Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

O Olhar de Tarcísio

 











Outro dia, eu assisti a uma cena da novela “A Favorita”. Na quietude daquela tarde, flertei com o amor que estava estampado no olhar de Tarcísio para Glória Menezes, sua parceira de tantos anos. Um olhar pulsante, cheio de ternura e admiração. Naquela ocasião, a vida e a arte iluminadas pelas luzes dos refletores fundiram-se, proporcionando-nos uma bela cena de amor. Um sentimento que fora escrito na esquina dos olhos dele e que saíra do script.

A cena fora tão comovente que, no intervalo entre uma propaganda e outra, lembrei-me de uma frase do escritor Ivan Martins: - “ não há limite de idade para o desvario”. Então, do alto dos meus setenta e dois anos de idade, vi-me carregada de urgência e expectativa a busca de um amor igual àquele. A partir dali, eu decidi: quero um amor sem fraude! Não me contento com menos. Desejo ser vista com o mesmo carinho, ternura e admiração que estavam gravados naquele olhar.

Nesta época da minha vida, as armadilhas do ego não têm espaço para expandirem-se dentro de mim. O outono que branqueou os meus cabelos deu-me também um olhar crítico e apurado. Incomoda-me as firulas de quem gasta o seu português tecendo palavras que se transformam com o tempo. Eu quero mesmo é ser olhada sem nenhum pudor e com a mesma emoção que se derramara naquela cena, através da janela dos olhos de Tarcísio. Eu quero um amor que não habite em palavras pontuadas por ausências e, sim, no silêncio de um olhar que fala. Por essa razão, eu repito: quero um amor sem fraude e carregado de urgência, mas, livre das armadilhas do ego. Um amor cuja a única expectativa é que venha carregado de ternura, carinho e admiração.

Um comentário:

chica disse...

Que lindo texto, lindo teu sentir! Esses dois, infelizmente estão separados pela morte do Tarcísio. Mas Glória sempre ficará com esse olhar na lembrança. Tão bom isso! Amor e cumplicidade! beijos, tudo de bom,chica