Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

terça-feira, 2 de abril de 2013

Uma Carta de Despedida






Há quem diga que escrever cartas de amor é brega, mas quem se importa? Hoje, tudo o que eu quero é apagar esse adeus do olhar, dar rédeas à saudade e a essa mania de falar de amor quando a canção da chuva toca, de leve, na janela do meu quarto anunciando que a próxima estação está chegando. Porém, essa é uma carta de despedida.

Uma carta de amor escrita, agora, é para te dizer que o meu corpo reclamou a tua ausência e que a lingerie macia cansou de esperar pelo toque das tuas mãos. É o amor se despedindo por falta de esperança! Por isso, nesse momento, os meus dedos deslizam sobre o teclado falando das coisas que eu não vivi e dos amores tardios.

Na memória do tempo eu escrevi a anatomia do meu amor, as delicadezas do coração e as inesperadas doçuras que me assaltavam quando eu esperava, ansiosamente, tu surgires na esquina da minha rua. Tudo parece dormir, ainda, para prolongar a juventude dos meus sonhos, entretanto, perplexa, vejo que envelhecemos: tu e eu.

Envelhecemos: tu e eu, mas ainda é amor o que eu sinto.

A menina-mulher para quem, um dia, tu te enfeitaste, permanece aqui do lado esquerdo do peito. Coração não fica velho. Adoece! E a menina em flor, que desenhava o teu nome, nos muros, a giz, ainda está aqui: lembra-te de mim?

Envelhecemos tu e eu, mas ainda é doce e terno o que eu sinto, embora o tempo de lavrar a terra dos meus sonhos tenha acabado e o amor, hoje, seja só fonte de murmúrios, de cicatrizes e de poucas saudades...

Há uma dor plangente em cada palavra que escrevo por todos os momentos de ternura, de carinho e de desejo, que foram abortados na varanda da casa solidão, onde tu me deixaste. Mas, ainda é amor o que eu sinto. Amor de saudades! Saudades não vividas... E, agora? Onde encaixo o meu desejo e a minha ternura? Está tudo aqui, ainda, esperando pelo toque das tuas mãos e pelo encontro do teu olhar.

Envelhecemos: tu e eu. Mas, o amor, não! Ele não quer se despedir. Vive rodopiando em fantasias tentando garimpar alguma lembrança de nós dois que valha à pena, mas só encontra o desconforto do teu silêncio. Um lugar para aonde tu te evadiste por medo de sofrer... Envelhecemos, nesse espaço entre a tua indecisão e o teu desejo de ser feliz.

Por isso, hoje, essa carta. Só para te lembrar que envelhecemos: tu e eu. O tempo não esperou por nós, não carimbou os nossos sonhos com o selo da eternidade e, agora, estou aqui só para me despedir. O amor permanece, mas eu vou embora. Já falei demais das minhas dores e dos meus sangramentos. Algo me diz: Vá! É hora de partir. E, eu vou. Adeus!


OBS: Imagem - http://www.facebook.com/sanatvar