Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sábado, 3 de agosto de 2013

A Epifania de Um Instante




Abro a página do Word e uma tela em branco me desafia. Lá fora, as notícias sobre a visita do papa; os jovens em marcha redescobrindo a força da sua juventude e a chama dos seus ideais; o grito desesperado dos excluídos de todos os credos e uma variedade de assuntos pode, sem dúvida, preencher as páginas em branco desta tela. Mas, lá fora, a canção da chuva também desperta a minha emoção e tira-me o foco das manchetes dos jornais e revistas. Nela, eu me reencontro vendo a vida passar em câmara lenta, enquanto no meu coração desfila uma coleção de saudades. Então, nessa hora, lembro-me de uma frase que li:

- “A vida vivida não passa de tempo perdido...”, que eu ouso recuperar através das minhas lembranças, na tentativa de estancar o fluxo das horas e acalmar o meu coração em desalinho.

Ah, tempo, como sabes ser cruel! Um dia, quando eu mais precisar de ti, para revolver o meu passado e ordenar as minhas ideias, as palavras irão me distrair deixando um silêncio constrangedor ao meu redor... Silêncio e solidão!  Mas, enquanto o futuro não vem, eu faço a festa desse instante em que a chuva, lá fora, traz reminiscências de um passado ainda tão recente. Nesse momento, eu abro a minha coleção de saudades e penso: - a vida é uma eterna despedida. Estamos sempre desembarcando em algum porto, deixando pelo caminho, passos, sonhos, amores, esperanças e saudades. Preciso aproveitar melhor o instante, pois como disse o mestre Rubem Alves: “O sol que se põe é triste, orgasmo final de luzes e cores que se vão”. E, com ele, acenando-me com o vazio, se vão, também, os meus sonhos desbotados...

Por isso, agora, quando a canção da chuva toca lá fora e a minha memória parece um tecido esgarçado, tentando resgatar o tempo, eu vou à procura de um momento que tenha valido à pena, recolho os fios um a um e, com eles, teço as minhas palavras fazendo das minhas recordações uma colcha de retalhos para cobrir-me nas noites de inverno. Neles, nos fios, eu encontro vida através das lembranças que chegam devagarzinho...

Uma casinha no interior, um pequeno jardim e um quintal cheio de rosas... Tu e eu... A cozinha... A rosa...  A epifania de um instante preservado na memória pela a vida inteira. Saudades!

2 comentários:

Andréia Ramalho disse...

“O sol que se põe é triste, orgasmo final de luzes e cores que se vão”

AMEI o texto, conheci seu blog através de outros blogs amigos e já estou te seguindo! Muita coisa inspiradora por aqui. Parabéns!!

http://diariodabrunet.blogspot.com.br/

✿ chica disse...

Lindo,Julieta e preservar na memória momentos que nos fazem bem é o melhor possível, além de viver o presente. beijos,chica