Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

domingo, 31 de julho de 2016

Me Conte um Conto















Escrevo na tentativa de distrair a minha timidez... Um diário tardio de quem ao longo da vida acorrentou um espírito de criança, num corpo de mulher e, assim, viu nascer as primeiras rugas, os primeiros fios de cabelos brancos, a flacidez da pele e as cicatrizes, mas deixou preservada a alma desse estranho capricho da natureza a que damos o nome de tempo. É que dentro da mim só a linguagem da emoção faz barulho e, quando isso acontece, as dores e alegrias desaguam nas pontas dos dedos, como se fora um pincel, incentivando-me a pintar palavras e escrever histórias.

Nessa hora, pedaços do tempo, em seus tons sépia, desarrumam as gavetas da minha memória e tudo se transforma em saudades: a minha primeira boneca; o parque de diversões; o circo com seus trapezistas e palhaços malucos, (para aonde eu era levada pelas mãos do meu tio Francisco); os sabores dos picolés da Sorveteria Flórida; o algodão doce do seu João; o refresco de coco do seu Zé e o colégio Alfredo Dantas onde aprendi as primeiras letras com a professora Marly. Ando sentindo saudades de tantas coisas, principalmente do cheiro de terra molhada e do orvalho a salpicar lágrimas na horta da minha mãe; do balanço feito de tábua, travesseiro e corda a embalar os meus sonhos infantis; do pé de flamboaiã a ensinar-me como voar sem ter asas e dos fogos juninos a incendiar as noites do São João.

Nas minhas lembranças ainda estão hospedados os melhores lugares e momentos que vivi na infância: a ida à Livraria Pedrosa, depois de encerradas as aulas do colégio, e a rede de balanço onde eu lia todos os livros de histórias que caíssem em minhas mãos. Foi aí onde começou o meu hábito de leitura. Foi aí onde eu comecei a brincar com as palavras e foi aí onde eu deixei o meu coração de menina habitar para sempre a casa dos sonhos.

Por isso, quando chove saudades no terreno das minhas lembranças e o cheiro da grama molhada me faz criança outra vez eu caminho pelo calçadão da memória onde tempo é saudade e peço a minha mãe, que há muito partiu, encantada pelo brilho das estrelas:

- Minha mãe, me conte um conto! E, ela, ocupada, responde:

- Depois eu conto!



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