Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sábado, 19 de dezembro de 2015

Confissão de Amor












Na oficina do tempo ela guardou um olhar de saudade e durante anos a sua vida foi só isso: esperançar. Nos papéis em branco acordou memórias, costurou letras, teceu sonhos e vesti-os de amor, para que ele percebesse nas entrelinhas a colcha de retalhos que ela cerzia com saudade e esperança, enquanto aguardava por uma resposta ou explicação que nunca veio... Distraia-se relendo velhas cartas e revendo fotografias que, vez ou outra, tirava do fundo de uma gaveta só para editar as lembranças dos dias felizes que passaram juntos, pois naquelas páginas amareladas ainda dormiam as frases de um amor rubro e, nas pausas das fotografias, a doce esperança de um reencontro. Mas, agora que estava prestes a fazer a viagem final, decidiu não mais esconder a chama daquele amor que a consumiu por tantos anos. Chega de entrelinhas, de parágrafos suspensos e de evasivas! Chega de guardar saudades! Amava aquele homem desde os seus 15 anos de idade e por mais que a atitude dele tenha desarrumado a paisagem dos seus sonhos, nada do que ele fizera tinha importância naquele momento em que as recordações contavam a história de um amor para além do tempo. Amava-o e isto lhe bastava.

Pensando nisso, enviou-lhe esta confissão de amor: - “não procure mais descobrir o destinatário das minhas palavras de amor. Elas foram e, sempre, serão para você. Adeus!”


Crédito de Imagem: Existe um Olhar (o blog da minha doce amiga Manu)

terça-feira, 10 de novembro de 2015

O Real Valor das Letras












Ah, as palavras! Como elas se exibem! Chegam saltitantes, vaidosas e orgulhosas em seus vestidos de cetim desejando o brilho das estrelas. Vaidade. Tudo é vaidade!

(...)

Então, eu lhes falo do tempo, do passado, das coisas idas e findas. Nada mudou, apenas a arte de dizer a mesma coisa com outra linguagem. Tudo se repete, gerando cansaço, frustração e apatia.

Somos todos iguais nessa busca pelo celeiro dos signos linguísticos, ansiosos em dar vida às letras. Palavras são gastas, frases e orações desperdiçadas esperando por ações que nunca chegam.

É a cupidez do homem enterrando as palavras, que nada mais anseiam senão a própria vida: prática, ação e exercício contínuos. Nunca, letra morta, vazia, inútil e sempre em busca dos louros das academias.

Validá-las! Esta, talvez, seja a maior honraria que elas desejem. Sair do papel e alcançar às ruas, ruelas, becos e avenidas... Fazer-se luz na escuridão e o pão de cada dia na boca do analfabeto, dando-lhe a consciência de cidadão para que ele possa escrever a história e reinventar a vida desse país.

domingo, 25 de outubro de 2015

O Outro - Um Reflexo de Mim
















O silêncio da página em branco me toma de assalto novamente. De repente, falta-me assunto para costurar as palavras e as horas correm céleres lembrando-me do compromisso que assumi comigo mesma de escrever pelo menos um texto por mês, para alimentar o meu blog, “Reconstruindo Caminhos”. Na verdade, não é que faltem temas palpitantes, o que ocorre é que vivemos uma época em que nada do que é dito é mais novidade. Tudo já foi escrito a respeito de tudo. Nas páginas dos jornais, revistas, livros e em outros meios de comunicação abundam sangue, suor, lágrimas e indignação pelas injustiças e despautérios. São poucas as alegrias! E são tantos os absurdos, que não me parece desatino dizer que a humanidade está no limiar da irracionalidade, pois a lâmina do verbo corta a nossa carne todos os dias com as suas manchetes sangrentas e lacrimosas, enquanto seguimos lépidos e fagueiros ignorando as palavras, como se nada daquilo pudesse nos atingir. Imaginamos que é sempre na casa do outro que a dor bate primeiro. O outro, esse corpo ausente, mesmo que passeie todos os dias diante dos nossos olhos e de quem nós só escutamos falar, porque estamos sempre muito envolvidos com os nossos pequenos dramas e espelhos. O outro, esse ser invisível a quem chamamos muitas vezes de amigo, de irmão, porque habitamos o mesmo planeta, mas para quem não voltamos o nosso olhar compassivo, nem a nossa condescendência. E, quando falo aqui de compaixão e compreensão, não me refiro ao acolhimento das diferenças de gênero, raça ou etnia, pois isso é coisa natural em quem é emocionalmente equilibrado. Falo, principalmente, de fazer ao outro aquilo que gostaríamos que fizessem a nós mesmos, porque em algum momento da nossa vida a fatura dessa conta vai chegar, lembrando-nos que somos responsáveis uns pelos outros e que a verdadeira justiça é receber de volta todo o bem que fizemos em forma de amor, carinho, compreensão... Não é à toa que temos conforto nas palavras da Bíblia: “porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo”.

