Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Eu e as minhas Sombras - Pecados Inconfessos

 






“Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Esta citação refere-se à passagem bíblica (Jo 8,7), na qual Jesus é convidado a manifestar-se sobre o apedrejamento de uma mulher surpreendida em adultério.

Outro dia, um texto divulgado nas redes sociais trouxe-me à lembrança a frase acima. A revolta, a indignação, o ódio e o preconceito saltaram-me aos olhos naquela escrita e, nas entrelinhas, uma suposta perfeição moral e religiosa de quem publicou aquelas palavras. De onde vieram os pensamentos e sentimentos contidos naquela página? Esta foi a pergunta que me fiz e que deu origem ao tema em questão.

Durante décadas, eu procurei viver cristãmente e participei de todos os ritos sagrados instituídos pelo Catolicismo: batismo, confirmação, eucaristia, penitência, matrimônio, unção dos enfermos e confissão. Porém, devo dizer que houve uma ocasião em que eu me senti envergonhada de professar a minha cristandade. Isto aconteceu na Páscoa de um tempo pretérito. Como bom penitente, enquanto estive na fila do confessionário, esquadrinhei todos os recantos da memória a busca de pecado e nada encontrei contra as minhas virtudes, pureza e religiosidade.

Então, quando se aproximou o momento da confissão senti-me vestida de santidade e, entre perplexa e lisonjeada, interroguei-me:

- Estarei a caminho da iluminação!?

Naquele instante, um profundo mal-estar invadiu-me. Foi o prenúncio de um futuro inventário de culpas capaz de destruir a catedral da minha suposta perfeição moral e religiosa... E foi isto o que aconteceu ao longo dos anos seguintes. Depois daquela situação, eu revisei a minha configuração mental e passei a observar com um olhar mais crítico as minhas atitudes, os meus pensamentos e os sentimentos que eles provocaram em mim, principalmente, a soberba.

Em função disto, passei também em revista todas as minhas crenças a respeito do mundo e decidi fazer uma imersão na história de vida de cada pessoa que cruzar o meu caminho, antes de julgá-la. Nunca a frase: - “ quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”, fez tanto sentido para mim.

Eureca! Desfez-se a santidade, a iluminação e a minha suposta perfeição moral e religiosa. Afinal, por meio desta citação, eu compreendi que também tenho sombras e pecados inconfessos.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Uma Carta para Nana Lins - O Perfume do Tempo

 


 









Quando os primeiros raios de sol do ano de 2022 tingiram a madrugada de luz e cores nenhuma viagem, presente, festa ou lembrança do tilintar das taças de champanhe cobriu o deserto, a dor, a solidão e o buraco existencial que alguns carregaram dentro do peito. O ano de 2021 desabrigou afetos, enlutou famílias e deixou histórias inacabadas. Estamos todos ressabiados e com muitos medos. Uns mais, outros menos. Todavia, a pulsão pela vida continua e, por esta razão, quando as águas deste mês de junho caem fertilizando o terreno das minhas lembranças eu volto a me habitar.

Neste momento, o perfume do tempo insiste em espalhar fragrâncias lembrando-me que há muita vida lá fora, enquanto construo grades aqui dentro. Por isso, decido rasgar o véu do silêncio e retomar a escrita. Desta vez, um texto íntimo para falar sobre a minha primogênita.

Quando o receio da sua morte, em julho de 2021, assolou as portas do meu coração, senti-me devastada. Em minhas mãos o diagnóstico Glioblastoma de IV grau (selvagem) prenunciava uma vida breve. Paralisei! Quis dar asas às palavras para que elas alçassem voos e me libertassem do medo, da dor e do sofrimento, mas foi tudo em vão. A casa de dentro desabou e eu vi cacos em volta de mim. Perdi a lucidez! Durante dias ruminei ideias fúnebres. Estava tudo desarrumado aqui dentro. Foi aí que lembrei de quem sou: mãe, um território sagrado! Um lugar de força, fortaleza e coragem... Um não sentir medo, dor, tristeza, ansiedade, tampouco demonstrar fraqueza.

Esta carta é para falar sobre você, “Nana Lins”, mas diz muito de mim como mãe, sinônimo de amor, fé, coragem e resiliência. Por isso, revolvo as gavetas do meu sítio de memórias e o perfume do tempo traz lembranças de nós duas, desde o ventre.

Há dias, você pediu para que eu comprasse um álbum onde coubesse mais de quinhentas fotos. Queria organizar as imagens dos seus afetos, dos amores e das viagens antes que elas se apagassem dentro do seu cérebro. Um exercício para a mente. No entanto, as suas fotos ultrapassavam a casa dos mil. Não consegui encontrar o tal álbum. Pois bem, a partir de agora eu também sou o seu santuário de memórias e passo a relatá-las aqui.

Nana Lins” nasceu em 06 de agosto de 1977, às 15h de um sábado mais que esperado. Foram cinco meses de ansiedade até que o teste de gravidez desse positivo. Foram nove meses tecendo sonhos e bordando fantasias sobre como seria o rosto e o sexo do meu primeiro bebê. Sonhava e desejava que fosse uma menina. Aí você chegou provocando sustos. Foi logo me levando para o balão de oxigênio e durante os anos seguintes continuou tirando o meu fôlego... Estreou na passarela da vida em grande estilo, como uma boa leonina, chamando a atenção para si mesma. Depois disso, nunca mais os seus dias passaram em branco. Nem os meus. Tudo era festa, presentes, luzes e cores, porém o trono, a coroa e o palco foram sempre seus. E eu que me “virasse nos trinta” para realizar todas as suas fantasias: festas de aniversário, festas de Natal (eu caracterizada de Mamãe Noel) árvores natalinas (algumas) enfeitadas de bombons e chocolates, festas da Páscoa (ovos de chocolates escondidos pela casa) decoração do quarto de dormir com direito a luzes de camarim, coleção de papéis de cartas, visitas à livraria de seu Bartolomeu, compras de brinquedos, principalmente, de bonecas Barbie e seus adereços, bicicleta, patins, etc. Teve também a época da dança, do curso de balé no Studio de Enock e depois em Stela Paula. E, as viagens?

No Brasil foram tantas, a começar por Pernambuco aonde fomos várias vezes atraídas pelo brilho das lojas do Shopping Center Recife. A princípio, quando você ainda era uma criança em busca de brinquedos e depois, na adolescência, desejando comprar roupas de marcas. A Loja Mercearia era uma das suas preferidas. De lá, voltávamos felizes e carregadas de presentes, já pensando na próxima viagem.

