Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

terça-feira, 21 de julho de 2015

A Carta Que Não Enviei












Meu querido,


O escritor moçambicano Mia Couto nos diz que: “morto amado nunca para de morrer”. É verdade! Não é fácil se despedir, fechar portas e partir sem olhar para trás. Não sou dona do meu pensamento. Ele habita sítios de memórias e, vez ou outra, o senhor do lado esquerdo reclama a tua ausência. Nessa hora, sento-me diante do computador e os meus dedos executam uma dança cheia de alegria e esperança. É a coreografia dos meus sonhos, costurando lembranças e tecendo os fios do tempo para trazer-te de volta, pois à beira do abismo da tua ausência eu sempre crio asas e no tapete da imaginação, alço voos inimagináveis, sem as amarras das convenções. E é sobre isso que desejo escrever-te agora. Vou despir-me novamente em letras e fazer striptease dessa alma cansada de tanto esperar por ti.

Amo-te! Isso é fato. Quando partiste o meu coração ainda não estava pronto para te perder, uma parte de mim foi embora contigo e a outra ficou tropeçando nos restos de lembranças de nós dois. Por isso, escrevo, para juntar pedaços e reconstruir os caminhos que não palmilhamos juntos. Com as palavras eu teço um cobertor de ternuras e te cubro de amor nas noites de frio. Sou toda mulherzinha! Ponho a mesa e forro a cama. Rodopio em fantasias... Sou toda tua! Mas, as páginas em branco do amor que não vivemos, ainda continuam a me ferir o corpo e a alma. Não quero mais negar isso. Cansei de retocar a falsa porcelana do meu orgulho. Quero, a partir de agora, te acariciar com as palavras e atropelar as horas para que possamos, finalmente, ficar juntos e contar segredos de confessionário, entre beijos e murmúrios...

Por essa razão, eu te peço: vem! Mas vem logo, antes que eu te diga que é só uma tola saudade, essa mania de escrever cartas de amor, quando a canção da chuva toca de leve na janela do meu quarto... É que chove, lá fora!


quarta-feira, 1 de julho de 2015

O Olhar de Antônio











Há quem se perca no abismo insondável das palavras, no gargalhar profundo que os pequenos sinais emitem ou nas loas que as pessoas tecem quando se juntam para representar o teatro do absurdo. Eu, porém, gosto do silêncio do seu olhar, seu moço! Ele capta tudo o que reverbera dentro de mim, no momento em que as minhas mãos calejadas de sofrimento e dor cavam cada vez mais fundo a terra infértil. Gosto do seu olhar, seu moço, pois ele descansa as bocas das mentiras que os homens contam.


Crédito de Imagem: Antônio David