Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

domingo, 15 de setembro de 2013

O Par Perfeito


Amar é não caber em si... É dar espaço para o outro e, juntos, habitarem o mesmo lugar.



A solidão não escolhida vai causar espanto, tristeza e dor quando nos dermos conta de que o amor não é um jogo, uma brincadeira ou um faz de conta para nos distrair das mazelas do cotidiano. Ele é uma fatura que se paga diariamente e pouco importa se o produto está desgastado, impróprio para o uso ou fora da validade. O amor deve ser cego e surdo aos apelos mundanos, que são muitos, mas que passam, assim como as nuvens em dias de céu azul.

Ela andava a procura do par perfeito, ele idealizava a mulher ideal: linda, boa aparência, saudável, bem-sucedida, independente e disposta a fazer concessões. Ela, idem! Mas, após vários encontros e desencontros, ambos estão sozinhos. Por que será que isso aconteceu?

A meu ver estamos todos reféns do medo de ser felizes, porque amar dá trabalho, requer envolvimento, renúncia e, sobretudo, distanciamento do mundo de fantasias que criamos, quando decidimos procurar o homem ou a mulher ideal.

Não existe o par perfeito! Não existe entrega de amor sob encomenda em domicílio. Temos que fazer por merecê-lo...

Quando idealizamos a pessoa baseado apenas na aparência e de acordo com o grau de nossa exigência – sempre carregada de expectativas - esquecemos que o tempo corre célere e que as pessoas mudam com o tempo. O belo fica feio, o corpo sarado vira um bagulho, os cabelos ficam ralos, o andar vacilante e nada mais restará, no futuro, daquela beleza estonteante que um dia nos conquistou. Com o passar do tempo, tudo o que nós mais queremos é alguém que nos ouça e que enxergue em nós algo mais que um corpo e um rosto bonitos. E, esse algo mais é o que nós temos de melhor para oferecer. É o amor genuíno, sem interesses mesquinhos e sem narcisismos, pois ao longo dos anos já nos fartamos de nós mesmos e de viver em farras e festas, que em nada nos acrescentam. Também, não precisamos mais de um milhão de amigos na nossa agenda, que, na maioria das vezes, não estão disponíveis para nos consolar, quando deles precisamos...

Nesse meio-tempo, agiganta-se em nós o desejo de fazer a vida diferente e, ao voltarmos os olhos para o passado, veremos o quanto de nós ficou perdido lá atrás, por conta de escolhas impensadas e insensatas. Nessa hora, podemos ver que ao escolhermos o par ideal estávamos, na realidade, procurando por uma cópia de nós mesmos e que o certo, naquela época, seria esvaziar-se de si, para poder receber o outro com amor, tolerância, compreensão e, sempre, de mãos dadas, porque a solidão um dia chega e chega para todo mundo, principalmente, para aqueles que basearam as suas escolhas, apenas em padrões de beleza ou coisas de somenos importância.

Portanto, se você procura alguém para se relacionar, lembre-se primeiro de olhar-se no espelho e descubra o que não está lhe agradando - às vezes, precisamos mudar a alma - pois buscar o outro como muleta não é a solução, tampouco exigir aquilo que ele não pode dar. O par perfeito só existe em contos de fada e as pessoas precisam ser amadas por inteiro, com seus erros e acertos, defeitos e imperfeições, delicadeza e ternura, porque tudo isso faz parte de sua singularidade. Ama-se o outro pelos seus grandes feitos e também pelos seus desacertos, que é parte integrante de sua humanidade.

Por isso, ao olhar para o outro procure enxergar a sua alma e lembre-se, principalmente, de que gente não é carne de açougue nem manequim de loja para ser exibido pelo mundo afora... O par perfeito só existe quando o verdadeiro amor está presente e dá espaço para que o outro apareça.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Dois Caminhos - Uma Escolha




Ainda, estou aqui.


É domingo! Acabei de almoçar. Pego a estrada e vou para o meu apartamento. Refúgio do barulho externo e um lugar para pensar em nós dois...

Muda a paisagem, muda o olhar, mas a tua lembrança me acompanha... Sempre! Da janela do meu quarto ouço o barulho das ondas e vejo o sorriso do mar em suas franjas de espuma. Penso em ti.

* "Há quem se alimente da efervescência da metrópole, onde jamais se sente só. Outros se refazem na quietude das montanhas, no vagar do campo, no frescor da beira-mar". Essa sou eu! No frescor da beira-mar eu me encontro e te encontro. Somos só nós dois e a minha alma se alegra com as memórias desse lugar.

Nessa hora, cartas na gaveta e retratos na parede doem. Eu não funciono na velocidade da banda larga. Passo ao largo da modernidade... Ainda, doem em mim as amarras do passado... No meu corpo, o teu cheiro acorda lembranças. Sou olhos, ouvidos e boca em permanente diálogo... Tu continuas vivo em mim feito uma tatuagem, que eu não desejo apagar. A lembrança do nosso amor pacifica os meus dias e eu festejo, sem economia de palavras, a memória do que ficou. Pouco importa onde e com quem estejamos hoje. A morte me ensinou o valor do tempo, por isso eu celebro sempre os dias que passamos juntos. Um rastro de luz, um cheiro, um perfume, uma música são suficientes para eu mergulhar, com abandono, nas recordações de nós dois e roubar do tempo momentos para a eternidade.