Então, você foi crescendo e as prioridades mudando. Pediu para sair do Colégio das Lourdinas, queria estudar no Colégio PHD, um lugar onde os gatinhos fervilhavam na hora da saída. Tempos de flores e de paquera! Fez novas amizades e conservou as antigas: Bia, Claudinha, Ana Cristina, Dani Quirino, Bela, Flavinha e Fábia. Amizades para a vida toda, baseadas no afeto, na solidariedade, na compreensão, na tolerância e na aceitação das diferenças.

No dia 14 de maio de 1992, Nana Lins dá um salto para a maturidade. A morte precoce de seu pai mudou não só a nossa estrutura familiar, como também, provou que em todas as perdas há um ganho. Amadurecemos todos física, emocional e economicamente... Depois do luto, a vida seguiu e os dias começaram a ficar ensolarados, até o sonho de ir a Disney tornou-se possível. A partir de então, festas, reuniões, mesas fartas e a garotada alegre faziam da nossa casa um ponto de encontro... Um lugar feliz! A turma do PHD, do Colégio das Lourdinas e da Cultura Inglesa estavam sempre presentes. E eu, além de mãe, virei fada madrinha. Você sonhava e a varinha mágica entrava em ação.

Lembra da festa surpresa dos seus dezoito anos? De dentro do bolo saiu uma passagem para a sua primeira viagem internacional, sozinha. Inglaterra era o destino. Neste país foi duas vezes: Uma para Londres e outra para Leeds. Na volta, comemorávamos com muitos abraços, alegria e mesa festiva. Ah! Nana, as histórias de viagens, festas, surpresas e comemorações foram tantas que preencheriam páginas e páginas em branco, porém não quero me alongar mais do que já o fiz, para não cansá-la. Vamos relembrar um passado mais recente.

Quando você passou no vestibular da UFPB inaugurou uma época de conquistas e prêmios. A licenciatura no curso de letras (Inglês) a levou para longe de nós. Faria o Mestrado e o Doutorado em Florianópolis, (Santa Catarina) e passaria onze meses morando em Leeds, na Inglaterra. Posteriormente, foi morar na Austrália por seis meses e, anos depois, passaria alguns meses na Argentina, em um Pós-Doutorado. O perfume do tempo incensou os seus dias. A essa altura você já havia passado em três concursos nas Universidades: UEPB, UFCG e, finalmente, na UFPB. Nesta, virou pesquisadora do CNPQ e inscreveu o seu nome no mundo acadêmico. Tornou-se Analista da Linguagem Verbal e Visual. Participou de bancas, de palestras, organizou um livro (com outros professores) e abriu um congresso no Chile. Neste universo acadêmico inscreveu o seu verdadeiro nome: Danielle Barbosa Lins de Almeida.

No entretanto, a vida, seus mistérios e o inesperado se fizeram presentes a partir do dia 22 de julho de 2021. O diagnóstico de um Glioblastoma de IV grau (selvagem) surgiu no momento mais feliz da sua vida. Em junho deste mesmo ano, você se inscreveu no concurso “Vozes de Cabedelo”, se descobriu cantora e adotou o nome de “Nana Lins”, uma justa homenagem a seu pai que a chamava de “Nana”. Conseguiu chegar a etapa semifinal e, apesar de não vencer o concurso, foi incentivada pela pianista Sandra Lemos a investir em aulas de canto.

Em 29 de julho de 2021 você foi operada. Dois dias antes da cirurgia, queimou vários diários onde escrevera relatos sobre viagens, vitórias, intimidades, dores e angustias. Encerrou as suas contas nas mídias sociais e fez um único pedido: - que a página “Nana Lins” no “Instagram” permanecesse aberta e alimentada. Nascia ali o desejo e o sonho de permanecer cantora, apesar das dificuldades do presente.

Pois bem, “Nana Lins”, a sua página continua aberta deste então e a sua voz continua se fazendo ouvir, embora ainda precise amadurecer com aulas de canto, muito estudo e determinação. De minha parte, como mãe e fada madrinha eu reafirmo o compromisso de cuidar de você e lhe colocar de pé, quiçá cantando em cima de um futuro palco, para que a sua luz continue brilhando. Hoje, somos só nós duas dentro do meu apartamento lutando pela sua vida, mas, lá fora, há muita gente boa, generosa, empática e solidária orando e intercedendo pela sua saúde. Faça jus a esse amor, não desista de lutar!

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Lições da Pandemia – A Face de Deus

 























Por esses dias, andei lembrando das frases ‘educativas’ de minha mãe. Ela nasceu em 1901 e morreu no ano de 1982. As mães de sua geração educavam os filhos com o olhar. Um simples mirar indicava aprovação ou castigo. E quando abriam a boca não havia, como era de se esperar, um manual de instruções de bom comportamento a ser entregue. Tudo o que elas achavam necessário para o nosso aprendizado era resumido em pequenas frases:

“- Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.

“- Diz-me com quem anda e dir-te-ei quem és”.

“- A boca fala do que o coração está cheio”.

“- A lei do retorno é implacável”.

“- De tudo podemos tirar uma lição”.

Pois bem, de todas essas sentenças proferidas por minha mãe, a última é uma lembrança assídua nesses tempos de pandemia. Eu preciso me situar, entender como tirar lições dessa tragédia.

Obviamente, que a essa altura dos acontecimentos todos já sabemos dos efeitos nefastos da Covid-19, todavia, quero deter-me no lado positivo dessa doença. Porque há, sim, de acordo com as palavras de mãe Julia, uma lição a ser aprendida. Portanto, eu vou seguir a sua orientação e procurar o lado bom da experiência de viver em tempos pandêmicos.

Na infância, eu tive aulas de catecismo e fiz a primeira comunhão. Durantes décadas fui à igreja, assisti à celebração das missas e participei da eucaristia. Adorava as leituras do Evangelho, suas metáforas e os seus ensinamentos.

Porém, em todas as ocasiões havia um desejo latente: queria encontrar Deus e conhecê-lo melhor. E nenhum lugar era mais apropriado para esse encontro do que a casa Dele. Entretanto, na inocência da minha fé, eu estranhava quando via aquele Homem pregado no madeiro e me perguntava:

“- Como posso ter intimidade com um Ser que não desce do alto de sua Cruz”?

E voltava para casa triste e desesperançada. Nunca haveria de encontrar aquele Homem frente a frente.