Por isso, quando olho para o relógio e vejo o tempo presente sendo desembrulhado e os instantes se desalinhando numa corrida veloz, permito-me reescrever o que já foi dito, para desembotar a razão. Dessa forma, mais uma vez pergunto-me: que tempo é esse que nos faz cegos, surdos e mudos ao sofrimento alheio? Por que agimos como Narciso, achando feio o que não é espelho? Para onde vamos nessa maratona sem fim, de vaidades e orgulhos descabidos? E quais serão os efeitos dessa competição, quando chegar o ocaso de nossa vida? Estaremos sozinhos ou cercados de afeto e carinho? Se sozinhos, de que nos valerá títulos, posses e dinheiro? Para onde irmos? E que mão nos guiará, quando os nossos passos estiverem trôpegos? Essas são interrogações que precisam de respostas rápidas e honestas, pois chegará o momento em que nos lembraremos de nós e do outro, duas faces da mesma moeda. E, ao ser medido, teremos de volta o bem que fizemos ou mal que causamos. Não se trata de olho por olho e dente por dente. Essa é a justiça em que acredito: recebo de volta tudo aquilo que ofereço ao outro... Diante disso, sinto-me responsável pelas escolhas, comentários e atitudes que tenho a favor ou contra o meu amigo-irmão. Essa é a lei mais justa, porque me tira da zona de conforto, onde sempre me coloco como vítima, e me faz refletir na responsabilidade que eu também tenho de manter o diálogo, a concórdia... A paz!


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Entardecer













Entre mim e o pôr do sol existe uma similaridade que está longe de ser apenas o mar de prata que banha os meus cabelos. Todos os dias disputamos o mesmo espaço. O sol, mal ele surge e eu já estou junto... Amanheço! Pés no mundo, ofereço-me como companhia e sugiro que aprendamos um com o outro. Ele sorri da minha pretensão, mas se junta a mim como uma sombra, esperando que o passar dos anos retire a venda que me cobre os olhos. Uma conversa de silêncios se estabelece entre nós. Então, pergunto-lhe: - se o tempo é um presente que a vida me oferece, qual é a época ideal para eu desfazer o laço das horas e aproveitar cada momento, sabendo-o único, se cada instante que passa contribui para que eu fique mais sozinha, desabrigada de afeto e órfã de esperança? E, antes que ele me responda, continuo. O tempo é um presente que me é ofertado a cada dia só para lembrar que vivo um adeus parcelado e que é necessário saber aproveitá-lo com sabedoria e discernimento, pois nem sempre haverá oportunidade de consertar o que foi feito... E, continuo falando, enquanto o sol me ouve em silêncio.

Em um mundo onde a velocidade dos minutos nos leva a uma busca frenética por prazer a qualquer custo, como saber o rumo certo, se olho em volta e sinto que caminhei muitas léguas sem ter dado um passo sequer em direção ao conhecimento que liberta? Como sair da solidão abissal produzida pelos meios de comunicação, que a toda hora assedia-me com promessas de felicidade e bem-estar, tornando-me refém de um consumo desenfreado, sem limite? Onde, afinal, está essa tal felicidade que vemos estampada nos outdoors, nas vitrines das lojas, no pregão da bolsa de valores e na tecnologia do século XXI? Será que a resposta para tudo isso está no computador e na sua incrível tecla de gerar prazer e alegria: curti-kkkkk?

Nesse momento, lembro-me da velha máquina de escrever e penso na inutilidade das letras, pois ao longo do tempo já foram construídas imensas bibliotecas, lugar onde dormem palavras, orações e períodos que os homens em sua azáfama de viver, insistem em ignorar. Ali estão registrados tudo o que a experiência humana vivenciou, mas de nada serve nesse breve instante que se chama presente. Pensativa, continuo refletindo sobre o tempo e a sorte dos homens: agora, eles partem em direção ao abismo do transitório, encantados que são pelas luzes dos holofotes de uma época que se esvai, sem ao menos se darem conta de quão breve é a vida. Pobres homens! Ignoram os livros –memorial de lembranças - o passado, a história e esquecem de quantos semelhantes se expuseram em carne viva para que eles fossem mais felizes. Pobres homens, cegos, surdos e mudos dispensam o convívio, a ternura, o carinho e se deixam iludir como crianças por um brinquedo de faz de conta... Brinquedo que anda lhes roubando o tempo e, em troca, devolve-lhes a tão sonhada felicidade numa tecla só: curti-kkkkk!

