Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Tempos de Silêncio, Saudade e Solidão






Silêncio! Era só silêncio o que ele desejava... Interno! Perder-se na multidão, abrigando-se sob o teto das sombrinhas alheias. Quem sabe, assim, agasalhado pela imensidão de rostos anônimos, a dor e a saudade que sentia lhe dessem uma trégua...

Deixara a terra natal havia pouco tempo. As recordações ainda estavam frescas, reacendendo o perfume do seu chão tão batido de sonhos, que nunca se concretizavam.

O solo infértil, ressecado pela ausência de chuvas, lhe convidara a partir. Não eram tempos de safra e, sim, de silêncio e solidão. As lembranças, naquele momento, tinham o nome de saudade.

Saudades dos campos floridos e das boas colheitas a derramar-se num verde- esperança que cobria toda a planície do lugar onde morava. Saudades das chuvas que molhavam até a sua alma, quando ia em direção ao rio, num contentamento que se refletia no brilho dos seus olhos... Mas, agora, o tempo era outro: tempo de silêncio, saudade e solidão.

Gastara a juventude plantando confiança naquele chão que lhe fora deixado por herança paterna. Sabia ler, como poucos, as nuvens dos céus em seus dias de tempestades, como também as noites em seus bordados de estrelas. Na solidão das madrugadas preparava a terra e lançava as sementes, plantando esperanças de que no futuro próximo se transformassem em alimentos para a sua família. Mas, agora, tudo estava perdido e distante... A lavoura, a família e os sonhos. Justo, agora, no entardecer dos seus dias.

Por isso, resolveu partir, deixando para trás, a terra natal, a mulher, os filhos e os sonhos verdejantes. Ia em busca de um lugar, de respostas e de trabalho na terra dos arranha-céus, onde mostraria a sua face envergonhada por ter perdido a luta contra a seca.

Quem sabe, ali, naquele lugar, onde se planta concreto e chovem manifestações, lhe devolvessem a fé e a esperança de um dia poder voltar para a sua terra e para sua gente... Quem sabe ali, naquele lugar, os homens de boa vontade não soterrassem o lixo da corrupção e tomassem as providências cabíveis para que, em sua vida, não soprassem mais os ventos nem os tempos de silêncio, saudade e solidão.



PS: Essa é uma imagem premiada do repórter fotográfico Antônio David.

Um comentário:

lis disse...

Uma linda tela para um lindo texto .
Silêncio, saudade e solidão _ substantivos abstratos tão presentes nas nossas vidas!
também publiquei algo que remete a vida selvagem onde totalmente rodeada de pessoas,predomina-se o deserto.
Gosto muito do que fala e como fala.Obrigada,
Muitos abraços Juliêta e bons dias.