Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

domingo, 30 de março de 2014

Ao Meu Amigo “C”






1964/1985. Houve um golpe. Havia armas. Mas, dentro delas, tremulava a bandeira da paixão e do amor. Tempos difíceis. Tempos de gaveta: de acordar e guardar sonhos...

O país estava em guerra. Uma guerra surda onde só se ouviam as vozes da ditadura. Ela, ainda menina, também travava consigo outra luta, onde se fazia escutar, apenas, o som descompassado do seu coração. Era um tum-tum-tum louco, desembestado, descendo a ladeira das suas veias, num vaivém sem fim, que só acabava quando o objeto do seu amor lhe consumia as carnes e acalmava o seu desejo. Era outro país dentro dela, uma pátria de intimidades que se sobrepunha a guerra lá fora... Ela acordara em si as vozes do amor e da paixão. Tudo ficava menor diante dessa descoberta, embora lhe consumisse, em chamas, a consciência do sangue derramado pela Pátria Mãe Gentil.

E, agora, 50 anos depois, ela continua sem entender nada dessa guerra que, entre mortos e feridos, restaram as chagas de uma dor que não passa e a solidão de um luto permanente.

O Brasil, meu amigo, continua de luto pelos filhos que não voltaram. E, eu, refém de um passado que anda sempre pelos vãos da memória, digo-lhe isto: “ só pra dizer que não falei das flores”. Flores mortas como as do outono, mas flores, também, da primavera que nos faz sempre voltar inteiros e continuar na luta pela paz e pela justiça social.

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