Enfim, depois de tantos questionamentos, o sol que até então se mantinha ao meu lado silente e sorria da minha inocência e da minha incapacidade de ver o quão distante estávamos ao amanhecer, fixa os seus raios sobre a nuvem de prata que banha os meus cabelos e gentilmente me diz: entardeceste!

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Uma Carta Para Luiz Augusto Crispim







Caro Jornalista,

Certa vez, eu escrevi: - “a minha casa é um país dentro do meu país. É a minha pátria de intimidades. Ela tem cor, cheiro, som, passos e lembranças. Ela tem história! E se me tiram o chão, eu me torno estrangeira de mim mesma.” Digo-lhe isto porque, hoje, ao caminhar em passos lentos pelas ruas da cidade de João Pessoa, senti-me estranha. Uma onda de nostalgia tomou conta dos meus pensamentos e me fez percorrer cada pedaço de chão, desse lugar abençoado, banhando-o com as lágrimas da minha saudade. É que, de repente, lembrei-me de como a minha casa foi cantada em versos e em prosa pelos seus dedos pintados de poesia, ternura e encantamento. Que falta que você nos faz, Luiz Augusto Crispim!

João Pessoa, não é mais a mesma! Falta-lhe alguém que a represente, endosse a sua fama de hospitaleira e alinhave com delicadeza cada retalho de sua beleza natural. Falta-lhe, caro jornalista, a eloquência da sua crônica diária, palavras tão benditas no Jornal Correio da Paraíba. Falta-lhe poesia e os olhos da sua memória, pois, quando você partiu, seduzido pelo brilho das estrelas, os dentes do tempo, vorazes, mastigaram todas as suas letras e um silêncio sepulcral caiu sobre a cidade. Ninguém mais ousou falar de amor a João Pessoa com tanta paixão e propriedade quanto você. Os Ipês Amarelos, descritos com tanto zelo e orgulho, a Lagoa, o Centro Cultural São Francisco, a Faculdade de Direito, o Ponto de Cem Réis e as Praias que tanto amava são, agora, palavras, apenas palavras esquecidas pela indiferença dos homens. A escrita, terreno onde o jornalista se deleitava e o poeta fazia florescer até a paisagem mais árida, foi silenciada. A cidade e toda a sua beleza cantada em versos e em prosa só existem, nesse momento, no rasto das suas letras. Que falta você nos faz, Luiz Augusto Crispim!

Por essa razão e porque sei que faz aniversário este mês, antecipo-me escrevendo-lhe esta carta só para dizer: a memória das suas palavras é o único presente que eu posso lhe dar. As suas crônicas sobrevivem em mim. Feliz Aniversário, Luiz Augusto Crispim!

terça-feira, 21 de julho de 2015

A Carta Que Não Enviei












Meu querido,


O escritor moçambicano Mia Couto nos diz que: “morto amado nunca para de morrer”. É verdade! Não é fácil se despedir, fechar portas e partir sem olhar para trás. Não sou dona do meu pensamento. Ele habita sítios de memórias e, vez ou outra, o senhor do lado esquerdo reclama a tua ausência. Nessa hora, sento-me diante do computador e os meus dedos executam uma dança cheia de alegria e esperança. É a coreografia dos meus sonhos, costurando lembranças e tecendo os fios do tempo para trazer-te de volta, pois à beira do abismo da tua ausência eu sempre crio asas e no tapete da imaginação, alço voos inimagináveis, sem as amarras das convenções. E é sobre isso que desejo escrever-te agora. Vou despir-me novamente em letras e fazer striptease dessa alma cansada de tanto esperar por ti.

Amo-te! Isso é fato. Quando partiste o meu coração ainda não estava pronto para te perder, uma parte de mim foi embora contigo e a outra ficou tropeçando nos restos de lembranças de nós dois. Por isso, escrevo, para juntar pedaços e reconstruir os caminhos que não palmilhamos juntos. Com as palavras eu teço um cobertor de ternuras e te cubro de amor nas noites de frio. Sou toda mulherzinha! Ponho a mesa e forro a cama. Rodopio em fantasias... Sou toda tua! Mas, as páginas em branco do amor que não vivemos, ainda continuam a me ferir o corpo e a alma. Não quero mais negar isso. Cansei de retocar a falsa porcelana do meu orgulho. Quero, a partir de agora, te acariciar com as palavras e atropelar as horas para que possamos, finalmente, ficar juntos e contar segredos de confessionário, entre beijos e murmúrios...