Então, em março de 2020, surgiu a Covid-19 e, por meio dela, eu pude ver a Face de Deus. Já não precisava mais ir à Igreja para encontrá-lo. Ele estava disponível para mim e para qualquer pessoa que o procurasse. Naquele momento, eu entendi que a morada de Deus é dentro de nós!

E eu tenho um encontro com Ele todos os dias, quando vejo o seu rosto nos que dormem nas marquises dos edifícios, nos que habitam debaixo dos túneis das grandes metrópoles, nos que estão nos sinais de trânsito, nas Cracolândias das cidades, nas prisões superlotadas, nas portas dos hospitais implorando por um leito, e ainda, nos imigrantes que navegam por dias e noites fugindo da guerra, da fome e da miséria em busca de solidariedade, de afeto e de abrigo.

Eu tenho um encontro com Ele quando sinto a dor dos órfãos e dos desempregados da pandemia. Eu tenho um encontro com Deus quando, em nome Dele, acolho o diferente sem fazer perguntas. Quando entendendo a necessidade do próximo eu ofereço ajuda sem que ele precise estender a mão.

Eu tenho um encontro com aquele Homem da Cruz quando perdoo a quem me ofende, a quem fala mal de mim, a quem trai a minha confiança e se ausenta quando eu mais preciso de apoio.

Deus mora dentro de mim! Ele está dentro do meu coração quando eu olho para os meus irmãos de qualquer raça, etnia, orientação sexual ou condição financeira sem nenhum preconceito.

O Deus que habita em mim convida-me a ir à igreja quando eu preciso de paz, tranquilidade e silêncio para refletir sobre a multidão dos meus pecados e para participar da eucaristia. Contudo, quando termina a celebração, é dentro de mim que eu o encontro, porque acredito nos ensinamentos e na força das palavras do evangelho:

- “ Tudo o que fizerdes ao menor dos meus irmãos, a mim o fazeis”. (MT 25,40).

Em vista disso, eu tenho um encontro com Ele todos os dias quando abraço, dou ouvidos e escuto atentamente a dor do outro. É nele, nesse outro, que eu vejo a Face de Deus quando respondo ao apelo silencioso dos seus olhos e do seu coração famintos de fé e de esperança.

A minha mãe tinha razão quando dizia:

“- De tudo podemos tirar uma lição”.

A Pandemia exibiu o lado mais cruel da Covid-19. A essa altura, mais de quatrocentas e trinta mil pessoas perderam suas vidas e deixaram órfãos os seus afetos.

Entretanto, tanto eu quanto milhões de pessoas tivemos o privilégio de ter um encontro com o Homem da Cruz e, por seu intermédio, aprendermos a lição do amor, da empatia e da solidariedade. A Face de Deus está no outro!



domingo, 21 de março de 2021

A Menina e o Mistério dos Porquês

   









Ela assistiu ao filme Marcelino Pão e Vinho, quando ainda era uma criança acostumada a percorrer vários quilômetros atrás da procissão do Senhor Morto. De imediato, desejou ter com aquele Homem pregado na Cruz a mesma intimidade da qual desfrutava o menino que protagonizava a película. Apesar de sua pouca idade, já ensaiara vários monólogos com a imagem de Jesus, colocada acima do piano, da sala de estar. Como Marcelino ela também tinha várias perguntas sem respostas.

Usava todos 'os porquês' que a gramática colocava a sua disposição. No entanto, o silêncio da imagem se impunha. 'Porque' junto indicando causa, justificativa ou explicação perdia a serventia. Estava instalado o Mistério! E a menina, perseverante, ainda gastaria muitos dias, durante anos, neste solilóquio. Costumava ouvir de algumas pessoas:

"- Jesus falou comigo!"

Ela, que Dele não obtinha resposta, sentia-se pequena diante daquele Ser pregado na Cruz. Sabia-se imérita, mesmo assim, insistia:

"- Jesus, fala comigo!"

Então, à medida em que ela crescia em estatura ganhou experiência, conhecimento e sabedoria. Aos poucos, foi-se fazendo luz sobre o Mistério dos 'Porquês'.

Certo dia, ela deitou-se na rede que estava armada na varanda de sua casa e viu descer do caminhão da prefeitura, cerca de vinte pessoas, entre homens e mulheres. De pronto, os 'porquês' entraram novamente na sua rotina. Ela elevou os olhos para o Céu e perguntou:

"- Meu Jesus, 'por que' tanta injustiça? Enquanto refestelo-me numa rede, estas pobres criaturas vêm capinar ao sol a pino e, em muitas ocasiões, sem terem se alimentado bem durante todo o dia."

"- Responda-me Senhor, 'por quê'?"

Naquele momento, a menina que não se julgava merecedora de falar com o Homem da Cruz, sentiu uma voz ecoar dentro de si.

"- E se você estivesse entre estas pessoas o que gostaria de receber?"

Ela não hesitou na resposta:

"- Eu gostaria de receber um lanche, porque a esta hora do dia devo estar com fome."

Então, Jesus lhe disse:

"- Levanta-te da rede! Prepara um lanche e ofereça a eles."

"- Não se preocupe mais com 'o porquê' da fome, da miséria, do abandono, da injustiça, da desigualdade social e do preconceito"... 'Porque' junto significa causa, justificativa ou explicação... Ponha-o em prática!

De agora em diante, faça ao outro aquilo que gostaria que ele fizesse a você, nesta ou em qualquer ocasião em que a necessidade de amor, solidariedade e empatia se fizer presente. Esta é a lei do Amor e causa, motivo, justificação ou explicação de você estar no mundo.

E foi a partir daquele dia, que a menina aprendeu tudo sobre o Mistério dos Porquês. Enfim, entendera que todos eles respondem a uma única pergunta:

"- E se o outro fosse você, como gostaria de ser tratado?"

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

O Terço da Gratidão

 








Nesta manhã que principia uma quarta-feira de cinzas do ano 2021, eu dobro os meus joelhos diante da imagem do Sagrado Coração de Jesus e resgato a minha . O fio condutor para a prece que se inaugura foram os versos do poema de Janete Manacá:

“ - na ânsia de não me perder

ampliei tanto a visão

que vi flores nas

pedras do chão. ”

Sim, tenho visto flores nas pedras do chão nesta época de pandemia da Covid-19. Os meus olhos, antes enevoados, abriram-se para as graças em abundância que tenho recebido do Altíssimo. Por isso, se faz necessário, neste momento, rezar o terço da gratidão:

Graças eu vos dou, Meu Deus, pelo sopro de vida que ainda habita em minhas entranhas. Graças eu vos dou pelo pão que amanhece sobre a minha mesa, pela água que sacia a minha sede, pela luz que ilumina os meus passos, pelo trabalho que paga as minhas contas e pela precariedade que não bateu à porta da minha casa.

