Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quarta-feira, 18 de março de 2020

O Que Aprender em Tempos Difíceis

















"É possível acariciar as pessoas com as palavras”.

A Covid-19 está transformando a nossa rotina, mas podemos lutar contra isso com pequenos gestos de amor e solidariedade. Em que pese o triste fato de que muitas pessoas estão morrendo e a economia mundial está em crise, podemos enfrentar este momento com cautela e reflexão. O cimento crítico do olhar em direção às pessoas, tem que ser substituído por uma conduta mais amorosa, solidária e permanente. Todos precisamos uns dos outros. Ninguém é uma ilha! E, além do mais, em dias difíceis, quando algo foge ao nosso controle, devemos nos perguntar: o que isto está querendo nos ensinar? Sempre há uma resposta e ela ressoa em nós de acordo com as atitudes que tomamos no dia a dia. A Covid-19 vem nos alertar sobre a nossa vulnerabilidade e impotência. Vem para escancarar o quanto desperdiçamos os dias, meses e anos com coisas de somenos importância. Vem para nos mostrar que não importa quão rico, sábio, poderoso ou inteligente possamos ser, ele nos alcançará e ao pó retornaremos. E, diante das cinzas, nada mais tem importância! Sabe, aquele título de doutor que ostentamos com tanto orgulho e empáfia; aquela cobertura no edifício mais chique da cidade; aquela viagem à Europa feita tantas vezes, como quem vai ali e volta já; aquele dinheiro guardado em paraísos fiscais e fotos postadas nas redes sociais mostrando o quão bela é vida? Pois bem, tudo isso se perde no fundo de uma gaveta que não se abre mais. Da última viagem, ninguém volta! 


Por isso, meus amigos, vamos encarar a Covid-19 como uma lição a ser aprendida. Que este momento em que vivemos um isolamento social forçado, nos faça refletir sobre os nossos afetos, sobre a maneira como temos conduzido a nossa vida e sobre o nosso silêncio e omissão diante da dor, do abandono e da solidão alheia. Se faz necessário também, formarmos uma corrente de solidariedade para que ninguém se sinta desamparado. Para isso, façamos uso das palavras! Elas têm poder. De vida ou de morte! Se não podemos visitar nem dar assistência ao outro, sem que isso coloque a nossa vida em risco, aprendamos então a acariciar as pessoas por meio das palavras. Agora, sim, é hora de fazer bom uso das redes sociais! Façamos ligações de vídeo, usemos o celular para conversar, escrever palavras amorosas e de conforto. Enviemos mensagens de ânimo! Pois, dessa forma, ao final de toda essa pandemia sairemos melhores do que entramos, nesses tempos difíceis. E o amor e a solidariedade serão tochas que manteremos acesas por todo o resto de nossas vidas.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

O Catador de Lixo e a Professora













Ele aparentava ser um homem feliz. Era uma dessas poucas pessoas em quem as marcas e os infortúnios da vida não conseguiram produzir ranhuras. A sua pele tinha o frescor da juventude e o seu coração batia com ardor, quando subia todos os degraus daquele prédio de luxo, à beira-mar, para o recolhimento do lixo. Morava no interior do sertão nordestino, mas viera à cidade grande em busca de dias melhores. Queria trabalhar e estudar. Ser Doutor! Tudo o que conseguiu foi uma vaga de catador de lixo. Cotidianamente teria que percorrer todos os andares daquele majestoso edifício, para recolher os detritos oriundos das mesas fartas e dos lautos banquetes, que vez ou outra, a esquina dos seus olhos conseguia enxergar. Tempos sofridos! Dia após dia o seu corpo doía de tanta falta. Falta, principalmente, da família e dos afetos abandonados naquela região longínqua, onde o seu jovem coração ficou sepultado para sempre. Todo o fim de mês tinha contas a pagar e escolhas a fazer. As poucas moedas que provocavam barulho no bolso da sua calça puída, pareciam lembrá-lo da sua triste condição: era mais um brasileiro, um nordestino a sonhar com esperanças vãs. Alguns meses se passaram, mas a realidade daquele jovem aprendiz não mudou. No entanto, ele continuou trabalhando com obstinação. Havia costurado no corpo uma vontade férrea de seguir adiante e uma resiliência de causar inveja a qualquer um. Nada o demovia do seu objetivo de ser Doutor.