Por essa razão, eu te peço: vem! Mas vem logo, antes que eu te diga que é só uma tola saudade, essa mania de escrever cartas de amor, quando a canção da chuva toca de leve na janela do meu quarto... É que chove, lá fora!


quarta-feira, 1 de julho de 2015

O Olhar de Antônio











Há quem se perca no abismo insondável das palavras, no gargalhar profundo que os pequenos sinais emitem ou nas loas que as pessoas tecem quando se juntam para representar o teatro do absurdo. Eu, porém, gosto do silêncio do seu olhar, seu moço! Ele capta tudo o que reverbera dentro de mim, no momento em que as minhas mãos calejadas de sofrimento e dor cavam cada vez mais fundo a terra infértil. Gosto do seu olhar, seu moço, pois ele descansa as bocas das mentiras que os homens contam.


Crédito de Imagem: Antônio David

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O Recado


Hoje, vou economizar letras e sinais de pontuação. O recado abaixo é curto, simples e definitivo. 

Sob a proteção das palavras, eu enceno uma peça que não é minha, represento um papel e visto um personagem que não cabe em mim. Sou toda reticências. Brinco com a utopia. Então, se me perguntas quem eu sou, respondo: - sou o não dito. As palavras não me representam, nem me definem, pelo contrário, são letras mortas que um dia afligiram a minha alma, cortaram-me a carne e alinhavaram uma solidão escolhida. Por isso, quero deixar um recado: não alimentes a tua vaidade, tampouco o teu orgulho com as frases de um amor que a essa altura não existe mais, pois quando o celular toca e vejo que és tu, opto pelo silêncio. O corpo ainda pulsa e dói. Sinto a tua falta! Mas, decidi: antes só do que mal acompanhada... Cansei de amores requentados e da tua covardia. Não me telefones mais!

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Uma Carta para Santo Antônio












Entre mim e Santo Antônio existe uma zona de desconforto. Uma conversa de silêncios, onde o tempo é tecido em fios de esperança de que um dia tudo dará certo. Pedi-lhe a graça de arranjar um namorado e o Santo Milagreiro insistiu em mandar um homem para casar. Recusei, mas continuei com a petição: quero um namorado! Então, percebendo-lhe a impaciência diante das minhas negativas, não me contive e enviei-lhe a mensagem abaixo para acabar de vez com a nossa querela, antes que o Divino resolvesse interceder e me condenasse à solidão perpétua.

Querido Santo Antônio,

não fique zangado comigo, pois se casamento fosse bom você não teria escolhido o celibatário. Esse compromisso, querido santo, não nasceu para a eternidade. Ele anda se esgueirando de quem, como eu, gosta de colecionar ilusões, por isso, nesse momento, tudo o que desejo é alguém para namorar! Namorar, sim, é uma alegria, um jardim cheio de flores, um bilhete premiado. É o céu aqui na terra!

Você já percebeu que durante o período de namoro os verbos são sempre conjugados em uníssono? Tudo é acordado, dividido, partilhado: alegrias, sucesso, tristezas e dores. O outro, aquele que nós escolhemos por livre e espontânea vontade, entre tantos, é a moldura certa para o nosso retrato. Juntos, fazemos planos, projetos e contabilizamos perdas e ganhos. Juntos, arrumamos a casa do futuro. Tudo é na base do só vou se você for. A união é perfeita, até o dia em que despertamos com o outro instalado na nossa cama, na nossa casa e percebemos que não era bem isso o que queríamos. Assustados, irritados, surpresos, perguntamos: quem é essa/esse estranho que dorme ao meu lado? O que foi que eu fiz com a minha vida? Em que esquina perdi a minha liberdade? A partir desse dia, o outro cheira a naftalina e o que sobra como herança de uma relação, que antes era tão perfeita, é um pote até aqui de mágoas. O amor passa a ser um rascunho, um desenho mal acabado de um projeto que não vingou. Daí em diante, tudo perde a forma, a cor, a alegria e implicamos com qualquer bobagem, com coisas de somenos importância. Agora, o príncipe é um sapo e a cinderela a gata borralheira, quando não, o nosso maior inimigo e, para nos proteger, colocamos cercas ao nosso redor, nos distanciando cada vez mais. Nesse instante, olhamos nos olhos um do outro e percebemos que ali não há mais sentimento, afeto, respeito e admiração. Perdemos a chave da casa e do coração. É o fim!