Graças eu vos dou, Meu Senhor, pela vida dos meus filhos, do meu neto, dos meus parentes e dos meus amigos. Graças eu vos dou por dialogar com a minha consciência e, por meio dela, resgatar em mim a , o respeito e a compaixão pelo outro.

Quantos ainda sofrem no leito de um hospital, outros à espera de uma vaga e, muitos ansiando pelo ar que lhes falta? Inúmeros já partiram sem poder despedir-se dos seus afetos, e milhares viraram estatística em um país em desgoverno. Tantos ficaram órfãos, outros perderam o emprego e, alguns o seu único ganha pão.

Meu Deus, quantos dos meus semelhantes vivem em asilos, em orfanatos, nas marquises dos edifícios, nas ruas da Cracolândia e nos mares da imigração abandonados à própria sorte? Quantos pegam em armas para defender uma guerra que não é sua? Quantos nas filas dos desempregados, nos sinais de trânsito e nas portas dos supermercados? E, até quando?

Por tudo isso é que, hoje, quarta-feira de cinzas do ano de 2021, eu lanço mão do poema de Janete Manacá e ponho a minha consciência de joelhos. Neste momento, faço das contas do meu terço, pedras/flores e rezo com gratidão.

Obrigada, Senhor!


domingo, 17 de janeiro de 2021

A Tua Mão Benfazeja

 













 Nascemos folhas de papel em branco e, ao longo da vida, vamos rascunhando a nossa biografia. Durante o processo de caminhar somos auxiliados por várias pessoas. Algumas têm mãos benfazejas, nos indicam rotas seguras, caminhos menos tortuosos.  Entre todas elas, podemos escolher heróis, ídolos, gente importante ou gente comum a quem admirar e seguir.  
    Eu escolhi a ti, meu Pai! Contudo, cuidado onde pisas! E para aonde os teus pés me levam. 
    Não escolha ser herói, nem ídolo! Tampouco, importante... para que a vida não te roube o tempo da minha educação. 
    Seja só humano. Demasiadamente humano, para observar e entender os meus passos incertos, o meu andar vagaroso, as minhas opções equivocadas, as minhas dúvidas, ansiedades e inseguranças.  
    Não exijas que eu pise firme em terreno no qual já deixaste as marcas dos teus sapatos. Este foi o teu caminho... A tua experiência. Deixes que eu escolha o meu e exercite o aprendizado. 
    No entanto, não hesites em estender-me as mãos quando eu buscar por auxílio, pois esta é maneira que eu tenho de mostrar respeito e admiração pela forma como conduziste a tua vida.  
    Não te envergonhes do teu currículo pouco extenso, nem da tua biografia sem grandes feitos. Quero-te simples, bondoso, compassivo...  Humano! Já o disse. E que te mantenhas a alguns passos de distância durante a minha trajetória, porém ao alcance das minhas mãos estendidas. 
    Quando eu errar, não me condenes! Não me critiques! Apenas, observa.  E, quando solicitado, ajuda-me!
    Quando eu estiver indeciso, hesitante, irresoluto, não me fales das tuas conquistas, nem dos teus acertos...  Eles são frutos das tuas escolhas, não das minhas. Eu ainda sou um aprendiz do caminho que escolhi. Posso mudar de rota, ajustar os passos e rever decisões. 
    Todavia, se mesmo assim, eu permanecer no erro, seja colo e abrigo quando eu buscar refúgio, pois foi tua mão benfazeja que orientou os meus primeiros passos e é em ti que eu me espelho.  
 
 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Reflexão em Época de Pandemia

 








O ano de 2020 ficará marcado em nossa memória como um lembrete de Deus – para quem Nele acredita. Um aviso, um conselho, quiçá uma advertência amorosa de um pai atento aos desmandos dos seus filhos.

A azáfama diária com a qual conduzimos as nossas vidas até o advento da Covid-19, não nos permitiu o benefício da reflexão. Tínhamos pressa em viver, em aproveitar a vida... Cada mergulho na superficialidade dos dias era comemorado com um flash. O caráter efêmero das coisas e da nossa existência não nos preocupava. Julgávamo-nos imortais.

Então, apareceu a pandemia e, com ela, a necessidade de refletirmos sobre valores, comportamentos, atitudes e ações que deverão nortear a nossa caminhada daqui para a frente.

A soberba, a empáfia, a vaidade, a ignorância e o egoísmo de alguns são substantivos que, agora, repousam sob a lápide do esquecimento, advertindo-nos de que ninguém é uma ilha e de que juntos somos mais.

Não nos cabe, aqui, investirmo-nos no cargo de juízes da humanidade, nem ditar padrões e normas do que é certo ou errado em relação ao negativismo e ao pouco caso sobre a pandemia.

A cada um é dado o direito a escolhas e às suas consequências. Mas a verdade é que a Covid-19 destronou a nossa arrogância, obrigando-nos a substituir tais substantivos por outros que possam adjetivar a nossa essência: bondade, solidariedade, caridade e empatia. Este último o melhor termômetro para medir o caráter das pessoas.

A empatia nos faz enxergar, compreender e colocarmo-nos no lugar do nosso semelhante. Este outro ser que tem o sagrado direito de viver com a mesma dignidade que almejamos para nós. Quando subtraímos dele, este direito, elevamos o nosso egoísmo ao mais alto grau de incivilidade.

Por esta razão é que vale a pena, em qualquer circunstância, assumirmos o lugar do outro e perguntar:

- E se fosse comigo ou com a minha família, o que eu faria?

Pois é, a dor do mundo tem de ser a minha dor! Somos todos habitantes de um mesmo planeta e sujeitos aos mesmos problemas.

A mesa farta, a opulência, o emprego, o acesso à saúde e à educação não são garantias “ad aeternum”. Tampouco a fome, a miséria, o desemprego e a ignorância. A roda gigante gira. As coisas mudam de mão, de direção e de sentido. Temos exemplos na política e nas grandes fortunas que não nos deixam mentir. Um dia estamos no pódio da vida, noutros deixamos a vida palaciana e beijamos a lona.

O ano 2020 e a Covid-19 são um convite à reflexão. Ou mantemos a nossa vigilância e mudamos as nossas atitudes e escolhas, ou descansaremos muito em breve sob a lápide do esquecimento. A Covid-19 vai passar... As pessoas passarão!

