Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Strip-Tease da Alma






Ontem, enquanto caminhava pela beira-mar resolvi: quero ser feliz! Preciso roubar do tempo dias ensolarados. Estou cansada de encarcerar a tristeza, para transformá-la em prosa diária, por isso resolvi abrir as grades que me aprisionam. Quero poder voar livre, leve e solta outra vez. Depois de anos de confinamento, alimentando expectativas alheias, desejo fazer strip-tease dessa alma cheia de roupagens e máscaras, que carrego há tanto tempo. Elas – as roupagens e máscaras - não me pertencem mais.

Conheço todos os caminhos que levam à solidão e tenho no meu corpo as marcas dos textos, que não foram escritos com ternura e com carinho. Quero, agora, entrar em cena com a cara limpa e receber os aplausos por expor a minha nudez com a coragem dos que, embora saibam fazer valer os seus direitos, optam por um caminho onde predominam o amor e o respeito.

No primeiro ato, direi a que vim: arquivei tantas dores e tantos desencantos, que resolvi não financiar a felicidade em módicas parcelas. Tenho pressa em ser feliz! E, quem quiser partilhar o seu dia a dia comigo, tem que já ter provado da fome e da sede de não se sentir amado e de querer fazer a vida valer à pena, daqui por diante. Tem de não gostar, principalmente, de jogos amorosos, de dissimulações, nem de brincar de esconde-esconde. Estou à procura de gente bem resolvida. Cansei de pessoas para quem o mundo é um eterno parque de diversões.

Em cena, para o segundo ato, tiro a máscara da hipocrisia e continuo expondo os frutos da minha liberdade: não prometo te seguir como um cão fiel. Tenho vontades e opiniões que contrariam a cartilha do teu desejo e não vou negociar a minha liberdade em troca de um par de algemas do mais puro ouro. Quero o direito de ir e vir, de sentir e não sentir, de gostar e não gostar. Quero o direito de ser singular, de ser quem sou sem precisar usar máscaras para te agradar. Dizem que no amor, assim como na guerra, vale tudo. Não sei qual é a extensão ou o significado desse "tudo", mas te digo que vou usá-lo, também, a meu favor...

Nesse que seria o último ato, eu faço strip-tease da minha alma e exponho as minhas entranhas, de maneira que não restem mais dúvidas a meu respeito.

Tenho, assim como tu, desejos e vontades não satisfeitas... A pluralidade me encanta! Olho para o lado e vejo alguém interessante. Penso em ti e não há como não fazer comparações. Vejo as marcas do tempo em teu corpo e sinto a solidão da tua alma viajante por universos que não me cabem. Eu, também, viajo de vez em quando... Conheço a tua fome e a tua sede, pois participo do mesmo banquete que te abastece. Elas, essa tua fome e essa tua sede, também são minhas. Vivo faminta e sedenta desde que aportei em tua vida, e posso ser e agir como tu a qualquer momento, no entanto, escolho ser eu...

Eu, nua e crua! Inteiramente liberta. Livre para voar! Carteira de identidade em uma mão e direitos assegurados na outra, mas optando por fazer strip- tease da minha alma, somente para te provar que posso ser feliz longe de ti e desse teu mundo faz de conta.

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