Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Uma Carta para Manuela










Querida Manu,


Ao olhar para as imagens “Folhas do Outono e Voo” captadas pela poesia do teu olhar, fico em dúvida sobre qual das duas escolher para ilustrar este texto que começa a se esboçar em minha mente. Então, começo a escrever na esperança de que as minhas palavras façam sentido e que não borrem a beleza da tua fotografia.

Nas folhas do outono espalhadas pelo chão do esquecimento eu vejo escritas as páginas da vida, o tempo passado e a beleza enrugada de uma época que não volta mais. A cor das folhas lembra-me que a ferrugem carcomeu a caixa do correio, enterrando de vez a alegria e a esperança e, que a poeira do abandono cobriu dias, meses e anos deixando para trás uma saudade doída de um período feliz que passou. Olho novamente para as folhas, como quem procura tinta para continuar desenhando os seus sonhos, mas percebo que parte de mim já não se encontra mais ali. Tudo o que me sobrou desta fase são lembranças de gaveta que já nem abrem mais.

Então, pego carona no voo da gaivota e peço a Deus, em oração, que em 2015 me dê uma tela em branco para que eu possa pintar as minhas fantasias com cores mais vibrantes. Não vou mais pedir, ao dicionário, palavras emprestadas que me levem aos recantos da memória e que me tragam de volta à vida que perdi... O que passou, passou! Quero tudo novo... De novo! Cansei de amores requentados e de palavras vazias.

A escritora e jornalista Eliane Brum disse, em uma de suas entrevistas, que as pessoas morrem por que a gente silencia. É verdade! Embora, no meu caso, eu tenha sobrevivido... Por isso, quero a tela em branco. Nela, vou desenhar a vida e usar o despudor das palavras para escancarar o meu desejo, numa linguagem clara e inequívoca. Vou pintar a minha felicidade e acabar de vez com esse passado bolorento que me manteve presa nos vãos do tempo e nas molduras das fotografias. Cansei das pausas e dos silêncios... E, de romantizar o amor!

Hoje, o que mais desejo é pegar carona no voo desta gaivota e em suas asas me perder pelo chão do infinito, pois durante anos não fiz outra coisa senão fixar morada em terreno pétreo, acalentando um amor do passado e dando colo a saudades oriundas de uma solidão escolhida.

Quero, a partir de agora, amar despudoradamente e desmontar essa autossuficiência que me deixou imune ao carinho e ao vendaval das paixões. Quero dissecar a anatomia desse sentimento blindado que eu guardei por tantos anos e oferecê-lo a quem tenha a coragem de assumir que ele será eterno, apenas, enquanto dure... Assim é o amor em tempos modernos. Estou livre!

Dessa forma, querida amiga, eu termino esta carta te agradecendo o motivo da inspiração. Que a doce poesia do teu olhar capte, sempre, o melhor da vida e da paisagem. Obrigada!



PS: Crédito de Imagem: http://existeumolhar.blogs.sapo.pt/



sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A Casa Rosada











"Querência", segundo o Houaiss, “é o lugar onde o animal foi criado ou onde se acostumou a pastar, e para o qual volta, por instinto, se dali for afastado”.

Quando dei por mim, lá estava eu em frente à casa rosada. Movida por uma grande emoção parei o carro, desci e fui saquear as minhas recordações, numa tentativa de resgatar o passado. Ledo engano! A minha memória estava se diluindo e tudo o que consegui lembrar foi: - perdi tanta coisa aqui, pois o tempo soube passar e eu, não. Parei numa rua chamada saudade e deixei a minha alma morrer de inanição.

Olhei em volta e segui caminhando pela calçada. Alguns passos adiante vi a praça e as copas das árvores, que tantas vezes nos abrigou das chuvas de verão. Sentei-me no banco e me deixei levar pelas lembranças, juntando os cacos da memória para, dessa forma, trazer para o presente, cenas congeladas em pausas de fotografias, que eu guardei no fundo de uma gaveta. No entanto, me dei conta de que já não conseguia mais lembrar do teu jeito de sorrir, dos teus olhos e da tua voz... Do teu rosto! Tantos anos haviam se passado. Tudo estava envolto nas brumas do esquecimento.

Então, eu comecei a te inventar a partir das imagens que tatuei na minha alma. Elas permaneceram ali desafiando o tempo e o desbotamento do nosso amor. Naquela hora, as reminiscências apropriaram-se dos anos sessenta e fizeram-me reviver, trazendo todo o passado à tona, provando que não adianta matá-lo com o silêncio do fundo de uma gaveta, pois qualquer ruído traz ele de volta... Sempre!

Naquele momento, como num jogo de encaixe eu fui esvaziando a minha memória e colocando as peças das minhas recordações uma a uma e, com elas, fiz a moldura da casa rosada, da praça, de nós dois e de um tempo feliz que passou... Depois disso, me perguntei: - a casa rosada, a praça e eu é uma história de amor com contornos de eternidade ou uma felicidade clandestina a desafiar o tempo e o verde esperança dos meus sonhos sem-teto? Sem respostas prontas e sem certezas terminei a caminhada, pensando: - "querência" é um cheiro de saudade a perfumar as ruas dentro de mim. Saudade! Nada mais que saudade.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

O Arquiteto de Ilusões















Ele gostava de fazer amor com as palavras... As letras formavam lindos arabescos nas folhas de papel em branco e iam desenhando, aos poucos, um castelo de ilusões. Era um excelente arquiteto na arte da fantasia e dos sonhos, pois bordava as frases com destreza e mestria, porém, não tinha o menor compromisso com a verdade. De longe, ela o imaginava uma joia rara, mas, de perto, constatou que ele era, apenas... Ouro de tolo!


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A Palavra, o Olhar e o Gesto











De todas as formas de comunicação a palavra talvez seja a mais traiçoeira, pois nem sempre expressa os verdadeiros anseios da nossa alma. Na linguagem oral, na escrita e na dos gestos ela tanto pode unir, seduzir e encantar, quanto dissimular, mentir e enganar provocando, assim, a quebra de confiança,  acarretando a perda de amores e de outros afetos. Mas, quando bem articulada e usada com honestidade e transparência, ela também pode nos salvar de nós mesmos: dos nossos medos e das nossas inseguranças.

Às vezes, bem sei que não é fácil usá-la com clareza, por que isto significa que temos que depor as nossas armas e ficarmos nus e indefesos diante do outro, porém, quando abrimos mão das máscaras e das roupas do personagem que usamos no dia a dia, em benefício de uma relação em que há amor, carinho, respeito e cumplicidade nós só temos a ganhar, porque damos ao outro a oportunidade de nos conhecer verdadeiramente e, como conseqüência, nos amar mais e melhor.

