Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sábado, 3 de outubro de 2009

Com a Vida nas Mãos





O aborto continua a ser discutido em todas as camadas da nossa sociedade, provocando debates calorosos e acirramento nos ânimos, de quem é a favor ou contra esse tema tão controverso.

Muito se tem falado sobre o assunto e várias são as razões pelas quais se busca um consenso. Debate-se o direito das vítimas de estupro, das gestantes com gravidezes de risco de morte e, ainda, daquelas em que há possibilidade da criança nascer com grave deficiência. Os que defendem a legalização invocam pra si, entre outros argumentos, o direito de escolha baseado no princípio da liberdade, arrazoado esse que encontra eco em boa parte dos que levantam a bandeira do aborto, como um direito inalienável de se dispor do corpo como melhor lhe aprouver. Afirmam que, descriminalizá-lo é tirar da clandestinidade uma prática que tem provocado problemas de saúde e morte, de um incontável número de mulheres expostas a toda sorte de procedimentos malfeitos, quando realizados por pessoas que não têm habilidade nem conhecimento específico para tal prática.

Ainda que pesem todos esses argumentos, os que lutam contra essa ideia alegam aspectos legais, éticos, morais e religiosos para proibir a sua legalização. Debate-se, por exemplo, o direito da gestante sobre o feto e a partir de que momento ele pode ser considerado humano ou vivo (se na concepção, no nascimento ou em um ponto intermediário). Discute-se a dor pela qual passa o feto durante o procedimento e as conseqüências psicológicas na vida da mulher. Põe-se abaixo, ainda, o argumento de que uma criança indesejada teria sérios problemas no futuro, uma vez que não se pode medir o que seria bom ou ruim na vida dela, se lhe tiram o direito de escolha, entre a vida ou a morte. E além do mais, alegam a favor do seu discurso que a vida humana pertence a Deus.

Por todos esses aspectos, percebemos o quanto é difícil nos posicionar, tendo em vista que o tema ainda será motivo de intensos debates, a fim de que se encontre uma solução que passe pelo respeito à vida e a preservação dos direitos humanos, que tenha na liberdade o seu maior símbolo. Enquanto isso, só nos resta esperar que o bom senso prevaleça para que, no futuro, possamos decidir, livre e conscientemente, sobre matéria tão polêmica.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Cárceres da Vida














Se eu pudesse fatiar o tempo e transformá-lo em pequenos pedaços, certamente construiria uma bela colcha de retalhos, feita das minhas lembranças e tecida ao som dos acordes que encantaram a minha vida. Dirão alguns: mais isso é saudosismo! E eu respondo, é sim senhor!

Sou cria das águas da chuva, dos córregos, das árvores, dos contos de fada, do atirei o pau no gato tô tô e do tempo em que a palavra saudade era sinônimo de bem viver. Tenho as raízes da minha infância fincadas no chão batido das boas recordações e por isso vivo imersa em lembranças que não me deixam esquecer as brincadeiras que, hoje, veem à tona pelas lentes do passado: bastava o céu escurecer e lá estava eu, sorriso aberto abraçando a chuva que lavava o corpo e banhava a alma sedenta, das águas de março. Fui moleca de subir em árvores, telhados, de jogar com bolas de gude, de brincar de amarelinha, de venda, bambolê, esconde-esconde, casinha e outras atividades lúdicas que deram um colorido intenso ao meu viver.

Saudade é sempre um tema recorrente quando nos deparamos com outra maneira de viver a idade da inocência e da alegria: são crianças trancafiadas em casa, encarceradas na solidão dos apartamentos, privadas do exercício das descobertas e algemadas junto ao televisor, sendo induzidas pelo consumo desenfreado numa vida cada vez mais faz de conta. São infâncias roubadas, em nome da conveniência de adultos hipnotizados pela cultura do ter e vítimas da cegueira de um tempo que esquece de dar tempo e sentido, ao que é viver (...).

Estou sempre a me questionar sobre o futuro dessas crianças adultas, isoladas e solitárias. Em que vãos se escondem as suas almas infantis e em que época de suas vidas poderão algum dia, resgatar à infância perdida? A resposta talvez esteja andando por aí, de mãos dadas com as drogas, o alcoolismo, o suicídio e também, na solidão dos cárceres da vida adulta.