Por isso, meu querido santinho, nesse dia dos namorados, eu lhe peço: desista de me casar e envie-me logo um namorado que seja: trabalhador, honesto, viril, inteligente, bonito, sarado, tolerante, paciente e submisso. E, de quebra, que não goste de discutir a relação, para que, num futuro próximo, eu possa substituí-lo quando algo não me agradar, pois eu quero mais é ser feliz e namorar, namorar, namorar... Obrigada!

domingo, 3 de maio de 2015

A Vida fora do Roteiro
















“Há realidades que só a ficção suporta”. (Eliane Brum)


Todos sabem que os escritores têm a imaginação fértil e que a "literatura é o território da liberdade". De suas mentes saem histórias incríveis capazes de confundir, arrepiar, emocionar ou encantar o mais experiente leitor. São cérebros privilegiados desafiando o pensamento alheio em sua capacidade de perceber a diferença entre a realidade e a fantasia. Eu não sou escritora, porém, gostaria de sê-lo. E não é falsa modéstia e, sim, a compreensão de que me faltam conhecimento e técnica. Na arte de escrever, eu me defino apenas como uma aprendiza, que tem a sorte de ser auxiliada por ferramentas – dicionários – que não permitem que eu resvale pelos erros mais elementares do idioma pátrio. Sou uma escrevinhadora que gosta de brincar com as palavras e, às vezes, passeia por entre as letras do alfabeto tentando colhê-las para ver se algo faz sentido. E, é isto o que vou fazer a partir de agora.

Nesse momento, enquanto escrevo, o mundo lá fora arde em chamas: cinzas do vulcão Cabulco, no Chile, se espalham e cobrem o ar que respiramos. No Nepal, um terremoto leva tudo o que construímos numa vida inteira mostrando-nos que nada é permanente. E a grande lição que fica dessas duas realidades é que o tempo devora certezas: tudo o que tínhamos e sabíamos não temos mais... Então, eu me pergunto: - se o tempo devora certezas, por que nos deixamos enredar pelas miudezas da vida e passamos tanto tempo diante do computador tentando provar ao mundo quem somos?

- Não tenho respostas prontas, no entanto, ouso dizer que somos passageiros da ilusão e habitamos um mundo de faz de conta porque temos medo do outro e do quanto a proximidade com ele pode revelar sobre nós mesmos, pois como bem disse a escritora Eliane Brum: - “Há realidades que só a ficção suporta”. E, por causa disso, nos escondemos nas palavras e damos vida a uma vida que não nos pertence.

É muito fácil criar um roteiro fantástico para os nossos dias, basta nos sentarmos em frente ao computador e acionarmos algumas teclas. De repente, como num passe de mágica, temos um milhão de amigos, somos todos lindos e maravilhosos, temos o melhor emprego do mundo, a melhor casa, o companheiro perfeito, fazemos e frequentamos as melhores festas, os restaurantes da moda, conhecemos os lugares mais badalados e, ainda por cima, temos livre trânsito entre “os bem nascidos” ... É pouco espaço para tanto ego! No país do Facebook ninguém sente tristeza, abandono, solidão... Todos são felizes para sempre. E, se algo sai fora da cartilha da felicidade e nos incomoda, uma simples tecla – delete – resolve o problema. Saltar desse mundo ideal, mas irreal, onde o presente é saqueado e o futuro uma incógnita é um trabalho hercúleo, porque como diz, Milton Nascimento, na canção, Maria, Maria: “é preciso ter força, é preciso ter raça”. E, Fé! Na vida e em si mesmo.

É bem verdade que a vida, fora do roteiro que digitamos, pode ser bem menos glamorosa, mas quem sabe seja plena de afetos e carinhos verdadeiros. É sempre bom lembrar o que disse o escritor Eduardo Galeano: - “somos um instantezinho, nada mais, na memória do tempo”, então se faz necessário que saibamos empregá-lo com inteligência e lucidez.

Por isso, nesse momento, ao observar o cotidiano em suas pequenas e grandes tragédias, eu reflito sobre a necessidade de ressignificarmos os nossos hábitos para que possamos ter um novo olhar. Um olhar que nos permita sair da zona de conforto e da bolha de isolamento na qual nos escondemos através das teclas. Precisamos aprender que a vida não pode ser guardada para se viver depois. A impermanência nos ensina que nada é para sempre e que o roteiro da nossa existência deve ser tão real quanto um almoço de domingo em família: pleno de carinho, afeto e cumplicidade. Ao vivo e em cores. O resto é digitação!

