas em branco - do que eu nunca vivi... Um par de sapatos vermelhos ainda espera para sair do armário...

A base sobre a qual foi construído o alicerce de quem sou, hoje, não se sustenta, nem alimenta expectativa de que posso ser a mesma, amanhã. Sou plural, já disse e, em mim, moram muitas mulheres insatisfeitas, corroídas por regras e convenções, preceitos que mal se sustentam em pé e, que, na realidade, só fazem aprofundar a distância entre os gêneros e disseminar injustiças.

Já fui a santa, a mãe e tantas que se encaixam na verdade comezinha que escolhi para mim, nesse cotidiano sem grandes opções, mas a outra é quem sempre aponta na direção oposta e faz-me um convite irresistível para quebrar padrões destrutivos e amorais dessa sociedade hipócrita.

Por isso, Auxiliadora, se quer me conhecer melhor, eis aí o meu retrato fiel... Um compromisso escrito e pintado com as cores do meu desejo de ser quem sou... Plural! Pois, posso acordar santa e mãe, diariamente, mas é ela, a outra, quem dorme e acorda comigo todos os dias, pedindo espaço para ser quem é, e respeito para continuar sendo... Simples, assim... Plural!




Um comentário:

Dani Almeida disse...

Amei esse texto. Já estrou na lista dos meus favoritos. Super bem escrito. Eu daria 10, com louvor!