Ontem, faltou a palavra honesta, límpida e transparente. Faltou confiança. Confissão... Verdade. Procurei nos seus olhos um pedido de socorro... Fica! E, só encontrei o deserto do seu silêncio, da sua solidão e do seu medo diante do inevitável. Estendi a mão e o gesto ficou suspenso no ar. Então, não me restou alternativa a não ser dizer: não me procure mais. Adeus!



Imagem retirada do Facebook de Lis Costa. Um amiga que tem poesia no olhar.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Carta de Confissão












Uma nova carta está se desenhando, hoje, na alfaiataria de papel. As letras parecem pular saltitantes e felizes por que, enfim, deixam de lado o terreno das metáforas e das entrelinhas e assumem o comando semântico do vocabulário do amor.

Sem pudores e sem firulas eu confesso que amar não redimiu os meus erros, mas colocou à prova a minha capacidade de ser resiliente. Continuo a mesma menina impulsiva, apaixonada, esperançosa e entregue. Nada em mim mudou! Sou como uma rocha: estou sempre no mesmo lugar. Sou cais que acolhe e porto seguro para quem deseja desembarcar em terra firme... Ainda, hoje, beirando os sessenta e cinco anos de idade, olho-me no espelho e sinto um orgulho danado da paixão e do ardor com que se movem os meus dias. Vivo em estado de alegria e de esperança. Sou forte e aguerrida... Inteira! A cada decepção junto os meus cacos e me reconstruo em mosaico. Pedaços de mim lembram-me onde fui ferida e por quem, mas a plasticidade me ensina a lição da resiliência.

Então, eu reedifico o meu altar e rezo missa em minha homenagem. Tenho pena de quem me perdeu! E, antes que alguém me acuse de narcisista, eu informo: trabalhei durante muitos anos na construção do meu eu e aprendi a gostar muito da pessoa que me tornei, no entanto, não sou parâmetro, nem sirvo de referência para ninguém. Sou demasiadamente humana!

Houve um tempo em que gostar causava-me profundo sofrimento. Tinha o corpo em carne viva e o coração lesionado por causa disso, pois amar era uma parte da minha alegria e a outra era contar os dias para encurtar distâncias, porque alguém estava sempre de partida! E, eu, menina em flor, desejava o renascimento no seu corpo... Levava horas desenhando as letras do alfabeto com confissões de um amor rasgado, assumido. Eram páginas e mais páginas encharcadas do mais puro sentimento. Sentia saudades e, por isso, usava e abusava da semântica. As palavras tinham força e significado. Amar era verbo conjugado no passado, no presente e no futuro. Eternamente! Mas, foi tudo em vão...

Porém, hoje, mesmo depois de uma longa espera e de vários cacos espalhados pelo caminho, as letras continuam pulando felizes e saltitantes, bordando esperanças na folha de papel em branco. É que eu ainda vivo como um pássaro em voo, procurando sempre por certezas geográficas, para pousar e entregar o meu imenso amor a quem fizer por merecê-lo... Sou resiliente! E, além do mais, confesso: continuo com pena de quem me perdeu!

domingo, 28 de setembro de 2014

Ao Poeta P.G

A princípio, no terreno das possibilidades, tudo o que eles buscavam era o amor, a poesia e uma cabana. Uma metáfora perfeita para justificar a felicidade e o desejo de caminharem juntos pelas sendas da vida.

Ela, uma escrevinhadora que gostava de brincar com as palavras. Ele, um nordestino acostumado à seca e ao cabo da enxada... Um retirante, um exilado da sua terra natal, que durante certo tempo procurou arar o solo infértil do sertão, à custa de muito suor e lágrimas, mas sem desviar os olhos do céu e das estrelas.

Um encontro improvável era o que se desenhava entre os mundos das letras e dos cabos das enxadas, pois ela sabia da força, do caráter e da tenacidade daquele homem. Ele saíra do nordeste, mas o nordeste nunca sairia de dentro dele. Carregaria por toda a vida uma saudade moldada por perdas e tristezas. Uma carta de condenação da qual ele jamais desejaria a alforria... Tinha um orgulho danado de ser nordestino! E, de tudo o que essa expressão carregava de significados...

O que ela não sabia, entretanto, é que ao olhar, lá atrás, com os pés ainda plantados no solo infértil do sertão, para o telhado da noite, ele já vislumbrava um porvir risonho. Sua conversa era um solilóquio e, entre um arado e outro, catava letras, juntava palavras e tecia sonhos. Nascia, assim, um poeta de mãos calejadas, que ia aprender no correr dos anos a despir-se em prosa e em versos. Nascia, também, naquela hora, o desejo de ser amado... Um amor faminto, urgente, latejante que viesse resgatá-lo, no futuro, das madrugadas de tédio, solidão, insônia e saudades.

Então, eis que, um dia, eles se conheceram por meio das letras. Um encontro na fase crepuscular das suas vidas. Ela, brincando com as palavras e vestida de esperança. Ele, de poeta... Um menino. Puro. Entregue... Nordestino.

domingo, 14 de setembro de 2014

O Crepúsculo








Rubem Alves, em seu livro "Ostra Feliz Não Faz Pérola", nos ensina:

- "No crepúsculo, tomamos consciência da rapidez do tempo". Diz, também: - "Quem sabe que está vivendo a despedida olha para a vida com olhos mais ternos".

Penso que além de olharmos para o futuro com olhos mais ternos, também pedimos emprestado à vida linha e agulha, para recriar o bordado da nossa existência e, assim, poder limar a alma para que os últimos anos não nos pese tanto.

No crepúsculo, aprendemos a costurar as palavras com a linha do amor e as cores da tolerância, da paciência, da compaixão e da solidariedade. Alargamos o mundo de dentro e, dessa forma, damos abrigo a imensa tapeçaria de afetos, que vamos tecendo no decorrer dos dias que passam com rapidez, mas, agora, suavemente.

É só no ocaso da vida que deixamos de lado as certezas de pedra e o olhar cimentado construídos a respeito das pessoas. Nessa época, nos damos conta de que pequenas mágoas e velhos rancores só contribuíram para deixar os nossos dias mais pobres, esquecidos e sem afeto. São tempos de amargar tristezas e solidão.

Por isso, seguindo o conselho do grande mestre e escritor Rubem Alves, eu digo: - Vamos tomar consciência da finitude do tempo, pois esse é o melhor caminho para uma vida mais saudável e feliz. Não nos esqueçamos que orgulho, vaidade, mágoas e rancores descansam na mesma lápide que dá abrigo, também, aos nossos desafetos. Somos todos pó.

sábado, 6 de setembro de 2014

Sem Mapa... Sem GPS













O silêncio da folha de papel em branco é um terreno vasto pedindo que eu me descubra em letras. Inútil querer povoá-lo com a rapidez das palavras que chegam, pois dentro de mim há desertos... Zonas de silêncio que se comunicam e desenham a arquitetura das frases que eu não escrevo. E, que me definem.