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A Página em Branco













Apenas um toque e ela surge diante dos meus olhos desafiando-me para mais um confronto, entre o passado e um porvir risonho que nunca chega. No futuro, só existe a ilusão... Promessa de felicidade! Olho para a tela e, hesitante, penso se terei coragem de manchar a sua alvíssima brancura com o sangue derramado das minhas entranhas. Nessa hora, eu lembro: costurei tantas palavras ao longo dos anos que, tal e qual uma roupa ajustada, já não há espaço para nem mais um conserto. Tudo já foi dito e feito na alfaiataria dos meus sonhos. Será!?

Então, penso em nós dois e reinvento retalhos... Novos ajustes! Diante do computador, exponho-me em carne viva e as recordações pousam e se deixam alinhavar sobre a tela em branco. As letras em cor carmesim, devassam-me... Já não sou eu quem percorre, agora, o escaninho da memória e das saudades engavetadas. Quem caminha por entre as lembranças do passado é aquela que um dia foi objeto do seu amor. Olho novamente para as teclas: letras mortas, ávidas por desvendar segredos, e decido pela cor da neve. Nesse instante, você é apenas a página em branco, cheia de rasuras, que se deslocou do livro da minha história.

domingo, 5 de abril de 2015

Confidências














Tudo em mim é certeza, convicção desde sempre. Nunca fui escrava, tampouco Amélia. Desconheço a história da submissão das mulheres, pois o meu silêncio jamais foi alimentado pelo som dos gritos, nem pelas mordaças e arreios colocados pela vontade dos homens. Entre nós não há acertos de contas a fazer. Ergui a taça da minha liberdade faz muito tempo: nasci livre! Quando quero, vou lá e faço...

Por isso, se alguém quiser cruzar o meu caminho, que procure os atalhos da delicadeza, do respeito e da lealdade. Não preciso de proteção, nem do braço forte de ninguém. Sei caminhar com os meus próprios pés e, quando não puder mais, posso muito bem contratar um acompanhante. O que eu desejo na realidade é encontrar alguém que tenha fé em si próprio a ponto de não precisar usar o outro como um troféu, para ocultar os seus passos trôpegos...

terça-feira, 10 de março de 2015

De Frente para o Espelho















Ela olha para mim com atenção, porém eu percebo um indisfarçável ar de superioridade e de enfado. Tem pressa! Os passos longos e rápidos parecem me ordenar: vamos logo, a vida urge! Tem medo de que o tempo lhe roube algo, embora, não saiba exatamente o que é.

Altiva e vaidosa, tem o corpo como um troféu ambulante, cujo andar gracioso e ágil denuncia que as horas pontuadas pelo silêncio e contemplação estão longe, muito longe do percurso escolhido no presente. A sua alma, até este momento, não deu abrigo ao medo, à insegurança e as dificuldades do caminho, nem o corpo exibe as marcas dos dias que correm céleres e inclementes. Não há rugas, nem cicatrizes. Ainda não passou a vida a limpo e, por essa razão, em seus olhos não há tolerância, paciência, tampouco, compaixão.

Ela me confronta quando fala do passar dos anos, da beleza e da mocidade. Jardineira da esperança, diz que o seu tempo é outro e desdenha do meu. Fala-me de tecnologia e do avanço da ciência... Invoca para si o frescor de uma juventude plastificada e de um corpo esculpido nos corredores das academias da moda. Quando lhe pergunto sobre o amor e a amizade, uma tristeza líquida parece surgir em seus olhos, mas ela disfarça e tenta lidar com o desconforto das palavras, seduzindo-me com um discurso sobre a modernidade... Lembra de Vinícius e diz: "que seja eterno, enquanto dure".

Então, nessa hora de descuido, eu lhe pergunto: o que vê, quando se olha no espelho? Quais as suas lembranças de gaveta? Onde estão os seus afetos?

Um silêncio pesado cai sobre nós agora e, com a alma em desalinho, ela me desafia:

- Quem é você!? Coleciona saudades, por acaso?

Nesse instante, tomo-lhe delicadamente o espelho das mãos e respondo: eu sou você, ontem. Porém, de mim, o tempo nada roubou. Coleciono lembranças que possuem valor pela sua raridade nos tempos modernos e marcas de expressão que contabilizam histórias vividas.

Ela me ouve sem interrupções e depois se afasta em passos ligeiros, tentando esvaziar as horas. Tem pressa para chegar, embora não saiba bem, aonde.

