Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A Casa Rosada











"Querência", segundo o Houaiss, “é o lugar onde o animal foi criado ou onde se acostumou a pastar, e para o qual volta, por instinto, se dali for afastado”.

Quando dei por mim, lá estava eu em frente à casa rosada. Movida por uma grande emoção parei o carro, desci e fui saquear as minhas recordações, numa tentativa de resgatar o passado. Ledo engano! A minha memória estava se diluindo e tudo o que consegui lembrar foi: - perdi tanta coisa aqui, pois o tempo soube passar e eu, não. Parei numa rua chamada saudade e deixei a minha alma morrer de inanição.

Olhei em volta e segui caminhando pela calçada. Alguns passos adiante vi a praça e as copas das árvores, que tantas vezes nos abrigou das chuvas de verão. Sentei-me no banco e me deixei levar pelas lembranças, juntando os cacos da memória para, dessa forma, trazer para o presente, cenas congeladas em pausas de fotografias, que eu guardei no fundo de uma gaveta. No entanto, me dei conta de que já não conseguia mais lembrar do teu jeito de sorrir, dos teus olhos e da tua voz... Do teu rosto! Tantos anos haviam se passado. Tudo estava envolto nas brumas do esquecimento.

Então, eu comecei a te inventar a partir das imagens que tatuei na minha alma. Elas permaneceram ali desafiando o tempo e o desbotamento do nosso amor. Naquela hora, as reminiscências apropriaram-se dos anos sessenta e fizeram-me reviver, trazendo todo o passado à tona, provando que não adianta matá-lo com o silêncio do fundo de uma gaveta, pois qualquer ruído traz ele de volta... Sempre!

Naquele momento, como num jogo de encaixe eu fui esvaziando a minha memória e colocando as peças das minhas recordações uma a uma e, com elas, fiz a moldura da casa rosada, da praça, de nós dois e de um tempo feliz que passou... Depois disso, me perguntei: - a casa rosada, a praça e eu é uma história de amor com contornos de eternidade ou uma felicidade clandestina a desafiar o tempo e o verde esperança dos meus sonhos sem-teto? Sem respostas prontas e sem certezas terminei a caminhada, pensando: - "querência" é um cheiro de saudade a perfumar as ruas dentro de mim. Saudade! Nada mais que saudade.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

O Arquiteto de Ilusões















Ele gostava de fazer amor com as palavras... As letras formavam lindos arabescos nas folhas de papel em branco e iam desenhando, aos poucos, um castelo de ilusões. Era um excelente arquiteto na arte da fantasia e dos sonhos, pois bordava as frases com destreza e mestria, porém, não tinha o menor compromisso com a verdade. De longe, ela o imaginava uma joia rara, mas, de perto, constatou que ele era, apenas... Ouro de tolo!