As palavras amordaçadas sou eu... Eu, sempre em trânsito! Longe de mim.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

E Por Falar em Saudade...









Olho para trás e vejo o passado se esvaindo. É um olhar para um tempo suspenso, que ficou gravado apenas na pausa de uma fotografia. Uma imagem congelada de uma época que nunca foi saudade, pois não havia alguém a quem esperar. É que eu guardei dentro de mim, durante muitos anos, um amor que sempre me foi alheio.

E, agora, eu olho para as horas que passam e me pergunto: e por falar em saudade, onde anda você? Você que, hoje, é presente e presença viva de um tempo que urge e aperta o cerco dos dias que me restam, lembrando-me que a felicidade desce a ladeira da memória, quando a deixamos suspensa no varal dos devaneios.

Por isso, preciso registrar a mudança. Então, escrevo. Escrevo, nesse momento, a primeira página de uma história sem passado. É vida que segue. É tempo presente... É urgência em ser feliz! Agora, vivo pastoreando as horas e contando os minutos que faltam, para eu criar raízes aéreas e desembarcar na geografia do teu corpo.



E, por falar em saudade, onde anda você?

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Mil Dúvidas














Motivada pelas tentações da vida mundana, eu coloquei a menina sonhadora que sempre fui para dormir. Acomodei os sonhos românticos na gaveta da minha alma e tentei me adaptar aos tempos modernos. Hoje, uma nova mulher aflora dentro de mim... Ela, apesar de decidida e capaz de ir à busca dos seus desejos, ao se deparar com tantas tentações percebe, entretanto, que a vida segue sem muita graça e nenhum encanto... É que, em meio a toda essa sedução, algumas perguntas surgem em sua cabeça:

- O que fazer se o amor me pegar de assalto? E se o desejo se apossar do meu corpo como se fosse a minha primeira vez? E, continua se perguntando:

- Como conciliar o contraditório se, dentro mim, ainda hoje, caminham juntas a mulher moderna e a menina sonhadora? A qual das duas devo dar asas? Como dizer ao homem amado que aqui, no peito, tem um coração de menina ansioso por cartas, ternuras e declarações de amor, mas há, também, um corpo de mulher que arde, sedento e faminto, pelo toque das suas mãos? Como fazê-lo entender que nos meus sonhos o amor vai bordando delicadezas, que não se encaixam nesses tempos voláteis e de tão poucos sentimentos?

- Não sei! Mil e uma dúvidas. E, por isso essas perguntas.

sábado, 19 de julho de 2014

Direção Oposta














Ando na contramão do tempo, pedindo aos céus um pouco mais de dias e de insensatez, para desfazer as amarras que me prendem ao passado. Quero dar carta de alforria à louca que habita em mim e para qual eu nunca dei ouvidos, nem importância. Talvez ela seja, hoje, a minha versão mais completa, por isso quero beber toda a liberdade que eu sufoquei no corpo e na garganta, por anos a fio. Quero estrear na vida uma vida que eu nunca vivi... Cansei de encarcerar desejos e adiar sonhos. “Liberdade, liberdade abre as asas sobre mim.” Não quero mais pontuar as minhas palavras, com a hesitação dos meus medos. Cansei! Quero ver nascer outra pessoa em mim, enquanto há tempo... Às favas, com a escassez dos dias que me restam!

Ando na contramão do tempo, querendo aposentar essa senhorinha circunspecta a quem eu sempre dei abrigo, desde a mais tenra idade. Quero, agora, acordar livre, leve e solta para sair por aí empunhando a bandeira da liberdade e, para isso, desde já, vou tornar manifesto a cartilha dos meus desejos mais secretos:

- Vou fechar o meu coração para balanço e embriagar-me de vida, deixando que o prazer entre por todos os meus poros, inundando-me dessa coisa boa a que as pessoas dão o nome de paixão, embora que efêmera... Afinal de contas, amar é só um verbo... E, conjuga-se melhor no passado. Quero, sim, daqui por diante, sorver os dias que me restam em um só gole e deixar para trás aquela que sempre fui e não quero ser... Nunca mais!



“Liberdade, liberdade abre as asas sobre mim”, porque amar... Dói!


Imagem: Neli Araújo (Facebook)

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Um Tempo de Delicadeza














Hoje, amanheci querendo um tempo de delicadeza para minha alma cansada de tanto olhar indiferente e de tantas "certezas de pedra"... A morte, essa visita indesejável, a quem todos nós, um dia, vamos ter que abrir as portas, está fazendo cerca ao meu redor...

De repente, tudo perdeu o sentido: a pressa, a ansiedade, o orgulho, a vaidade, a mágoa e todos os sentimentos mesquinhos que carregamos, inutilmente, pela vida afora. Um olhar para trás e quanta tristeza! Quanto arrependimento! Quanta dor poderia ter sido evitada!? Mas, não! Nós, homo-sapiens, achamos que temos poder e controle sobre a vida e a morte. Pobres mortais! Quando nos damos conta lá se vão os dias, os bens, a fortuna e tudo o mais com que preenchemos o vazio das nossas vidas, achando que isso é felicidade.

Hoje, amanheci querendo um tempo de delicadeza. Quero olhar nos olhos dos meus filhos, do meu marido, do meu companheiro, dos meus irmãos, dos meus amigos, dos meus parentes, dos meus vizinhos e até daqueles que não gostam de mim e pedir-lhes um pouco mais de alma... Há tanta solidão ambulante precisando de ternura, de um sorriso e de uma mão amiga. Quantas vidas poderiam ser salvas se, ao invés de recolhermos, nós estendêssemos às mãos e emprestássemos os nossos ouvidos, para a escuta silenciosa das dores do outro. Quantas pessoas não estão, nesse momento, sozinhas nos leitos dos hospitais, nos asilos ou em suas próprias casas, precisando de um olhar compassivo e de um pouco de atenção. Amanhã, poderá ser tarde demais!

Por isso, é que hoje e, só por hoje, eu peço a vocês esse tempo de delicadeza. É que andei desarrumando as gavetas da minha memória e vi a inutilidade dos dias que desperdicei... Pois, como disse ILSE, um dia: “quando enfim, eu tive tempo, descobri que o meu tempo tinha acabado".