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Ting Liguin Ting– Olha o Cavaco Chinês!

 

 









As lembranças são colchas de retalhos que nos agasalham em tempos de frio, solidão e saudades que irrompem sem aviso prévio. Algumas delas – as saudades - são motivos de celebração. Elas se manifestam pelas frestas da memória quando um olhar, um som, um cheiro ou perfume desperta os nossos sentidos. Desta vez, foi uma imagem! Imagem que evocou um som: ting liguin ting... olha o cavaco chinês!

Esta imagem, e este som agradável que ecoou durante anos em meus ouvidos, chega hoje à Igreja Catedral, em Campina Grande, pelas mãos de Maristela Feitosa. Uma amiga de infância.

Ao abrir a página do Facebook encontro a fotografia do cavaco chinês e a sugestão dela para um possível texto. A princípio, pensei em rechaçar a proposta. Tinha o argumento na ponta da língua: não sei escrever por encomenda!

Então, recordei-me da hóstia que recebi durante a minha primeira comunhão e vi analogia entre ela e o cavaco chinês. Ambos, remetiam-me ao território sagrado da infância.

Na década de 1950, eu recebi o sacramento da Eucaristia. Um encontro que selou a minha intimidade com Deus. Naquele dia, eu alberguei, nos cercados da memória, a recordação mais doce de que eu tenho do Pai.

Aos meus olhos de criança, Ele tornou-se alimento para o meu espírito, em forma de cavaco chinês. Na inocência dos verdes anos eu deduzi que os dois – cavaco chinês e hóstia - tinham a mesma textura e sabor. Um e outro lembravam infância, pureza, fé e alegria.

Hoje, eu constato que eles também têm sabor de saudades! Saudades que evocam a presença do Invisível, em uma oração sem as palavras costumeiras...

A meu ver, no ato de receber a hóstia – com a textura que lembrava aquela guloseima - Deus humanizou-se para hospedar-me. Ele se ofereceu em amor, refúgio, fortaleza e agasalho para os tempos frios e solitários que estavam por vir.

Pois bem, neste momento, a saudade veio para redimir-me! Ao cobrir a nudez dos meus pensamentos com a colcha de retalhos feita de lembranças, lembrei-me de que os sinos dobraram por mim, naquele dia, da minha primeira comunhão, na Igreja Catedral, em Campina Grande.

Era o Pai, o Filho e o Espírito Santo perdoando os meus pecados e dando-me boas-vindas!

Gratidão, por lembrar-me Maristela! Cavaco chinês é “sinônimo” de perdão e celebração.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

A Dor do Outro Quanto Custa ao seu Bolso?

 















As eleições estão se aproximando. A propaganda eleitoral gratuita começou nas rádios e TVs do nosso País. Em época de pandemia não pode haver comícios, nem abraços, tapinha nas costas, tampouco colocar crianças nos braços como faz a maioria dos candidatos.

Tempos atrás, seguíamos em carreata por um que nos representasse. Sonhávamos com o candidato que rasgasse a fantasia do seu antecessor e, em nosso devaneio, acreditávamos em suas promessas de campanha. Hoje, urge fazer uma pergunta:

- Quantos candidatos podem tirar o véu da hipocrisia? Quantos deles podem empunhar a Bandeira e cantar o Hino Nacional sem que o rubor da vergonha tolde as suas faces?

Antes que os apressados de plantão me julguem, quero lhes dizer que pouco entendo de política e que, durante décadas, entreguei o meu voto a quem me pareceu coerente em relação ao discurso e a sua vida pública.

Todavia, devo admitir que em tempos de eleições é nefasto ficar calado, quando abundam propagandas e promessas de campanha irrealizáveis.

Recorro então às gavetas da minha memória e retiro uma frase já gasta pelos anos: “para mudar o mundo terá que primeiro modificar a si mesmo”. Isto me leva à história do passarinho que ao ver a floresta pegando fogo foi à busca de água para apagar o incêndio. Logo, os apressados de plantão disseram que era loucura e riram da sua atitude. Porém, o pássaro respondeu:

- Estou apenas fazendo a minha parte!

Pois bem, neste momento, mesmo sem entender a ciência da política, eu me visto de penas e lhes dou um conselho: não vote em candidato que vai legislar em causa própria... Vivemos em uma aldeia global. Investigue, informe-se!

Exercite a razão! Ela o conduzirá à liberdade de pensamento e ninguém o fará massa de manobra para fins eleitoreiros. Como você, eu também estou exercitando a minha. E tenho me surpreendido cada vez mais com os resultados.

A essa altura do campeonato não tenho político de estimação e, confesso, desconfio dos moralistas... Estes são os piores. Em nome da Pátria e da Família cometem atrocidades.

Meu voto é pela coerência entre o discurso e a prática. Pois a maturidade me mostrou que o véu da hipocrisia norteia a vida de muitos dos atuais candidatos.

A partir deste pleito eleitoral eu vou perguntar aos vereadores e prefeitos, de agora, e, também, aos futuros deputados, governadores, senadores e presidentes da república:

- A dor do outro quanto custa ao seu bolso? Até quanto vale barganhar a miséria humana para ser eleito?

A depender da lisura e do engajamento político e social destes futuros representantes do povo, eles poderão ganhar o meu voto e a minha admiração. Não estou a busca de candidato perfeito. Todos são, demasiadamente, humanos! Mas, espero por alguém que não deite em berço esplêndido, enquanto as caravanas de mortos, de famintos e desempregados passam. Até lá, desejo que a lâmina do meu verbo esteja afiada pela consciência e pela razão! Estou de olho neles!


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Porta - Retratos

 
















O porta-retratos foi concebido para guardar a recordação de alguém na pausa de uma fotografia, mas dele eu não preciso quando o assunto é o meu irmão Dagoberto. Ele foi durante muito tempo o meu espelho e lugar de afeto no mundo. Dele, eu tenho memórias indeléveis: a sua força moral, a sua franqueza e o seu caráter incorruptível.

Meu irmão dispensava qualquer benefício que não fosse proveniente da honra e da lealdade. A ele não interessava as artimanhas do poder, do dinheiro e da corrupção. O seu caráter foi forjado na luta pela sobrevivência e desconhecia qualquer privilégio, pois no banquete da vida lhe foi reservado o último lugar à mesa. E isto, foi decisivo na formação do seu caráter.

