Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Uma Carta Para Luiz Augusto Crispim







Caro Jornalista,

Certa vez, eu escrevi: - “a minha casa é um país dentro do meu país. É a minha pátria de intimidades. Ela tem cor, cheiro, som, passos e lembranças. Ela tem história! E se me tiram o chão, eu me torno estrangeira de mim mesma.” Digo-lhe isto porque, hoje, ao caminhar em passos lentos pelas ruas da cidade de João Pessoa, senti-me estranha. Uma onda de nostalgia tomou conta dos meus pensamentos e me fez percorrer cada pedaço de chão, desse lugar abençoado, banhando-o com as lágrimas da minha saudade. É que, de repente, lembrei-me de como a minha casa foi cantada em versos e em prosa pelos seus dedos pintados de poesia, ternura e encantamento. Que falta que você nos faz, Luiz Augusto Crispim!

João Pessoa, não é mais a mesma! Falta-lhe alguém que a represente, endosse a sua fama de hospitaleira e alinhave com delicadeza cada retalho de sua beleza natural. Falta-lhe, caro jornalista, a eloquência da sua crônica diária, palavras tão benditas no Jornal Correio da Paraíba. Falta-lhe poesia e os olhos da sua memória, pois, quando você partiu, seduzido pelo brilho das estrelas, os dentes do tempo, vorazes, mastigaram todas as suas letras e um silêncio sepulcral caiu sobre a cidade. Ninguém mais ousou falar de amor a João Pessoa com tanta paixão e propriedade quanto você. Os Ipês Amarelos, descritos com tanto zelo e orgulho, a Lagoa, o Centro Cultural São Francisco, a Faculdade de Direito, o Ponto de Cem Réis e as Praias que tanto amava são, agora, palavras, apenas palavras esquecidas pela indiferença dos homens. A escrita, terreno onde o jornalista se deleitava e o poeta fazia florescer até a paisagem mais árida, foi silenciada. A cidade e toda a sua beleza cantada em versos e em prosa só existem, nesse momento, no rasto das suas letras. Que falta você nos faz, Luiz Augusto Crispim!

Por essa razão e porque sei que faz aniversário este mês, antecipo-me escrevendo-lhe esta carta só para dizer: a memória das suas palavras é o único presente que eu posso lhe dar. As suas crônicas sobrevivem em mim. Feliz Aniversário, Luiz Augusto Crispim!