PS: Este texto é uma homenagem a Eugênio Pacelli, para quem todos os dias: é tempo de delicadeza.

domingo, 6 de julho de 2014

Tempos de Gaveta









Ando desarrumando gavetas e navegando por memórias antigas... Quero ter um encontro comigo, no passado, para ver o que mudou em mim. Alguém me disse: - você não tem mais vinte anos! E eu retruquei: - a minha pele e o meu corpo, não! Mas a minha alma desconhece os números e, sendo assim, não sente o girar dos ponteiros do relógio, tampouco o passar dos anos. Quando fecho os olhos e acesso o passado, tenho plena consciência de que parte de mim não mora mais ali, pois está preso a essa cadeira, enquanto escrevo, mas os sonhos, os desejos, as fantasias e os devaneios, estes, estão sendo tecidos pelas asas da minha imaginação e podem navegar em qualquer tempo. Por isso, não tenho idade... Tenho sonhos!

O meu corpo físico se ressente da passagem dos números, sim, senhor! Já não há agilidade para tantas estripulias, entretanto, se já não posso subir em árvores, nem escalar o Monte do Everest, posso sim, expandir a minha alma e resignificar a minha vida. E, para isso, eu preciso apenas de uma consciência ativa e uma mente aberta, porque, até onde eu sei, pele, carne e ossos não pensam...

Ando navegando por memórias antigas. Quero retirar desse tempo de gavetas, o que me resta de sonhos e torná-los reais, antes que a velocidade da banda larga me convença de que eu já fui... Não sou mais! Estou farta dessa época que desconhece delicadezas, imprime rótulos e engessa pessoas tirando-lhes o bem mais precioso que é o sonho, só porque convencionou-se que a juventude é detentora de um lugar no pódio da vida, a que os velhos não têm direitos. Estou farta, também, de ver a petulância dos jovens diante das pessoas de mais idade, como se elas fossem inaptas, assexuadas e descartáveis...

- Quem disse que só porque eu não tenho mais vinte anos devo escrever o capítulo final da minha história e abrir mão dos prazeres da vida, se a lucidez ainda me acompanha e a minha alma é um repositório de sonhos e desejos?

“Pensar é transgredir”, disse Lya Luft. Por isso, hoje, ao navegar pelas minhas memórias eu penso: tenho vinte anos sim, senhor, senão no corpo, mas na alma. E, segundo eu sei, é ela quem ama, deseja e faz a vida acontecer.


terça-feira, 1 de julho de 2014

Quimeras








Há muitas mulheres dentro de mim e, entre tantas, hoje, uma delas vem me visitar... A dama da noite, atrevida e cheia de quereres, pede licença e arde em sonhos... Se despe de pudores !

Uma volta no salão das suas quimeras e o tango argentino de Astor Piazzolla lhe convida a dançar. Rodopiando, ela se deixa conduzir pelo fogo da paixão e sem reservas se entrega: sou tua!

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Eu Quero Ser Feliz!












Têm dias que a vida fica mais urgente... Uma saudade aqui, um poema atrevido ali e a dor sai da casa da palavra, para indicar mudança. É a nossa alma cavando todo o passado a unhas, para que uma nova semente possa germinar... O fluxo da vida se impõe!

De repente, nos damos conta de que já não precisamos de tantas marcas e de tanto sofrimento... Nessas horas, as feridas deixam de doer e os dias cinzas que sempre levavam embora os nossos sonhos, agora passam ao largo. É tempo de celebração! Os anos de porão se esvaem e escrevemos no rol das intenções mais sérias: eu quero ser feliz!


domingo, 15 de junho de 2014

Por isso, Eu Desisti do Amor












Tem dias que eu amordaço as palavras porque elas insistem em chamar teu nome. Nessa hora, eu vejo pelo espelho retrovisor e percebo que ainda tem muito sofrimento na nossa história, por isso eu desisti do amor.

Olho para a tela em branco do computador e penso em quantas vezes já escrevi, que tu eras uma página virada no livro da minha vida, para, logo em seguida, deixar que as letras do alfabeto me traiam e deixem explícito o que teimo tanto em esconder... Se a tela fosse uma folha de papel eu a rasgaria só para não ter de confessar, que as minhas frases se vestem de ternura toda vez que penso em ti e, que, nesse instante, a emoção me domina... É que o tempo atropela as horas e o que era dor vira saudade, pois não há como estornar as boas lembranças.

No entanto, um passeio discreto e silencioso pela galeria da memória traz de volta tudo o que passei e eu, enfim, redijo aqui a razão do fracasso do nosso amor de ontem.

Houve uma época em que eu fui cais... Sempre a tua espera. Cumpria a rotina das horas: vestia-me de chita durante o dia e guardava os melhores lingeries para usá-los à noite. Esmerava-me na escolha de bons vinhos, lia jornais e devorava livros. Queria ter assunto após o banquete do amor.

Durante anos, fui à luta e participei ativamente das manifestações populares do nosso país em busca de dias melhores. Lutei por cada centavo desviado dos cofres públicos e por melhores salários. Fiz boicote contra o preço do tomate e protestei, entre outras coisas, quando a conta de luz aumentou. Tudo isso, porque queria de ti o respeito e a admiração.

Dos velhos tempos dei um salto para a pós-modernidade e atualizei-me a respeito das mais novas tecnologias. Fui, também, a encontros literários, discuti sobre a política vigente, tomei ciência da economia do país e das recentes descobertas sobre os mecanismos da mente humana... Queria poder ajudar-te em teus conflitos existenciais.

Por meses a fio desvelei-me em cuidados e carinhos à beira da tua cama. Alimentei-te com a garra, o sangue e o suor da minha esperança para que tu não desistisses de viver... Reinventei-me! Fui tua mulher, tua amante e tua amiga. Fui teu colo e minha morte, pois me esqueci...

Quando, enfim, eu já havia feito de tudo um pouco para dar provas do meu sentimento, tu foste embora. Aí, eu pensei: - ninguém gosta de eternidade!

Por isso, eu desisti do amor.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O Anúncio


Procura-se uma caneca pequena, branca e com um lindo rabisco de uma menina desenhada no verso, semelhante a esta que ilustra o texto. Quem a encontrar favor devolvê-la no endereço citado...

Este foi o anúncio que eu coloquei no jornal, quando dei por falta da minha caneca. Ela me foi dada de presente no dia do meu aniversário e, todos os dias, me fazia companhia no café da manhã. Ninguém soube explicar como desapareceu. Por isso, eu resolvi tornar público o seu sumiço.

Não, não é uma caneca qualquer! A que eu procuro tem asas estendidas, para me acolher nas noites frias e nos momentos de solidão. E, quase nunca está vazia, embora o líquido oferecido seja tão raro, que me obriga a sorvê-lo em pequenos goles para usufruir, lentamente, do conforto de vê-lo aquecendo-me por dentro.