Certa vez ao executar o seu trabalho encontrou entre os sacos de lixos recolhidos, uma pequena fortuna: livros! A partir daí a sua vida transformou-se. As horas de saudade e solidão foram sendo substituídas pela leitura e no brilho do seu olhar começou a chover arco-íris! Tudo era beleza e vida naquela sopa de letras que encantavam os seus olhos. Até a falta da família e dos afetos, deixados em terras distantes, ficaram como um borrão esquecido em sua memória. Com a passagem do tempo foi promovido a porteiro e as horas de leitura ficaram maiores, apesar da imensa responsabilidade de vigiar o entra e sai daquele prédio. Durante o dia o serviço exigia mais atenção, porém a noite, com as suas horas arrastadas, passou a ser curta diante da avidez e da fome de conhecimento daquele rapaz. Nos meses seguintes à promoção ele devorou livros, muitos livros. Todos os que lhe caiam em mãos. Tinha fome de palavras! Gastava as horas lendo, lendo. Até que um belo dia ele conheceu a professora. Uma jovem residente do edifício onde ele trabalhava e que tinha por hábito sentar-se à beira-mar para ler e contemplar o pôr do sol. Tímido, mal a cumprimentava, embora tivesse em seu coração o desejo de trocar algumas ideias com aquela que era considerada por ele a fada madrinha, o norte, a mão estendida, a ponte pela qual ele teria que atravessar para chegar ao lugar do seu sonho: ser Doutor! Flertava com a possibilidade de arrancar-se daquele silêncio de palavras. Queria conversar com a Doutora, contar-lhe sobre o seu desejo e pedir-lhe orientação. 

Por fim, essa hora chegara! Munido de coragem, com um largo sorriso e brilho nos olhos ele abordou a professora e falou-lhe dos livros que lera. Daí em diante o milagre da multiplicação das palavras ocorreu e uma bela amizade surgiu. Com ela mais livros, conversas, troca de ideias, sábias e serenas discussões. Então, o catador de detritos, agora promovido a porteiro, ensinou a professora que em um país onde cultura e educação estão sendo jogados em sacos de lixo, vale a máxima de que sonhar e resistir é preciso. Encarcerar esperanças, jamais! Pois, como ele sempre repete: tiram-me o direito à saúde, à cultura e à educação, mas o conhecimento é patrimônio meu. E é com ele que eu vou mudar o destino do meu país! Quem viver, verá!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

A Cadeira e o Olhar






Esta cadeira tem mais de 100 anos. Ela pertencia ao meu Pai/Avô, Chico Maria, e estava sob os cuidados de sua filha Marluce. Hoje, depois de um belo e minucioso trabalho de restauração, feito pelo artista plástico, Lairson Beserra, tive a grata surpresa de recebê-la, de presente, pelas mãos da minha sobrinha Rosário. Nela, vou ninar o trineto de Pai/Velho e contar a história a seguir. 


A Cadeira e o Olhar


O olhar de uma pessoa reflete a sua alma! Existem almas para todos os gostos! Há os que olham para esta cadeira e veem apenas uma cadeira, outros veem uma história... Uma vida! Vou contar-lhes sobre a minha visão, pois ao revisitar as gavetas da memória, “o tempo, este compositor de destinos,” costura a minha vida com doces lembranças, à medida em que viro páginas e páginas de um passado ainda tão recente. Pois bem, hoje, ao deparar-se com a imagem desta cadeira, o meu olhar transbordou de saudades e as lembranças foram se debulhando, uma a uma. A primeira delas foi a figura do meu pai/avô, Chico Maria, sentado sobre esta peça de mobília tão antiga, contando com mais de um século de existência. Então, lembrei-me de uma frase do escritor Ivan Martins: “o tempo pode ser adiado por fora, mas por dentro ele se instala”. É, o tempo se instala quando nos permitimos acessar recordações, que ficaram preservadas na memória como se fosse um relicário. Nesta hora, fatos, paisagens, lugares e pessoas costuradas dentro da gente contam a história a seguir.

