Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Entardecer













Entre mim e o pôr do sol existe uma similaridade que está longe de ser apenas o mar de prata que banha os meus cabelos. Todos os dias disputamos o mesmo espaço. O sol, mal ele surge e eu já estou junto... Amanheço! Pés no mundo, ofereço-me como companhia e sugiro que aprendamos um com o outro. Ele sorri da minha pretensão, mas se junta a mim como uma sombra, esperando que o passar dos anos retire a venda que me cobre os olhos. Uma conversa de silêncios se estabelece entre nós. Então, pergunto-lhe: - se o tempo é um presente que a vida me oferece, qual é a época ideal para eu desfazer o laço das horas e aproveitar cada momento, sabendo-o único, se cada instante que passa contribui para que eu fique mais sozinha, desabrigada de afeto e órfã de esperança? E, antes que ele me responda, continuo. O tempo é um presente que me é ofertado a cada dia só para lembrar que vivo um adeus parcelado e que é necessário saber aproveitá-lo com sabedoria e discernimento, pois nem sempre haverá oportunidade de consertar o que foi feito... E, continuo falando, enquanto o sol me ouve em silêncio.

Em um mundo onde a velocidade dos minutos nos leva a uma busca frenética por prazer a qualquer custo, como saber o rumo certo, se olho em volta e sinto que caminhei muitas léguas sem ter dado um passo sequer em direção ao conhecimento que liberta? Como sair da solidão abissal produzida pelos meios de comunicação, que a toda hora assedia-me com promessas de felicidade e bem-estar, tornando-me refém de um consumo desenfreado, sem limite? Onde, afinal, está essa tal felicidade que vemos estampada nos outdoors, nas vitrines das lojas, no pregão da bolsa de valores e na tecnologia do século XXI? Será que a resposta para tudo isso está no computador e na sua incrível tecla de gerar prazer e alegria: curti-kkkkk?

Nesse momento, lembro-me da velha máquina de escrever e penso na inutilidade das letras, pois ao longo do tempo já foram construídas imensas bibliotecas, lugar onde dormem palavras, orações e períodos que os homens em sua azáfama de viver, insistem em ignorar. Ali estão registrados tudo o que a experiência humana vivenciou, mas de nada serve nesse breve instante que se chama presente. Pensativa, continuo refletindo sobre o tempo e a sorte dos homens: agora, eles partem em direção ao abismo do transitório, encantados que são pelas luzes dos holofotes de uma época que se esvai, sem ao menos se darem conta de quão breve é a vida. Pobres homens! Ignoram os livros –memorial de lembranças - o passado, a história e esquecem de quantos semelhantes se expuseram em carne viva para que eles fossem mais felizes. Pobres homens, cegos, surdos e mudos dispensam o convívio, a ternura, o carinho e se deixam iludir como crianças por um brinquedo de faz de conta... Brinquedo que anda lhes roubando o tempo e, em troca, devolve-lhes a tão sonhada felicidade numa tecla só: curti-kkkkk!

Enfim, depois de tantos questionamentos, o sol que até então se mantinha ao meu lado silente e sorria da minha inocência e da minha incapacidade de ver o quão distante estávamos ao amanhecer, fixa os seus raios sobre a nuvem de prata que banha os meus cabelos e gentilmente me diz: entardeceste!