Às vezes, ela se esvazia para se encher de flores só para alegrar os meus dias e têm dias que se enche de uma água tão pura só para saciar a minha sede. E, quando eu digo que não tenho sede, ela se recolhe, discretamente, deixando-se ficar ao alcance da minha mão... Tem momentos que ela fica assim: quieta, parada, silenciosa, mas sempre a postos. No entanto, agora, ela sumiu de verdade. A caneca que eu procuro perdeu-se em cacos e fugiu de mim. De mim e da minha incapacidade de apreciar a sua beleza.

Por favor, quem souber por onde anda a minha caneca, peça para ela voltar.


domingo, 8 de junho de 2014

Engarrafando o Vento


        



Numa manhã de segunda-feira, do mês de maio, eu caminhava pela beira-mar quando encontrei uma garrafa plástica, entre os sargaços. De imediato, coloquei-a na mão direita e saí engarrafando o vento, embora o meu desejo fosse guardar sonhos para vê-los florescer no futuro.

O marulho das águas, o som do vento engarrafado e a solidão do caminho atraíram o meu olhar para o horizonte e eu quis saber, naquela hora, o que me esperava no além-mar: fios de esperança ou farrapos da minha ilusão?

No silêncio do verbo esperei a resposta e segui, pensativa, rasgando o manto d'água que cobria os meus pés... Ao longe, um barco seguia o seu curso, tão solitário quanto o meu. Então, comecei a costurar as minhas lembranças e escrevi na areia da praia: viver será sempre sentir fome da tua presença. Ainda, pensando sobre isto, lembrei de uma frase que li: - a história não tem freio... Não, não tem! Mas, a minha não terá outra versão. Ela será contada, eternamente, enquanto eu folhear o meu dossiê interno e perceber que a dor do abandono, ainda me assombra e dói como da primeira vez.

Por isso, naquele momento em que eu caminhava pela beira-mar, engarrafando o vento, os meus olhos acordaram sonhos e esperançosos, quiseram saber: - o que me espera no além-mar: fios de esperança ou farrapos da minha ilusão?


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Uma Interrogação

Que queres mais de mim?
Se na hora que eu preciso de ti,
tu és tão somente... Um homem?

Quando vou à igreja eu sou a santa;
quando dobro a esquina, a pecadora.
No lar sou dona de casa;
na rua, se me procuras, sou a outra.
De dia sou a mãe de família;
quando entardece, sou a dama da noite.

Se me falas de política, sou eleitora.
De economia, teu banco.
Se chove, sou guarda-chuva.
Se estais sem abrigo, teu teto.
Quando sofres, sou tua amiga.
Se queres colo, sou tua mãe.
Quando adoeces, sou teu remédio.
E se choras, sou teu perdão.

Que queres mais de mim?
Se na hora que eu preciso de ti,
tu és apenas isto... Uma interrogação.

sábado, 24 de maio de 2014

Silêncio


Não leia as minhas palavras. 
Elas só contam mentiras.
Observe o meu silêncio,
pois ele está cheio de intenções e
de desejos postergados.
E, tem pressa!

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Palavras













Não se dê tanta importância,
nem me leve tão a sério.
O que escrevo só tem valor,
se estiver em contrato.
Gosto de brincar com as palavras.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Surto de Memória











Selei o meu destino nos bordados da imaginação,
por isso alinhavo palavras, 
enquanto percorro os verdes campos das minhas lembranças.

Hoje, sou sarça ardente...
Tenho olhos de pedinte e um corpo,
esse vulcão em brasa, faminto!
Nesse momento, o meu nome é saudade.

terça-feira, 20 de maio de 2014

O Bilhete


Meu caro amigo,

Com a rebeldia das palavras comprei a minha carta de alforria. Agora, sou uma casa desabitada. Quem quiser me visitar, daqui por diante, que tire o pó do caminho e entre com delicadeza na minha vida. Mas, não me venha com rótulos, nem com estereótipos de gênero, pois aprendi muito bem a me virar sozinha. Também, no meu novo lar, não aceito alguém que, apesar da passagem dos anos, ainda não desceu do playground. Dispenso gente que gosta de jogos de sedução e de subterfúgios. Só sei amar de cara limpa: entregue! Quem quiser mistério que procure a Agatha Christie. É isso aí... Ponto final!

domingo, 18 de maio de 2014

O Segredo dos seus Olhos



“Os olhos falam demais. Às vezes, é melhor não olhar”.


O título que dá nome a este texto ganhou o “Oscar” de melhor filme estrangeiro em 2009 e, salvo engano, baseou-se em fatos ocorridos há 25 anos, na Argentina.

Lembrei-me dele, hoje, ao constatar o quanto as pessoas se mostram felizes nas redes sociais e nas capas de revistas da atualidade. Felicidade, agora, é um sorriso permanente na máscara que usamos para mostrar ao mundo o quanto estamos bem. Um clique no celular e ela aparece como num passe de mágica nas fotos, nos eventos e nas colunas sociais. Depois disso, é só exibir, alardear e o mundo ficará sabendo o quanto estamos plenos e realizados mesmo que, por dentro, estejamos sangrando...

Mas, e os olhos? Ah! Estes falam demais e como diz acima, às vezes, é melhor não olhar, porque podemos trocar de casa, carro, telefone, emprego... Menos de paixão, pois quando ela nos envolve o nosso olhar denuncia e se torna real a felicidade que apresentamos.

Por isso, é triste ver a plasticidade dos sorrisos falsos e o bem-estar fraudulento que insistimos em levar adiante, só para divulgar ao mundo o quanto estamos bem. É lamentável, também, constatar que, apesar das evidências, ela, a felicidade, estará visível no instante desejado, bastando apenas um clique no celular para tirar a foto e outro para enviar, visto que, dessa forma, o mundo jamais conhecerá o segredo dos nossos olhos.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Quero um Amor sem Fraude






Vem ao meu encontro e recolhe os beijos e abraços, que ficaram retidos na memória do teu desejo. 
Vem desembrulhar segredos, antes que amanheça e se faça tarde...

Não quero mais a sombra do passado rondando os nossos dias. Toma a senha de acesso - do tempo presente - e, lê o avesso das palavras que eu escrevi. Quero um amor sem fraude!

Vem, antes que amanheça e se faça tarde... A noite nos espera! Vem, antes que eu te esqueça!

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Tempo de Acordar Lembranças










Uma cortina de chuva veste o instante de saudades e a tristeza põe-se de pé dentro de mim. Nessa hora, o “tempo é um rio que corre” e leva-me para algum lugar do passado. Começo a alinhavar as letras com cuidado, deixando que os meus dedos, em carne viva, escrevam a “poesia sem pele” do meu cotidiano.