Cresci observando aquele homem sério, de poucas conversas e poucos amigos, mas de gestos grandiosos. Nasceu em uma família abastada, porém não teve grandes regalias: não concluiu os estudos, não teve ternos de corte inglês, não tirou carta de motorista, nem teve os aplausos pelo reconhecimento do seu trabalho, como os outros filhos. Era o filho que não quis estudar! Naquela época, o orgulho das famílias se voltava para os filhos que saiam de casa e traziam na bagagem o título de doutor. Estes, sim, eram incensados!

Logo cedo, ele percebeu que deveria procurar um rumo para sua vida. Ganhou o mundo atrás de um trabalho que lhe desse dignidade e respeito. Enveredou pelo caminho do comércio. Trabalhou durante anos como balconista de uma grande loja de tecidos. Neste lugar, o seu caráter foi posto à prova de fogo.

O proprietário da loja precisou se ausentar por um longo tempo e, já tendo observado a retidão de caráter do seu funcionário, chamou-o a um canto para conversar e disse-lhe:

- Dagoberto, eu vou fazer uma viagem e necessito de alguém de minha confiança para tocar os negócios. Escolhi você... A partir de hoje, eu vou colocar a loja em seu nome e darei carta branca para você gerir tudo o que diz respeito ao bom andamento da firma. E, assim foi feito!

Nos meses subsequentes, meu irmão trabalhou com afinco e dedicação como se a loja fosse sua, sem nunca reclamar do excesso da lida, nem da responsabilidade que lhe fora confiada.

Anos depois, por motivos familiares, saiu deste emprego e foi morar em Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte. Carregava na alma uma dor profunda. Pela primeira vez na vida eu o vi chorar e se vergar diante da dor e do sofrimento de não poder levar os filhos consigo. Nunca mais seria o mesmo...

Neste momento, lembro-me dos nossos bate-papos na varanda da casa do Brisamar e das confidências que trocamos ao som da canção “Nada Além”, cantada na voz de Nelson Gonçalves. Lembro-me também, de como gostava de vê-lo comer. Ele tinha um jeito peculiar de degustar a comida. Os sabores passeavam lentamente pela sua boca. Tanto fazia um simples feijão com arroz, quanto a melhor iguaria. Comer era um ato sagrado. Um ritual sem a pressa do cotidiano.

Ah, meu irmão, quantas saudades você deixou!

Na última vez em que conversamos você contou-me com um orgulho incontido:

- Nos últimos meses de vida de nosso pai, tivemos uma longa e necessária conversa. Perguntei-lhe por que ele fora tão duro comigo, durante toda a vida. E, sabe o que ele falou?

- Eu respondi: não!

Naquele instante, você olhou-me com um olhar profundo e disse:

- Agi assim porque você é o filho que mais se parece comigo.

Então, naquele dia, nenhuma palavra mais foi necessária. Você, Dagoberto, estava apaziguado com os seus fantasmas. E, eu, feliz por você!


domingo, 6 de setembro de 2020

Livraria Pedrosa – Faça do Livro seu Melhor Amigo



 

 


 

Se eu fechar os olhos, por um instante, e deixar-me embalar pelos sentidos da visão, audição e olfato não preciso de nenhum meio de locomoção para ir à Livraria Pedrosa, localizada na Rua Maciel Pinheiro, no centro da cidade de Campina Grande-PB.

Uma sucessão de imagens, sons e cheiros chega-me pelos sentidos. Viajo através das lembranças e atravesso caminhos de afeto e de saudades para demonstrar a minha gratidão. Nesse momento, ela é direcionada a figura de José Cavalcanti Pedrosa. O livreiro que marcou época na cidade de Campina Grande fazendo do seu comércio um templo do saber.

Lá pelos anos de 1950, vivíamos dias tranquilos. Podíamos andar a pé pelas ruas e bater papo com os amigos, sem nenhum receio de sermos abordados por algum delinquente. Criança, eu ia ao colégio sozinha. Lembro-me de fazer, diariamente, todo o percurso do Colégio Alfredo Dantas até a loja de livros e, só depois, retornar a casa. Gostava de manusear os livros, de embriagar-me com o seu cheiro.

Ao entardecer, quando a sineta do colégio anunciava o encerramento das aulas, eu mal continha o impulso de sair correndo em direção àquele lugar cujo slogan era: “ Faça do livro seu melhor amigo”.

Pedrosa, como era chamado pelos mais íntimos, era uma figura austera. Poucas vezes eu o vi sorrir. Entretanto, por trás daquele semblante sério e de uma postura rígida escondia-se um coração amoroso. De pronto, ele percebeu a minha fome de palavras e a sede de conhecimento, apesar de toda a timidez da qual eu era portadora.

Então, quando eu cheguei à livraria, em um desses entardeceres em que a vida parece nos saldar com um sorriso, Seu Pedrosa presenteou-me com um livro dos Irmãos Grimm. Em seguida, fez-me o convite para frequentar à casa de sua família e ter acesso aos livros de sua estante particular. Este foi um momento histórico em minha vida. Uma alegria incontida tomou conta de mim. Numa fração de segundos me vi descobrindo uma fonte de água em pleno deserto. E, senti-me importante e querida por aquele livreiro a quem poucos tinham acesso a sua intimidade.

Para José Cavalcanti Pedrosa eu era a menina que devorava livros. Que os cheirava como quem cheira uma fruta madura pronta para ser consumida.

A partir daquele dia, Pedrosa substituiu o olhar circunspeto e passou a acolher-me de maneira filial, amorosa e terna. Muitas vezes, quando me via, um leve sorriso se desenhava em seus lábios. Era a sua maneira de dizer: seja bem-vinda! Sacie a sua sede de conhecimento.

Por tudo isso, hoje, as minhas letras e o meu brincar com as palavras se vestem de respeito e de ternura para reverenciar a sua memória. Ave, Pedrosa! A sua vida, salvou a minha... Gratidão! 
 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Álbum de Fotografias


2.Livro, não raro carcelado, de folhas de cartolina, de papel forte, ou de material sintético, próprio para colagem de figurinhas, recortes, etc., ou para guardar fotografias, coleção de selos, discos, gravuras, etc.

No Novo Dicionário Aurélio, versão eletrônica, a definição da palavra “álbum” não está de acordo com a lembrança que eu tenho deste livro.
Para mim, um álbum não guarda só as fotografias, ele guarda também a memória dos meus afetos!
São retalhos de lembranças que contam histórias. São histórias eternizadas na pausa de uma fotografia.