Então, eu caminho em passos lentos e me posto de frente para o espelho. Nele eu vejo refletida a imagem da menina que ainda sou. O tempo atropelou as horas, mas ela está ali, bem viva, dentro de mim. Em um lugar onde as rugas e cicatrizes não alcançam nem causam danos.


sexta-feira, 6 de março de 2015

Final Feliz


 









Em 2014, estive próxima da "indesejada das gentes". O céu de novembro, apesar do verão, parecia uma xícara de porcelana a tingir de cinza os meus dias... Porém, quando o rufar dos tambores anunciou a chegada do ano de 2015, eu fui contemplada com algumas folhas a mais no calendário gregoriano e a natureza exibiu sua mais linda paleta de cores, como se estivesse a desejar-me as boas vindas. De repente, o passar das horas estava sendo oferecido em parcelas iguais para que eu usufruísse, novamente, tudo o que 2014 ameaçava retirar: a minha vida e os meus sonhos!

Naquela altura, eu consultei o acervo da memória e dei liberdade para que o pensamento corresse sem rédeas deixando, dessa forma, que o meu destino fosse selado nos bordados da imaginação. Pensei: - preciso olhar para o que foi vivido sem ter medo de reinventar a minha trajetória e/ou essa é a oportunidade de estrear uma nova vida?

Naquele momento, depois do susto, algo estava me tirando do lugar, da zona de conforto e pedia, com insistência, que eu revisitasse o porão da minha alma. Alguma coisa me dizia que ali havia percursos a serem corrigidos tanto em manhãs de silêncio e quietude, como em tardes de temporal. Ainda marcada pela dor, pelo assombro, diante do inesperado, com dúvidas, inquietações e, sem despertar para as possibilidades não cogitadas, eu continuei indagando:

- A minha vida sempre foi muito morna... E, os meus olhos pouco acostumados a novidades e a deslumbramentos... O que fazer agora com essa possibilidade de reconstruir o caminho? Ou será que daqui por diante tudo deverá ser diferente? Naquela hora, lembrei de quem eu era e de que maneira deveria me desconstruir, se quisesse ter a minha iniciação nas coisas nunca antes provadas...

O rufar dos tambores ainda ecoava em minha cabeça como uma saudação efusiva pela vitória contra a “indesejada das gentes”, no entanto, algo me dizia que eu precisava mudar e, com certa urgência. Nada mais seria como antes... Os passos sempre ausentes da agitação dos dias, da efervescência das noitadas, dos encontros e desencontros, dos amores passageiros e das muitas viagens e festas perdidas, reclamavam por uma nova postura: precisava me libertar do cotidiano e da vida morna para estrear outra forma de viver.

Com essa ideia martelando na cabeça deixei os dias fluírem sem dar muita importância aos apelos mundanos e, só tempos depois, fui consultar o meu coração: um lugar onde razão e sensibilidade se digladiavam. Havia revisitado o porão da minha alma e constatado que a soma de afetos recolhidos pelo tempo me autorizava a começar uma vida nova, pois nada nem ninguém era tão importante que não pudesse ser esquecido... Será? Perguntei-me.

Então, de súbito, no sítio da minha memória se redesenhou uma imagem e um desejo atemporal: viver um grande amor! Lembrei-me do passado, das coisas e pessoas que havia deixado para trás e dos sonhos abortados. Naquele instante, eu desisti das possibilidades não cogitadas e de estrear outra forma de viver. Pensei: - vou continuar reconstruindo caminhos. Quem sabe, um dia, ao brincar com as palavras eu possa escrever... Final Feliz!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Ilusão

















Ele sempre pedia: escreva! escreva! E eu, tonta, me despia em letras. Achava lindo aquele jeito de amar, até descobri que dentro dele havia um iceberg e que o dicionário do meu amor era labareda que não o aquecia. Ele tinha fome de palavras, mas o deserto da solidão que havia atravessado durante tanto tempo o incapacitara para os gestos longos e abraços demorados que as orações sugeriam.

Por isso, andei costurando as minhas palavras. Coloquei uma vírgula aqui, uma interrogação ali, as reticências pelo meio e, de súbito, uma interjeição que surgiu para clarear o caminho. Então, eu entendi, finalmente, que estava na hora de botar um ponto final naquela história de amor que nunca aconteceu... Ilusão!


domingo, 1 de fevereiro de 2015

Quando o Amor Salva















Sempre gostei de brincar com as palavras... Quando criança, um livro ou uma porção de letrinhas de plástico coloridas, nas mãos, fazia-me a festa. A imaginação fértil aliada a uma timidez cada vez maior levava-me, como um pássaro em voo rasante, a procurar abrigo nas páginas dos livros infantis e a manusear aquelas letrinhas de tal forma que o meu mundo pudesse ser composto só de amor, beleza e harmonia. Passava horas, encantada, pegando carona nas folhas de papel e transportando-me para um mundo de fantasias. Sem certezas geográficas me descobria um andarilho na terra dos sonhos... Mas, o tempo transcorreu rapidamente e os ponteiros do relógio arrancaram-me, sem dó nem piedade, do meu mundo ideal... Cresci!