Era um dia de sábado. Dia de tensão! A cadeira de balanço não balançava! Nela, um senhor de aspecto severo e circunspecto contava as cédulas, enquanto o suor lhe escorria pelo rosto. Havia chegado da feira livre, há poucos minutos, e o balaieiro (homem que carregava em um balaio as compras dos fregueses) ainda esperava pelo seu pagamento, quando eu, menina, aos 4/5 anos de idade começava a cantilena:

- Painho, me dá minha mesada! Ao que ele respondia:

- Menina, não vê que eu estou ocupado?

E, eu, insolente, continuava com a minha ladainha, a cada cinco minutos:

- Painho, me dá dois mil reis; - Painho, aumenta a minha mesada, até ver a paciência dele esgotar-se e ouvir em alto e bom som: 


- Menina, tá pensando que dinheiro é hemorroida?

Na minha inocência eu não entendia a comparação, mas me calava, pois sabia que a insistência me levaria ao castigo. Horas depois, bem mais calmo e apaziguado com as suas contas, ele me botava no colo e me entregava as tão sonhadas moedas, junto com um cacho de pitombas que ele comprava para mim, e para o meu irmão, Chiquinho. Aí, lá se ia eu a correr atrás do sorveteiro; do homem que vendia algodão doce; do pirulito de chocolate, da venda de seu Nilo e das macaíbas e jatobás da feira livre. Em um instante, acabava-se o meu suado dinheirinho e eu voltava para casa satisfeita com as compras que adoçavam a minha vida e a minha boca. Mas, sim, estávamos falando de uma peça de mobília! À medida que o calendário dos dias ia passando, as palavras do meu pai/avô se faziam habitar em minhas lembranças, de maneira indelével. Sentado na sua indefectível cadeira de balanço ele espreitava o tempo e contava histórias. Como esquecer a sua viagem de João Pessoa à Campina Grande, a pé, enquanto a fome lhe dava um nó nas “tripas”, até encontrar a casa do compadre, no meio do caminho. Ali, lhe foi servido o melhor caldo de um feijão que restou na panela e, que a cozinheira colocou em prato usado e limpo, com um pano de prato tão sujo, que até o pano de chão parecia mais asseado. Como não lembrar das conversas, lições e valores passados como honestidade, honradez, dignidade e, mais que tudo, do cumprimento da palavra empenhada!? Da sua cadeira de balanço eu vi a vida passar em exemplos de solidariedade e de justiça, entre tantos. Vi também o seu ar de preocupação e perplexidade quando o seu filho Chico sofreu um acidente de carro; quando o padre da igreja trouxe notícias do outro filho, Tota, que se meteu em uma encrenca; quando lhe trouxeram a notícia de que seu genro Sebastião havia sido assassinado, ao apartar uma briga numa festa de São João e, quando lhe informaram que a sua neta Eliane havia fugido, para se casar com George, o namorado da juventude. Na mesma cadeira de balanço espreitei as suas negociações com Zé do Sedo, com dona Judite, a famosa doceira de Campina Grande, responsável pelo bolo, doces e salgados do casamento de sua filha Marluce. Ouvi as conversas e os ajustes dos empréstimos aos amigos e a confiança ilimitada de que o fio de bigode valeria mais que uma nota promissória assinada, mesmo contrariando o conselho de sua esposa, que o alertava para um possível calote. No entanto, nada o demovia de suas convicções. Um homem só tem uma palavra, dizia você: - sim ou não!