Sobre a mesa repousam o lápis e o papel, objetos com os quais eu costuro os meus retalhos de saudades. Olho-os e penso: tenho nas mãos a festa, a alegria e no peito, a morte, a agonia. A folha de papel em branco convida-me a escrever, mas a cortina de chuva desvia a minha atenção e o parto da criação é interrompido pela sedução do olhar que serpenteia, agora, pelo rio da minha emoção. São tantas as lembranças! A chuva acordou saudades... Chove, também, nos meus olhos. Tenho no peito a morte, a agonia.

Um som plangente ecoa na solidão do meu silêncio... É o passado, essa saudade agridoce, fazendo-me viajar em pensamentos. Voo na contramão do tempo e perambulo pelos espaços dentro de mim. Procuro gavetas! Abro-as, reviro-as e, só então, começo a costurar os meus retalhos de saudades.

É tempo de acordar lembranças!

PS: As frases em itálico são títulos de livros dos autores: Lya Luft e Lau Siqueira, respectivamente.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Roubando Cartas de Amor






Ontem, ao ver surgir na esquina da minha rua, o carteiro e a sua mochila cheia de sonhos, lembrei-me da menina que roubava livros. ( Markus Zusak - A Menina que Roubava Livros - (2011). O entardecer já começava a tingir o dia com as cores do crepúsculo e eu, ali, parada e sonhando com cartas de amor de um tempo em que as palavras eram como um terço de contas bonitas e perfumadas... Cada letra se parecia com uma Ave Maria rezada ou um Pai e Nosso cantado com devoção, tamanha a sinceridade e a fidelidade ao exercício da escrita. Hoje, elas - as palavras - vestem-se de purpurina e saem, sem pudores, contando mentiras de amor nas ruas, esquinas e bares por onde trafegam os perdidos da noite e suas tristezas ambulantes.

Pensando nisso, resolvi seguir a ideia da menina que roubava livros e pensei: por que não roubar cartas de amor, para alegrar os meus dias?

Cartas de amor são palavras escritas pelo avesso... Não há enfeites, não há purpurina! Somos nós inteiros, expostos em carne viva, escrevendo de um lugar geograficamente nosso. Neste local, onde as palavras saem sem censura, mora o nosso coração e ele bate mais forte à medida que desembrulhamos segredos. Aqui, tomamos posse de uma terra que ao longo dos anos fomos abandonando por medo de sofrer e deixamos a emoção correr solta... Neste pedaço de chão, não há espaço para mentiras, nem meias-verdades. No santuário desta solidão, estamos sozinhos, escutando apenas os sussurros da alma...

Por isso, resolvi roubar cartas de amor. Elas são um banquete para os meus olhos e uma culinária refinada para o meu viver. Estou cansada de ouvir mentiras, na calada da noite.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Ecos da Solidão




A minha alma itinerante se desnuda em palavras, mas ninguém escuta. Abro-me em livro e as páginas correm soltas ao vento... Ninguém me toca.

Sou passageira da utopia.

terça-feira, 1 de abril de 2014

O Porão e Eu





“Cultivo memórias como quem coleciona objetos raros”.


O outono chegou e com ele um convite para visitar o antigo porão, uma testemunha de segredos guardados a perder de vista. Basta um primeiro olhar perscrutando a escuridão daquele espaço, para encontrar baús com recordações de tempos imemoriais. São retalhos de saudades esgarçados pela poeira dos anos e um festival de folhas caídas, passarela de lembranças espalhadas pelo chão do esquecimento. Porém, uma conjugação irregular de verbos, sonhos e palavras tenta ignorar o avanço dos dias afirmando que a saudade não conhece os mecanismos do relógio...

Ah, o tempo! Ele sempre atropela as horas quando o assunto é saudade, pois no momento em que ela chega e toma assento nos vãos da memória, tudo se faz presente outra vez. Nessa hora, um show de fogos de artifícios ilumina o palco da minha vida e eu me posto de joelhos; vencida, pela dor das ausências, mas vitoriosa; porque a morte solitária dos dias passados me fez construir um memorial, para que eu mantivesse aquecido o projeto de imortalidade das minhas lembranças. E, ali, num recanto qualquer daquele lugar, escondidas, estão todas elas... Esquecidas? Não, apenas colocadas numa caixinha de veludo, dentro do baú, que é para não doer tanto...

Aceito o convite e visito o porão. Um olhar imaginativo aguça o apetite da minha curiosidade. Deslizo por entre baús, caixas e mais caixas cheias de recordações e esqueço-me das horas. Num segundo, tenho em mãos todo o meu passado... Vejo um álbum de fotografias e leio cartas de amor com perguntas que jamais serão respondidas. Encontro bugigangas e quinquilharias de alto teor afetivo. Olho ao redor e apanho o que restou de um espelho. Nele, a imagem de uma garota que amava os Beatles e os Rolling Stones... Mais adiante, papéis de bombons, folhas de outono e juras de amor eterno, guardadas dentro de um antigo diário, indicam que o passado quis ser lembrado no futuro...

As tempestades da alma se aproximam e um mundo de significados escondidos sai direto da memória do tempo para as pontas dos meus dedos. Então, eu aproveito a visita ao porão e começo a rabiscar poemas de amor e de saudades nas paredes cobertas de pó.

Olho, novamente, para o espelho e mapeio as rugas do meu rosto. Um filme de longa duração passa pela janela dos meus olhos. Depois de algumas horas, vasculhando cada pedacinho daquele chão, percebo que as lembranças são maiores que a poeira do esquecimento derramada sobre a superfície daqueles objetos.

Nesse instante, tal qual Falabella, eu “cultivo memórias como quem coleciona objetos raros”. ( Miguel Falabella – Vivendo em Voz Alta (2011). Por isso, saio do porão, realizada! Ele e eu temos algo em comum: somos guardiões de tempos e afetos memoráveis.


domingo, 30 de março de 2014

Ao Meu Amigo “C”






1964/1985. Houve um golpe. Havia armas. Mas, dentro delas, tremulava a bandeira da paixão e do amor. Tempos difíceis. Tempos de gaveta: de acordar e guardar sonhos...

O país estava em guerra. Uma guerra surda onde só se ouviam as vozes da ditadura. Ela, ainda menina, também travava consigo outra luta, onde se fazia escutar, apenas, o som descompassado do seu coração. Era um tum-tum-tum louco, desembestado, descendo a ladeira das suas veias, num vaivém sem fim, que só acabava quando o objeto do seu amor lhe consumia as carnes e acalmava o seu desejo. Era outro país dentro dela, uma pátria de intimidades que se sobrepunha a guerra lá fora... Ela acordara em si as vozes do amor e da paixão. Tudo ficava menor diante dessa descoberta, embora lhe consumisse, em chamas, a consciência do sangue derramado pela Pátria Mãe Gentil.

E, agora, 50 anos depois, ela continua sem entender nada dessa guerra que, entre mortos e feridos, restaram as chagas de uma dor que não passa e a solidão de um luto permanente.