Pois bem, hoje, eu resolvi abrir o meu álbum de memórias. 
E, como bem disse a escritora Eliane Brum: - “ quero ser desabitada, por um momento, para ser habitada pela linguagem que é o outro”.
Nesse instante, pela ordem das imagens, o outro é ela: Mãe Julia.

A mulher que falava com os passarinhos e com as flores que plantava em seu jardim. 
A professora que ensinava mais pelo exemplo do que pelas palavras.

Lembro-me do seu amor pelas aves.
Certa vez, lá pelos idos de 1950, ela comprou um viveiro para abrigar os vários tipos de passarinhos que dela se aproximavam: concriz; canários belgas; pintassilgos; beija-flores e um papagaio.
Era tanta ternura, cuidado e delicadeza no trato com as aves, que por meio destas eu aprendi o verdadeiro sentido do amor e da liberdade.

Pela manhã, bem cedinho, muitos antes do seu desjejum, Mãe Julia já iniciava o bate-papo com os pássaros.
Era a hora de limpar o viveiro, trocar a água e colocar alpiste para os seus filhotes.
O velho concriz era o mais conversador. Bastava ela se aproximar e ele começava a cantoria. 
Os dois tinham uma linguagem própria, uma troca de afetos.
 
Um belo dia, ela começou a se perguntar se era justo manter os pássaros em cativeiro. 
Uma enorme tristeza toldou-lhe o semblante e a partir daí resolveu dar-lhes a liberdade.
Cumpriu o rito matinal e logo em seguida abriu a porta do viveiro para que eles ganhassem a alforria.
Os canários e os pintassilgos se olhavam e se moviam inquietos, mas ninguém ousava sair.
O velho concriz foi o primeiro a ganhar o céu da liberdade. Voou longe por horas a fio.

Porém, ao meio dia e meia, quando toda a família estava sentada à mesa para o almoço, ele adentrou a sala e pousou sobre o ombro de Mãe Julia.
A simbologia do ato nos deixou emocionados. O amor foi mais forte do que a independência que o céu lhe proporcionara.

Minha Mãe era uma Lady, mas não era movida pela afetação. Em qualquer circunstância só se referia ao outro de maneira educada e respeitosa.
Quando solicitava os serviços da secretária do lar, as palavras mágicas: por favor, obrigada e desculpe-me vinham à frente. Discreta e comedida nos gestos não gostava de fofocas nem de intromissões na vida alheia, tampouco de promover discórdias. 
Morou mais de um ano na casa de um dos filhos e sempre que necessitava pegar algo na geladeira, dirigia-se à nora e pedia permissão.

Foi dela que herdei o nome e a consciência ativa de que devo fazer ao outro aquilo que desejo que façam a mim.
Que a minha liberdade termina onde a do outro começa.
Que palavrões não são palavras benditas. 
Que a boa educação abre portas e o conhecimento liberta.

Mãe Julia gostava de cantar A Marselhesa – o Hino Nacional da França. E, de acompanhar Orlando Silva, na canção Rosa.

Acreditava em destino. 
Contava sempre a história de quando era mocinha e recusara a corte dos pretendentes viúvos ou que usavam fardas.
Para seu castigo, segundo ela, casou-se com um viúvo que tinha quatro crianças (ela foi a terceira esposa) e teve um filho militar.
Sorria quando falava sobre isso. E amou os filhos do viúvo: Crueza; Tota; Deusa e Maria como se tivessem saído de suas entranhas.
Gostava de contar da alegria e felicidade de sua filha Creuza quando ela, Mãe Julia, entrou na igreja para casar-se com o seu pai.
E, de como Deusa, sua outra filha, a amava.
Pois, em seu leito de morte pediu-lhe que nunca, em vida, dissesse a ninguém que ela não era sua filha.

Mãe Julia foi feliz, mesmo tendo abdicado do seu sonho de continuar professora, pois os fatos se inverteram. 
Francisco Maria, o viúvo, exigiu que ela deixasse o emprego na escola onde lecionava.
A justificativa para tal propósito era de que ele não queria ser chamado de “o marido da professora”.

Pois então, minha Mãe, esta e outras tantas histórias compõem um pouco da sua biografia. São retalhos de lembranças que a poeira do tempo não conseguiu esgarçar. No meu álbum de fotografias eu eternizo você, para que os seus filhos; netos; bisnetos e trinetos honrem a sua memória.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

A Hora do Adeus


















Em abril de 2011, eu escrevi “Tempo de Despedidas”.
Um texto para eternizar as memórias da Casa do Brisamar. Comprei um apartamento na praia, enquanto decidia a venda do imóvel.
O curso da vida exigia-me coragem e determinação para fazer a mudança, mas o passado era um foco de resistência a ser vencido.
Então, eu fui adiando a hora de dizer adeus. Sou taurina! Não sei partir.

Trocar de domicílio não é tão fácil como parece.
As paredes, os móveis e os utensílios domésticos carregam histórias e significados. 
Somos construídos por meio da liturgia afetiva do lar.
A casa é a nossa pátria de intimidades. A nossa primeira fome de infinito. A certeza de que sempre teremos para onde voltar.

Como não lembrar dos tempos de dificuldades que passamos, para que o sonho da casa própria se concretizasse? 
Cada tijolo comprado e cada parede levantada implicava uma renúncia, um abrir mão do carro; do telefone; da jóia de família; viagens, entre outras coisas.

Como não lembrar do dia em que as obras terminaram e tomamos posse da nossa residência. 
Daí por diante, tudo era motivo de comemoração: os novos móveis, a geladeira; o fogão; a máquina de lavar; a televisão; o liquidificador; a batedeira e o ferro de passar. 
Todos devidamente aplaudidos com o entusiasmo de quem está iniciando uma nova vida.

A Casa do Brisamar era um lugar musical!
Todos que a visitavam diziam que ela tinha uma boa energia. Quando os primeiros raios de sol invadiam o seu jardim, podia-se ouvir o som de um violão, de um bandolim ou de um piano.
Ouvia-se de tudo: Vinicius de Moraes; Tom Jobim; João Bosco; Emilio Santiago; Ivan Lins; Nelson Gonçalves; Jacob do Bandolim; Nara Leão; Nana Caymmi; Elis Regina; Gal Costa; Maria Betânia; Leila Pinheiro, entre tantos.

Como esquecer a imagem da família reunida em torno da mesa, jogando conversa fora, nas tardes de domingo?
E das reuniões festivas onde os amigos comiam e bebiam à farta? 
Como esquecer dos rituais para festejar o carnaval, o São João e o Natal?

