Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

terça-feira, 1 de abril de 2014

O Porão e Eu





“Cultivo memórias como quem coleciona objetos raros”.


O outono chegou e com ele um convite para visitar o antigo porão, uma testemunha de segredos guardados a perder de vista. Basta um primeiro olhar perscrutando a escuridão daquele espaço, para encontrar baús com recordações de tempos imemoriais. São retalhos de saudades esgarçados pela poeira dos anos e um festival de folhas caídas, passarela de lembranças espalhadas pelo chão do esquecimento. Porém, uma conjugação irregular de verbos, sonhos e palavras tenta ignorar o avanço dos dias afirmando que a saudade não conhece os mecanismos do relógio...

Ah, o tempo! Ele sempre atropela as horas quando o assunto é saudade, pois no momento em que ela chega e toma assento nos vãos da memória, tudo se faz presente outra vez. Nessa hora, um show de fogos de artifícios ilumina o palco da minha vida e eu me posto de joelhos; vencida, pela dor das ausências, mas vitoriosa; porque a morte solitária dos dias passados me fez construir um memorial, para que eu mantivesse aquecido o projeto de imortalidade das minhas lembranças. E, ali, num recanto qualquer daquele lugar, escondidas, estão todas elas... Esquecidas? Não, apenas colocadas numa caixinha de veludo, dentro do baú, que é para não doer tanto...

Aceito o convite e visito o porão. Um olhar imaginativo aguça o apetite da minha curiosidade. Deslizo por entre baús, caixas e mais caixas cheias de recordações e esqueço-me das horas. Num segundo, tenho em mãos todo o meu passado... Vejo um álbum de fotografias e leio cartas de amor com perguntas que jamais serão respondidas. Encontro bugigangas e quinquilharias de alto teor afetivo. Olho ao redor e apanho o que restou de um espelho. Nele, a imagem de uma garota que amava os Beatles e os Rolling Stones... Mais adiante, papéis de bombons, folhas de outono e juras de amor eterno, guardadas dentro de um antigo diário, indicam que o passado quis ser lembrado no futuro...

As tempestades da alma se aproximam e um mundo de significados escondidos sai direto da memória do tempo para as pontas dos meus dedos. Então, eu aproveito a visita ao porão e começo a rabiscar poemas de amor e de saudades nas paredes cobertas de pó.

Olho, novamente, para o espelho e mapeio as rugas do meu rosto. Um filme de longa duração passa pela janela dos meus olhos. Depois de algumas horas, vasculhando cada pedacinho daquele chão, percebo que as lembranças são maiores que a poeira do esquecimento derramada sobre a superfície daqueles objetos.

Nesse instante, tal qual Falabella, eu “cultivo memórias como quem coleciona objetos raros”. ( Miguel Falabella – Vivendo em Voz Alta (2011). Por isso, saio do porão, realizada! Ele e eu temos algo em comum: somos guardiões de tempos e afetos memoráveis.


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