É, Pai Velho, foram tantas as lições aprendidas sem que uma única palavra fosse emitida, nesse sentido, que o eco das suas palavras ainda ressoa em mim. E, agora, quando olho para esta cadeira, me perco nas saudades e fico parodiando a letra da canção, “Naquela Mesa”, de Sergio Bittencourt: “ nesta cadeira `tá’ faltando ele e a saudade dele ’tá’ doendo em mim.” Ao tempo em que também agradeço por tê-lo por perto na época da minha formação como mulher e cidadã. Obrigada, Meu Pai!

domingo, 20 de outubro de 2019

Uma Carta para Mel


Querida Mel,

Há sete anos você chegou a minha casa com ares de ventania. Vinha da Região Centro-Oeste do País. A cidade de Rio Verde foi o seu primeiro lar. Ao vê-la pela primeira vez, na casa do meu filho Gilberto, senti pânico, medo e uma sensação de morte iminente. Diante de mim estava uma cadela da raça Pit-Bull. Raça que, durante uma certa época, foi notícia nos Jornais e TV´s, principalmente, em manchetes sangrentas. Tanto, que alguns desavisados, em sua sanha, já se alvoroçavam propondo a sua extinção. Quanta ignorância! Mas, o tempo, senhor da razão, desceu um manto de silêncio sobre o assunto, quando ficou provado que eram os criadores, os responsáveis pela ferocidade dos seus cães e, assim, você pode viver tranquila por quase onze anos. Pois bem, hoje, senti vontade de escrever só para lhe dizer que apesar de termos chegado ao século XXI acumulando conhecimento, experiências e descobertas, em vários campos de atividades, sabemos muito pouco sobre o amor e os afetos. Por isso, esta carta. Quero lhe falar de amor, de saudade e gratidão, mesmo que seja difícil, nesse instante, encontrar o caminho das palavras. Faz oito dias que você foi sacrificada. O câncer atingiu os seus órgãos vitais e a morte tornou-se urgência diante dos uivos de tristeza e dor que emitia. Naquelas horas, eu rezava e pedia a Deus que não a deixasse sofrer. Mal começava o dia e eu administrava os remédios, em horários regulares, para minimizar as dores e adiar a sua partida. Foram três semanas de intenso sofrimento: meu e seu. Transferi as minhas roupas e a TV para o quarto de hóspede e fiz vigília por todo o tempo em que durou a sua agonia. Deitei no chão para ficar mais próxima de você e rezei, enquanto alisava a sua cabecinha. Falei da minha gratidão por ter sido escolhida, entre tantos, para ser sua companhia constante, relembrei nossos melhores momentos e cantei para embalar o seu sono. Naquele momento, ouvi pela última vez algo que sempre me surpreendeu: você suspirar ao som de sua música preferida: “Nessa Rua tem um Bosque”, tocada por Heitor Villa-Lobos. Mas, aos poucos, você foi dando sinais de que ia me deixar. Os uivos de tristeza e dor, antes esporádicos, tornaram-se mais frequentes. A cena do café da manhã que antes tomávamos juntas - você sempre arranjava um jeito de deitar a cabeça em minha perna, enquanto eu tomava a primeira refeição do dia – foi substituída por uma distância de poucos metros, o suficiente para que eu visse o seu olhar carregado de promessas, dizendo-me: - sossegue, eu ainda estou aqui! As subidas aos degraus da escada que levam ao meu quarto, tornaram-se um tormento para mim. Eu subia e ao olhar para trás, via os seus olhos tristes, sem vida, querendo me acompanhar, em um esforço vão. Foram duas tentativas e você rolou escada abaixo a partir do quarto degrau. As suas patas, antes tão ágeis, ficaram inertes. Os dias foram passando e os seus uivos de dor feriam mais e mais os meus ouvidos e o meu coração. Quando me pediram para autorizar a sua partida e acabar com o seu sofrimento, eu relutei. Não por egoísmo, mas por alimentar, ainda, a esperança que habitava em seus olhos e nos meus. Afinal, a sua saúde oscilava. Senti-me devastada! Queria a lâmpada de Aladim, o único pedido. Mas, isso me foi negado! Então, quanto o dia quatro de outubro acordou e se fez poente, eu me dei por vencida e chamei o veterinário, que colocou você para dormir sob a sombra da roseira do nosso jardim. Ah, Mel, no mergulho final no sono do esquecimento eu fui covarde! Fugi! Fugi para bem longe! Deixei você na companhia de Gilberto, de Alana e dos amigos que iam chegando. Não queria dizer adeus, embora desejasse com todas as minhas forças embalar o seu último suspiro, como fiz tantas vezes, ao som da música “nessa rua tem um bosque”. Não tive coragem e, agora, estou aqui, escrevendo sobre o amor, a saudade e a gratidão, em um exercício de despedida. Escrevo, enquanto escuto o murmúrio das ondas do mar, longe do jardim e de você. Compartilho as nossas memórias, para que a vida não me doa tanto. Você foi o amor mais puro e incondicional que eu conheci. Obrigada, Mel!