Como esquecer da rede, na varanda, em noites de lua cheia e de você, Gilberto, a desenhar ternuras pelo meu corpo, enquanto o riso solto, na madrugada, escrevia um poema de amor para nós dois?

Chegou o tempo de despedidas... Eu sei! 
Estamos em agosto de 2020.
Não dá mais para cultivar as lembranças e regá-las com o sal das minhas lágrimas.
No entanto, apesar dos anos passados, tudo ainda é saudade: o riso das crianças, a mesa posta, a música... E, a sua ausência, Gilberto, que nunca passa!

Por isso, resolvi sair de uma vez por todas.
Chegou a hora do adeus. Da Casa do Brisamar eu levo apenas as minhas roupas e livros.
Perto do mar que eu tanto amo construirei outras lembranças.
Antes de partir, entregarei as chaves da casa para o nosso filho. Daqui por diante, ele e a sua nova família serão os guardiões das memórias desse lugar, pois toda Casa tem uma história com as suas cores, seus cheiros, sons, passos e lembranças. Adeus!

 

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Lavanda - O Perfume dos Meus Afetos















Lá fora, tudo é silêncio! De repente, um vento cortante invade a janela do meu quarto. Ouço o barulho das ondas. O mar que ela tanto amava açoitado pelos ventos, geme de saudades. O cheiro do sargaço acorda a memória olfativa. Um nome avulta na galeria dos meus pensamentos e as minhas letras se vestem de ternura. Lembro-me de Laíce!

No altar dos meus sentimentos eu apaguei a vela que mantinha acesa em sua memória. Quis atropelar às horas e ao tempo de luto para não sofrer com a sua ausência. Ledo engano!

Ainda assim, a sua lembrança se faz presente no marulho das vagas e no som de um piano, ao longe. Lembro-me da minha tia/irmã quando escuto a canção “João Valentão” de Dorival Caymmi e quando vejo florir o abacateiro.

Lembro-me, mais e mais, quando a memória olfativa traz de volta o perfume “English Lavender” da Atkinsons. A sua e a minha fragrância preferida.

Neste vidro, contêm a história dos meus afetos. Uso esta lavanda há cinquenta anos. Ela reporta-me ao tempo em que eu visitava Laíce, que morava em um pensionato, localizado à Rua General Osório, no centro da cidade de João Pessoa. Foi minha tia/irmã quem me apresentou o perfume.

Naquela época, eu tinha entre quinze e dezesseis anos e morava em Campina Grande. Laíce havia passado em um concurso e mudara-se para a capital do estado da Paraíba, fazia anos. Quando ela partiu eu desejei que o cheiro da lavanda que a acompanhava, fosse igual às migalhas de pão, da história de João e Maria. E que no rasto desse aroma eu encontrasse a possibilidade de um novo encontro e a certeza do seu afeto.

Lalinha, como eu a chamava, foi uma das pessoas mais importantes da minha vida. Foi tia, irmã, segunda mãe, amiga e confidente. Um cofre de segredos guardados.

Diante desse fato, não é de se estranhar que eu tenha dedicado tanto tempo a esquadrinhar cada recanto das lojas que visitava à procura da “English Lavender” da Atkinsons. As franquias do Brasil deixaram de vender o produto. Todavia, eu continuei com a minha busca.

Em 2019, eu fui visitar a minha filha em Madrid. Certo dia, quando saímos a passeio pelas ruas da cidade, nos deparamos com a vitrine da loja Primor. Atraídas pela variedade dos seus perfumes nós entramos e lá eu encontrei a minha fragrância preferida. Imagine a minha alegria! Comprei 620 ml de lembranças e de saudades.

Por isso, nesse momento, onde tudo é silêncio e o cheiro do sargaço acorda a minha memória olfativa, eu ainda coloco um pouco da lavanda sobre os meus pulsos, para manter acesa a tocha do amor e do meu carinho por você, Laíce.

O perfume transporta-me para um lugar onde o meu corpo não pode ir. Não importa! Ele põe em fuga a dor e a tristeza pela sua ausência. Nas minhas lembranças... Você é vida!







quinta-feira, 16 de julho de 2020

Os Quintais da Minha Infância


 









As folhas da memória farfalham, numa dança festiva, obrigando-me a abrir o baú das minhas saudades esquecidas. Lembranças e sentimentos guardados pedem alforria e deixam para trás o rascunho dos pensamentos. Hoje, eu vou falar sobre os quintais da minha infância.

Um olhar de espanto me sobrevém, nesse momento, quando constato que passaram-se muitos anos, todavia as recordações ainda têm o frescor dos tempos idos. O verde, esperança que abrigou-se sob o teto das minhas memórias, exala agora o perfume das goiabeiras.

Os quintais de dona Judite, de dona Nenê e de dona Ziza eram o meu lugar no mundo. Três recantos mágicos onde eram saciadas a fome de alegria e de felicidade. Elas tinham um zelo incomum pelos seus pomares e a vigília era constante. O que me deixava triste! Porque, na maioria das vezes, eu só podia usufruir desse ambiente por meio do olhar e da contemplação.

Imagine o meu suplício! Entrar no reino encantado da “fantasia comestível” e não poder exercer o livre arbítrio da gula. As minhas mãos comichavam de vontade de tocar, de sentir a textura daquela fruta tão bela e apetitosa. E a boca tinha um desejo premente de provar o fruto proibido.

Às vezes, eu encontrava algumas goiabas envolta em um pano e ouvia a explicação de que isso as protegia dos insetos. Pense numa frustração! E, também, na vergonha! Além de não poder tocá-las, algo me impedia de acariciá-las com o olhar naquele momento. Este fato só aumentava a minha culpa, pois na inocência da idade intuía que o inseto era eu. Que a ânsia que tinha pela fruta estava escrita nos meus olhos. Por isso, a vigília das proprietárias dos sítios e a vergonha de ver as minhas reais intenções descobertas.

Foram anos de observação e sofrimento. Nas raras ocasiões em que me foi permitido saborear aquela fruta, não saciei nem a fome, nem o desejo. Queria um pé de goiaba para chamar de meu...

Revendo agora essas lembranças eu chego à conclusão de que além do gosto pelo fruto da goiabeira, o que mais me encantava era a cor verde das suas folhas e frutos banhados pelas gotas de orvalho da madrugada. Um espetáculo que trazia brilho aos meus olhos e me remetia à esperança, à alegria e à felicidade.