O Brasil, meu amigo, continua de luto pelos filhos que não voltaram. E, eu, refém de um passado que anda sempre pelos vãos da memória, digo-lhe isto: “ só pra dizer que não falei das flores”. Flores mortas como as do outono, mas flores, também, da primavera que nos faz sempre voltar inteiros e continuar na luta pela paz e pela justiça social.

domingo, 16 de março de 2014

Um Inverno de Saudades




Às vezes, ela chega de mansinho, suavemente, provocando a melancolia que favorece o devaneio e a meditação. Outras, feito um trovão, com os seus ecos tocando uma melodia em tom maior. São gotas em abundância: arrebentação e espraiamento nas margens das minhas saudades esquecidas... Quando ela chega assim, sou toda mulherzinha. Ponho à mesa e forro a cama. Faz-se inverno dentro de mim!

A chuva traz de volta a escuridão de algumas noites... Acariciada pelo olhar, ela reclama

o aconchego da lareira. Então, eu choro a tua ausência e, num voo cego e solitário, parto pelo mistério do breu.

(...)

Sou um inverno de saudades!


terça-feira, 11 de março de 2014

Olhos de Saudade





O telefone toca e o silêncio é invadido pela música "As Time Goes By", trilha sonora do filme "Casablanca." Do outro lado da linha, um terrorista emocional desafia as horas que passam e nada diz, nada fala encastelado em seu silêncio.

Chove lá fora. Da janela do meu apartamento vejo o mar recebendo as lágrimas do céu. Aqui dentro, também chove: lágrimas de saudades! Mas, de onde elas vêm? Procuro no arquivo das minhas lembranças e não encontro nada, nem ninguém que as mereça. Tenho olhos de saudade e uma dor agônica quando percebo o entardecer dos meus dias e vejo o quanto me entristece esses amores vãos e esse vaivém que não arrepia a pele da alma. Tenho olhos de saudade, duas páginas em branco sobre algo que nunca vivi: a plenitude do amor... Não sei lidar com um afeto que não se expõe e que silencia quando a minha fome é de palavras e de carinho.

Quero alguém que diga a que veio, pois como um andarilho profissional já caminhei por países e cidades distantes à procura deste sentimento e não o encontrei, a não ser no mar profundo do meu querer. E é dele que emerge o desejo de viver com essa pessoa que eu tanto espero e que fica silente, enquanto eu roubo dos dias a fantasia de um possível encontro e deixo guardada na janela dos meus olhos a imagem desse amor crepuscular.

O telefone toca, novamente, e eu, que habito o mundo dos sonhos sem teto ouso dizer:

- Meu amor, por onde quer que você ande, venha, a porta está aberta. Mas, venha sem medo e sem receio dessa entrega que só os corajosos e bem- resolvidos são capazes. O pó do tempo já deve ter-lhe ensinado que a vaidade e o orgulho com que exibe os seus troféus e as suas conquistas amorosas de nada mais lhe servem nessa época em que a solidão cobre o mundo...

Sei que somos todos vítimas da vontade de roçar nos amores vãos e suas bocas carmesins, contudo, para além da embriaguez do momento existe o êxtase de saber-se amado por inteiro... E, é em nome desse sentimento que eu confesso: ando com os olhos cansados de sentir saudades. Eles saem por aí percorrendo ruas, esquinas e avenidas à medida que o meu corpo suado e exausto pede arrego a essa busca frenética para recuperar o tempo perdido...

Não me deixe esperar mais! Por favor, fale! Minha alma, minha primeira pele, aquela que arrepia por dentro, espera por você desde sempre. Venha!

sábado, 8 de março de 2014

A Dama da Noite



Há dias assim, como hoje, em que eu me sinto sufocada...

São dias escarlates onde tudo em mim é desejo e provocação. O tinteiro sobre a mesa se deixa derramar sobre a folha de papel em branco e o vermelho rubro das minhas letras vai deixando entrever o tango argentino da minha paixão.

Dentro de mim, negociando prazos e me consumindo lentamente, alguém pede passagem... Liberdade! Reprimo porque sei dos danos e das convenções, mas diante da insistência solto-a e ela ganha às ruas num misto de prazer, alegria e gozo. A fera está solta! Sou outra mulher...

Um par de sapatos vermelho e uma taça de vinho na mão ensinam-me a engolir a noite. Quero beber a tua ausência, saciar o meu desejo e depois... Ah! Depois eu canto ao teu ouvido: “ se acaso me quiseres, sou dessas mulheres, que só dizem sim”...

terça-feira, 4 de março de 2014

O Bloco da Saudade






É carnaval! De longe, de muito longe, ouço alguns acordes de marchinhas antigas: “Quanto riso! Oh, quanta alegria!" Somos mais de mil palhaços a chorar a morte dos nossos sonhos na avenida.

A fome, o desemprego, o abandono e a dor vestem as suas fantasias e seguem pelas ruas cantando o samba enredo de um povo, enquanto, nas alas palacianas, o bloco da saudade providencia pão e circo, para que o rei momo continue a brilhar.

São três dias de entorpecimento... Pobre nação! Arlequins e Pierrôs tristes e sem esperança desfilam pelas vias com a máscara negra da desilusão, ao som de “mamãe eu quero mamar”, música executada pelos rufiões do povo... Mas, de repente, eis que chega a “quarta-feira ingrata, tão depressa, só pra contrariar”. Já não há leite para tantos! É hora de colocar o bloco da saudade nas ruas. O período eleitoral está chegando. Que venham às urnas!

“Quanto riso! Oh, quanta alegria!”

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Meus Filhos




Quando, um dia, eu não estiver mais entre vocês, por favor, não me rendam homenagens. Quero-as, em vida! Não esperem pela última pá de terra, para falar sobre  seus amores.

A vocês, hoje, eu peço um pouco do que lhes dei a vida inteira: paciência, tolerância, perdão, compaixão e renúncia. Amor, carinho e ternura também fazem parte do pacote. Afinal de contas, ninguém vive só de leite materno... Não, por favor, não me digam, novamente, que não pediram para nascer. Eu, também não! Mas estou aqui, firme e forte, fazendo aos outros aquilo que gostaria que fizessem a mim.

Peço-lhes, ainda, encarecidamente, que não me chamem de perversa, cruel e mesquinha quando, na tentativa de formar cidadãos decentes, eu negar-lhes algo; nem sintam repulsa por mim quando me virem estendida no leito, doente e solitária, pois, um dia, eu já os vi assim, doentes e solitários, e, na ocasião, me doei inteira...

