Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O Voo de Gibinha












Quando eu era criança ouvi a minha mãe dizer: “ filha, quando você receber um regalo não desfaça o embrulho de imediato. Primeiro, contenha a sua ansiedade, observe o cartão que vem junto, abra-o, só após ler o conteúdo, agradeça. É feio desfazer a fita antes de ler o que está escrito, pois as palavras têm significados maiores que o próprio mimo.” E eu ficava a matutar sobre aquilo que ouvira. Hoje, constato que tantas décadas se passaram, mas as palavras da minha mãe continuam provocando-me o mesmo estranhamento. Faltam poucas semanas para eu receber o maior e mais importante de todos os presentes: o seu pouso em minha vida. Então, pergunto-me: como posso agradecer por algo que os meus olhos não viram? Como ler um cartão que ainda não me foi entregue? Por enquanto, apesar da estranheza, procuro nas palavras a justificativa para o meu espanto. Daí em diante, sou só gratidão!

Gibinha, há quase 37 semanas recebi o anúncio do seu voo. Confesso que fui surpreendida pela notícia. Não esperava por ela tão cedo e os motivos pelos quais eu reafirmei a minha surpresa, não pareceram tão óbvios... Nada a ver com a passagem do tempo, a idade, o envelhecimento, tampouco com a carga de significação, que a notícia sempre trouxe para boa parte das mulheres. Não estava preparada para ser avó. Como assim, eu avó? Ninguém me perguntou se eu queria! Passei dias, semanas, meses para me acostumar à ideia de que você iria entrar em minha vida e sem permissão invadiria as minhas horas tornando as minhas noites insones. Acabou-se o meu sossego, pensei. Logo agora, com a vida estabilizada, os filhos criados, independentes e os dias livres para organizar o tempo como bem me prover. Recorri às lembranças do passado. Uma lista de motivos intermináveis justificou os meus pensamentos... Vai começar tudo, de novo!? Longas noites de vigília a espantar preocupações quanto ao seu futuro, ao seu caráter e a sua maneira de viver. Nenhuma certeza de que o investimento em horas de amor, carinho, renúncia, dedicação fariam de você um homem íntegro, ético, valoroso. Um ser humano melhor, comprometido com as causas sociais, lutando por um mundo mais justo e igualitário. Não há garantia sobre isso. Nenhuma certeza de que as longas horas a olhar para o relógio - depois de você ganhar às ruas, o trariam de volta ileso para os meus braços. Nenhuma certeza, aviso ou premonição de que novos tempos serão sem injustiças, nem violências para minimizar as minhas dores e angustias!? Apenas, inquietações acelerando o ritmo cardíaco, quando um filme em retrocesso passa diante dos meus olhos em momentos de incertezas. Eu já vivi isso, penso. Por isso, passado o espanto inicial e ainda sem ter desfeito a fita que amarra o novo presente, como minha mãe recomendou-, debruço-me nesse momento sobre as teclas do computador a catar letras que retirem as impurezas dos meus pensamentos e abro as minhas asas para dar-lhe proteção e boas-vindas. Faltam poucos dias para eu ganhar o presente, mas quem vai ler o cartão dessa vez é você. Que nas asas do seu voo lhe acompanhem a saúde, a generosidade, a compreensão e a alegria de viver no amor. E, também, o compromisso de fazer aos outros aquilo que gostaria que fizessem a você. Seja bem-vindo, Gibinha!​


Crédito de Imagem: Armindo Alves. Um amigo com poesia no olhar. Um cronista visual.

Um comentário:

chica disse...

Que lindo presente a vida vai te dar. Que GIBINHA chegue bem e viva rodeado de saúde e muito amor! Parabéns! beijos, chica