domingo, 22 de setembro de 2019

Uma Carta para Águeda Magalhães













Querida Águeda,

Quando eu recebi o livro “Alquimia do Voo”, pelas mãos de sua filha Aline, estava de partida para uma breve viagem. Pés no mundo, todos os dias, procurava um espaço de tempo para iniciar a leitura, mas só encontrava o desconforto do barulho, essa ausência de silêncio tão necessário, para quem tinha em mãos o seu primeiro livro de poesia. Comecei, então, a ler sem pressa, com respeito e admiração como se estivesse diante de uma relíquia. Amo livros! Gosto do cheiro e de manuseá-lo com cuidado e atenção. Voltei às páginas por várias vezes, algumas, porque as lágrimas toldaram-me a visão, outras, quando o arrepio em minha pele pedia um pouco mais de calma... de alma. Queria garimpar/guardar suas letras e signos em uma caixinha de veludo vermelho, daquelas que nos enchiam os olhos de alegria e contentamento porque, dentro, havia um presente inesquecível! Iniciei a leitura, pouco a pouco, queria reter na memória a beleza que habita os seus versos, a sua alma. Pois bem, hoje, eu fui consultar o Aurélio. Um desejo imenso de encontrar palavras caramelos que pudessem falar da admiração e respeito que eu tenho pela sua obra, mas nada cabia na janela do meu olhar: você ultrapassa o dicionário em beleza, doçura e sensibilidade. Você é rara, minha querida! Gostaria de ter a competência e o conhecimento para escrever sobre Alquimia do Voo, como fizeram Ivy Menon e Lia Sena, mas não os tenho. No entanto, posso afirmar que os seus versos acordaram a minha alma, antes tão desértica e blindada. Parabéns, Águeda! Por ter os dedos cheios de poesia, mesmo quando a vida sangra. Desejo ressaltar que o prazer da leitura abafou qualquer ruído, pois, lendo você, eu escutei o silêncio das suas dores, o seu grito por vida, liberdade e amor. Obrigada, por você existir. O mundo sem você seria mais triste!



terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O Voo de Gibinha












Quando eu era criança ouvi a minha mãe dizer: “ filha, quando você receber um regalo não desfaça o embrulho de imediato. Primeiro, contenha a sua ansiedade, observe o cartão que vem junto, abra-o, só após ler o conteúdo, agradeça. É feio desfazer a fita antes de ler o que está escrito, pois as palavras têm significados maiores que o próprio mimo.” E eu ficava a matutar sobre aquilo que ouvira. Hoje, constato que tantas décadas se passaram, mas as palavras da minha mãe continuam provocando-me o mesmo estranhamento. Faltam poucas semanas para eu receber o maior e mais importante de todos os presentes: o seu pouso em minha vida. Então, pergunto-me: como posso agradecer por algo que os meus olhos não viram? Como ler um cartão que ainda não me foi entregue? Por enquanto, apesar da estranheza, procuro nas palavras a justificativa para o meu espanto. Daí em diante, sou só gratidão!