Quando a última pá de terra descer sobre o meu caixão, não sintam por mim – eu não estarei mais aqui – e, sim, por vocês... O tempo, esse juiz magnânimo para uns e padrasto para outros, irá desenhar o caminho que vocês irão percorrer e, a mãe vida, essa senhora do destino de todos nós, trará de volta todos os gestos e palavras de amor que, ao longo dos anos, vocês me negaram. Aí, vai doer não mais em mim...

Finalmente, quando um dia, eu não estiver mais aqui, não chorem por mim. Apenas, leiam o que escrevi... E, se nada disso fizer sentido, não se preocupem. A vida se encarregará de ensinar-lhes o que precisam aprender, pois o tempo é, e sempre será, o senhor da razão.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O Relógio e Eu



Olho para o relógio na parede. Ele conta as horas, eu conto os sonhos...

Em meu voo, pelos dias da maturidade, penso no tempo, essa areia que escorre por entre os dedos e nos rouba as mais belas horas de nossas vidas... Solto a imaginação e vou à procura da "natureza recém-lavada" dos meus sonhos juvenis. Vejo que nada mudou, apenas acrescentou-se mais um número no calendário da minha vida. Um "relâmpago de fulgor extraordinário" continua a iluminar o adiantado das horas, como se o ponteiro do relógio fosse pródigo em retardar o meu destino de ser feliz, apesar da passagem do tempo. Então, eu me pergunto:

- De que me vale um relógio na parede, com seus ponteiros austeros indicando que a vida está passando e que a terra dos meus sonhos vem sendo calcinada pelos dias que correm? Ah, certamente ele, o relógio, em seu movimento solitário tic... tac, tic... tac, não compreende a linguagem dos sonhos... Sonhos, não têm idade! Em um minuto vêm e vão sem fazer perguntas, sem saber de cronologias. Mas, o tempo impiedoso, em sua pressa de chegar, só quer saber de rituais de despedidas, com os seus pores do sol anunciando, diariamente, a morte do dia. Ele nem sabe como é bom viver apaziguada com os mistérios da vida e suas inesperadas reviravoltas, que independem da matemática dos números e da tirania das horas, que seguem indiferentes e alheias a nossa vontade.

Olho o relógio na parede. Ele conta as horas, eu conto sonhos... Um poder estranho e arrebatador me invade e me faz reconciliada com os meses que passam. Tudo está em seu lugar: o marcador das horas e eu. Ele segue ensimesmado em seu controle sobre o tempo e eu, perdulária perpétua, esbanjo a vitalidade das minhas fantasias e, asas estendidas, alço voo em direção ao futuro que me espera com um largo sorriso de felicidade.

Ah, o tempo! Ele sabe passar e eu não sei... Impiedoso, triunfa sobre as minhas carnes acentuando as minhas rugas, mas a minha alma se rebela e eu sigo... Vitoriosa! Contando os sonhos e aproveitando o dia.


sábado, 8 de fevereiro de 2014

A Pessoa É Para O Que Nasce



Há dias em que estou assim... Sem chão! Uma tempestade emocional coloca em polvorosa o meu coração e me vem um enorme desejo de voltar ao quintal da infância, para resgatar aquela menina sonhadora que sempre fui e que anda perdida nas páginas da vida, escrevendo um texto que não é o seu. Nessas horas, ouço os sussurros da minha alma e viajo por cenários que a borracha do tempo vem tentando, em vão, apagar.

Então, olho para a tela do computador e lembro-me da frase: - “A Pessoa É Para O Que Nasce”, título de um filme - do diretor Roberto Berliner - sobre a vida de três irmãs com deficiências visuais, que residem no interior do nordeste brasileiro e ganham a vida cantando nas ruas.

Não vi o documentário, mas a expressão em negrito fez aflorar o meu desejo de ser quem sempre fui... Desejo que se contradiz com o que as pessoas esperam de mim e, até mesmo, com o que, às vezes, pressionada por cobranças internas, também, quero.

Tomando como ponto de partida o título do filme, eu sinto vontade de ir aos recônditos da minha alma, onde hospedo as palavras mais doces e ternas, para tirá-las do seu anonimato, assumindo, sem pudores, que nasci para ser exatamente assim como sou: uma romântica incorrigível, daquelas que ao menor sinal de que a canção da chuva vem produzir os primeiros sons na janela do seu quarto, já se deixa derramar lânguida na tela do computador e sobre a cama dos seus sonhos.

Porém, ao longo dos últimos anos, venho tentando construir com as palavras uma personagem, que destoa de mim quando estou nos bastidores da minha alma ou nas coxias do meu silêncio. Nessas horas, eu me pergunto:

- Quantos de nós ousamos viver de acordo com os ditames do coração? Quantos de nós somos capazes de seguir, de nadar contra a correnteza da opinião alheia? Quantos de nós temos legitimidade para segurar a bandeira da liberdade e dizer: essa sou eu!

Vivemos em uma sociedade onde seguir em bando dá segurança, apesar de gerar frustrações que se propagam pelos anos afora, provocando uma corrida desnecessária aos laboratórios farmacêuticos. Somos uma “metamorfose ambulante” buscando um lugar ao sol para aquecer o inverno da nossa alma, mesmo que isso implique em anular a nossa essência...

Por isso, ao olhar para a tela do computador e lembrar-me da frase escrita acima, aproprio-me de um trecho da letra do cantor Raul Seixas para escrever: “Eu quero dizer/ Agora o oposto do que eu disse antes”:

-“A Pessoa É Para O Que Nasce”... E, eu serei sempre uma romântica incorrigível.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O Poder do Lápis




Uma folha de papel em branco sugere infinitas possibilidades de se reinventar a vida. Olho-a, sinto-me intimidada e, ao mesmo tempo, poderosa.

Quanto poder tem a vastidão de uma folha de papel em branco e um lápis na mão... Sou dona do meu destino. Faço as minhas escolhas. Os meus olhos, cansados da mesmice do cotidiano, procuram por novas paisagens. Partir tornou-se um verbo de urgência. Recomeçar é uma necessidade imperiosa.

O ano mal começou e apesar do meu desejo por mudanças, ainda sinto-me presa por fios invisíveis que me conectam a todo o momento com pessoas e lugares dos quais eu quero fugir.

Pauso o lápis e o pensamento sai em disparada atropelando as palavras, que insistem em colocar ordem no caos do meu dia a dia. O velho e o novo se digladiam na arena dos meus desejos mais secretos. Reticências ganham contorno em minha viagem pela folha de papel em branco: são as lembranças, o passado, o velho... Um baú que eu carrego cheio de sonhos esfarrapados.

Mas, o poder do lápis sobre o papel insiste em desenhar outras formas de viver. Então, um impulso me leva a estender as asas da imaginação e eu me lanço em um voo cego em busca de novos horizontes, deixando para trás pessoas, palavras e versos de amor amassados pelo tempo.

É hora de reinventar a vida.