Hoje, longe da altura fértil da minha imaginação, pergunto-me: - o que mudou de lá para cá? Onde está a menina tímida e sonhadora que eu fui e em que páginas do livro da vida se esconde? Respondendo com sinceridade posso dizer que ela continua aqui - dentro. Nada, em mim, mudou... Com as letras do alfabeto eu ainda crio um mundo possível, habitável, belo e harmonioso. Com elas construo palavras e derrubo muros e castelos de indiferença, fazendo aos outros aquilo que gostaria que fizessem a mim. Tudo o que desejo de bom me faz sair do casulo em que me escondo para ir ao encontro do outro e, juntos, diminuir a distância, a dor e a solidão do abandono... E isso, eu aprendi nos livros que li e na vivência com pessoas especiais que cruzaram o meu caminho... Ao longo dos anos, nenhuma coleção de dores nem de fracassos, mudou a minha essência... Não nasci para ser exceção, quero ser regra. Quero deixar marcas do bem por onde passar.

Por isso, agora, quando a vida me surpreende com uma dor mais funda e exige-me uma coragem e fé que eu não acreditava possuir, pergunto-me: o que é que essa dor está querendo me ensinar? Em que recantos de mim buscar essa força para não sucumbir?

Então, recorro a minha memória afetiva e lembro-me das letrinhas coloridas nas mãos, das histórias infantis que li e de pessoas especiais que cruzaram o meu caminho. Com elas eu construí um mundo: bom, ético, solidário e harmonioso. Com elas eu descobri que só o amor salva... Cura! Amor, essa energia amorosa, a única capaz de me tirar do casulo do medo e da angustia de não saber como será o dia seguinte (quando se está numa UTI) e agradecer a vida por mais essa oportunidade de aprender, mesmo através da dor, a me transformar numa pessoa melhor. Obrigada a todos pelo carinho, pela amizade, pelas orações e, principalmente, por me fazer acreditar que o melhor do ser humano ainda está dentro dele.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Fraturas do Cotidiano











Hoje, quando os primeiros raios de sol despontarem no horizonte, eu desejo que o meu dia seja “escandalosamente perfeito”. É início de ano. Um tempo de renovação. Possibilidades em folha de escrever uma nova história e de restaurar as fraturas do cotidiano. Penso nisso e lembro-me da minha trajetória e, de que maneira, resolvi mudar o curso do meu destino.

- Quando eu nasci era uma página em branco e, sem querer, assinei um termo de concordância onde as pessoas escreveriam o que quisessem sobre mim. Indefesa, fiquei a mercê do humor, da boa vontade e, principalmente, da sanidade de quem tinha caneta, lápis e papel em mãos. Durante anos, me submeti a tirania do você, é assim e para sempre será, marca indelével dos que ferram o gado para garantir-lhes a propriedade... Esquecia-me, constantemente, de que alguém já dissera: - "crise é tormenta, mas também possibilidade de reformulação interior". Porém, ao atingir a maturidade, encontrei uma porteira entreaberta - um vislumbre de libertação - que me permitiu abrir a consciência, dar o meu grito de liberdade e livrar a minha alma do cativeiro...

- A partir de agora, disse eu, ninguém me dirá quem sou, nem o que fazer com os dias que me restam. Estou livre! Sou absolutamente responsável pelas escolhas e pelos caminhos que trilho. E, em sendo assim, liberto também os meus algozes... Parto para a vida de peito aberto, esquecendo os grilhões da tirania alheia.

E, foi dessa forma, com o coração de aprendiz, que eu olhei para o que foi vivido e, sem ter medo de reinventar o meu próprio percurso, interrompi a história que os outros contavam sobre mim, criando assim o filme da minha vida e assumindo de vez o lugar de protagonista que me cabia em cena...

Por isso, hoje, quando os primeiros raios de sol levantarem-se na manhã deste ano que se inicia, eu lembrarei do compromisso que assumi comigo mesma de que a ninguém mais daria o poder sobre a minha vida e sobre as minhas escolhas. E, que, 2015 não ficará restrito a apenas um dia, mas a um ano escandalosamente perfeito, naquilo que depender de mim. Feliz Ano Novo, Juliêta Almeida!



Créditos de Imagem:
http://existeumolhar.blogs.sapo.pt/