Por isso e só por isso, eu transformei o meu coração numa sala de espera. Ainda, estou aqui!


Estou fora!


A minha alma festeja cartas e fotografias amareladas pelo tempo, que já não doem... Amei, amei demais! Consumi dias e noites a tua espera. Mas, acabou. Foi um longo processo, pois não acredito em amor que se esvai como fumaça. Amor, que é amor dura pelo menos quatro estações. O meu quase fez bodas de ouro, embora nesse meio tempo eu tenha sucumbido a outros afetos... Essa foi a minha redenção! Permitir que alguém lavasse as minhas feridas e perfumasse o meu corpo com a delicadeza do seu amor.

Alguns dirão: - tanto tempo perdido!? E, eu respondo:

- Não, eu não perdi tempo. Eu mudei a narrativa dos meus sonhos e incluí novos personagens, mas o meu desejo de ser feliz permaneceu igual. Essa foi a minha salvação! Olhar para o outro e permitir que ele visitasse a minha alma e perfumasse o meu corpo, enquanto desfilavas a tua vaidade colecionando memórias inúteis e lixos emocionais.

Por isso, hoje, tu és apenas uma nota dissonante nas páginas viradas da minha vida. Revisito o passado vez em quando só para me lembrar daquilo que não desejo mais, pois como disse Carpinejar: sexo sem amor é ginástica... Estou fora!

* Trecho extraído da revista Bons Fluidos. Ed. 173. Agosto/2013
 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Toda Tua











Passeio sem pudores pelos meus sonhos e toco com delicadeza na tua dor só para te dizer que ainda estou aqui... Uma parte de mim te pertence para sempre e a outra é uma reserva imaginária daquilo que penso que juntos poderíamos ser.

Sempre que escuto os sussurros da minha alma, um mergulho no tempo das boas recordações te traz de volta e eu digo baixinho: ainda te amo, mas não tenho respostas para tua ansiedade... Eu só sei que é muito bom te saber por perto, embora faltem palavras para definir o que somos, hoje, um para o outro. Eu só sei, também, que num canto escondido pelos cercados da memória guardei a lembrança do nosso último bolero... Uma dança de corpos nus e almas revestidas do mais puro amor.

Então, agora, nesse exato momento em que eu passeio sem pudores pelos meus sonhos e que tudo o que tenho é uma parte de mim que é inventada e a outra, que é só saudades, eu respondo a tua pergunta: ainda sou toda tua!



domingo, 1 de setembro de 2013

O Dono do Tempo












Ele passa por mim, às vezes, como um vento manso acariciando o meu rosto, trazendo do quintal da minha infância lembranças que me são caras; outras, como uma tempestade, colocando a minha alma em polvorosa por não saber como detê-lo...

Ah, o tempo! Hoje, ele passeia pelas minhas memórias como um rio caudaloso. Memória, um lugar onde eu recolho lembranças de quem fui e do que me tornei ao seguir em bandos por caminhos que não eram meus.

A princípio, tudo o que eu mais queria era amor, carinho e um cantinho para botar os meus livros, meus discos e nada mais. Mas aí veio o progresso e a vida passou a fazer exigências, que me colocaram cada vez mais distante dos meus sonhos de menino... No quintal da minha infância a vida era tão simples e os afetos tão verdadeiros. Nele, eu costumava ouvir as batidas do meu coração, que era a minha bússola quando a vida me convidava a navegar por outros mares. Porém, o tempo passou e a modernidade tangeu, pôs em fuga as minhas fantasias de menino e, hoje, tudo o que eu escuto é o som do teclado de um computador no silêncio da noite.

Do quintal, do amor, do carinho, dos livros e discos só restam lembranças que se perdem na azáfama diária. Hoje, eu tenho pressa, pois o tempo urge! Preciso colocar a minha vida na mídia para que ela faça sentido. O que eu como, o que visto, aonde vou e com quem me relaciono, tudo isso me resume... E a minha alma segue faminta, apartada das coisas que verdadeiramente importam. Olho e vejo que já não há vida ao meu redor. Tudo o que vivo, hoje, é "teclavel".

Entro na minha casa e a sala de jantar está vazia. O sorriso, a viagem e o prato estão expostos no facebook, no instagram ou no twitter, entretanto a comida esfria e os olhos e ouvidos que antes estavam atentos, agora, se escondem para não incomodar a quem vive com tanta pressa e a quem colocou tantas cercas ao seu redor.

Então, eu penso: ah, como eu queria ser o dono do tempo e voltar ao quintal da minha infância! Deixaria essa solidão viajante pelas teclas do computador e olharia mais nos olhos de quem amo, antes que seja tarde demais...