Gibinha, há quase 37 semanas recebi o anúncio do seu voo. Confesso que fui surpreendida pela notícia. Não esperava por ela tão cedo e os motivos pelos quais eu reafirmei a minha surpresa, não pareceram tão óbvios... Nada a ver com a passagem do tempo, a idade, o envelhecimento, tampouco com a carga de significação, que a notícia sempre trouxe para boa parte das mulheres. Não estava preparada para ser avó. Como assim, eu avó? Ninguém me perguntou se eu queria! Passei dias, semanas, meses para me acostumar à ideia de que você iria entrar em minha vida e sem permissão invadiria as minhas horas tornando as minhas noites insones. Acabou-se o meu sossego, pensei. Logo agora, com a vida estabilizada, os filhos criados, independentes e os dias livres para organizar o tempo como bem me prover. Recorri às lembranças do passado. Uma lista de motivos intermináveis justificou os meus pensamentos... Vai começar tudo, de novo!? Longas noites de vigília a espantar preocupações quanto ao seu futuro, ao seu caráter e a sua maneira de viver. Nenhuma certeza de que o investimento em horas de amor, carinho, renúncia, dedicação fariam de você um homem íntegro, ético, valoroso. Um ser humano melhor, comprometido com as causas sociais, lutando por um mundo mais justo e igualitário. Não há garantia sobre isso. Nenhuma certeza de que as longas horas a olhar para o relógio - depois de você ganhar às ruas, o trariam de volta ileso para os meus braços. Nenhuma certeza, aviso ou premonição de que novos tempos serão sem injustiças, nem violências para minimizar as minhas dores e angustias!? Apenas, inquietações acelerando o ritmo cardíaco, quando um filme em retrocesso passa diante dos meus olhos em momentos de incertezas. Eu já vivi isso, penso. Por isso, passado o espanto inicial e ainda sem ter desfeito a fita que amarra o novo presente, como minha mãe recomendou-, debruço-me nesse momento sobre as teclas do computador a catar letras que retirem as impurezas dos meus pensamentos e abro as minhas asas para dar-lhe proteção e boas-vindas. Faltam poucos dias para eu ganhar o presente, mas quem vai ler o cartão dessa vez é você. Que nas asas do seu voo lhe acompanhem a saúde, a generosidade, a compreensão e a alegria de viver no amor. E, também, o compromisso de fazer aos outros aquilo que gostaria que fizessem a você. Seja bem-vindo, Gibinha!​


Crédito de Imagem: Armindo Alves. Um amigo com poesia no olhar. Um cronista visual.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Consciência - Uma Sentinela para a Paz

Bombeiros carregam corpo resgatado em Brumadinho — Foto: Douglas Magno / AFP


















Mal o dia nasceu e lá fora a chuva cai intermitente trazendo 
desconforto a minha alma. Dentro de casa, a televisão ligada põe em desalinho os meus olhos diante das notícias de Brumadinho-MG, sobre a queda da barragem. Muitos mortos, desaparecidos, famílias inteiras perplexas, sem-teto, sem notícias, sem rumo, sem esperança. Tento resgatar a paz de espírito, no entanto, mergulho cada vez mais no avesso dos pensamentos e, estupefata, constato que a imobilidade, a inércia, o egoísmo, a omissão fizeram morada no meu espírito desviando a atenção para uma zona de conforto, há muito desejada: existe um culpado e, este, não sou eu! Pronto, já posso fechar a cortina dos olhos, dormir o sono dos justos. Não! O ruído das horas, os holofotes da memória, a consciência – essa sentinela para a paz - vigilantes, anunciam o resgate da minha alma que, em confissão, reconhece a sua parcela de culpa e pede perdão! Perdão pelas palavras de indignação abortadas em praça pública, pelo silêncio obsequioso quando o clamor das minorias pedia aderência, pela embriaguez do conforto e da sedução do poder. Perdão pela covardia, pela subserviência. Por ter me omitido, quando se fazia necessário subir ao palanque, pegar as armas do pensamento, das ideias, das palavras e discursar sobre cidadania, direitos humanos. Perdão por ter ficado em cima do muro, pelo conforto das contas pagas, do emprego garantido nas coxias do poder, das viagens, do caviar e do espocar do champanhe, quando o reles chão da Pátria Amada é a morada da maioria dos sem-teto, sem destino e sem esperança. Perdão pela omissão e covardia que colocaram os meus irmãos de Brumadinho-MG, no exílio, para uma pátria  de onde não tem volta. 



Crédito de Imagem: Douglas Magno/AFP - G1