Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Eu e as minhas Sombras - Pecados Inconfessos

 






“Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Esta citação refere-se à passagem bíblica (Jo 8,7), na qual Jesus é convidado a manifestar-se sobre o apedrejamento de uma mulher surpreendida em adultério.

Outro dia, um texto divulgado nas redes sociais trouxe-me à lembrança a frase acima. A revolta, a indignação, o ódio e o preconceito saltaram-me aos olhos naquela escrita e, nas entrelinhas, uma suposta perfeição moral e religiosa de quem publicou aquelas palavras. De onde vieram os pensamentos e sentimentos contidos naquela página? Esta foi a pergunta que me fiz e que deu origem ao tema em questão.

Durante décadas, eu procurei viver cristãmente e participei de todos os ritos sagrados instituídos pelo Catolicismo: batismo, confirmação, eucaristia, penitência, matrimônio, unção dos enfermos e confissão. Porém, devo dizer que houve uma ocasião em que eu me senti envergonhada de professar a minha cristandade. Isto aconteceu na Páscoa de um tempo pretérito. Como bom penitente, enquanto estive na fila do confessionário, esquadrinhei todos os recantos da memória a busca de pecado e nada encontrei contra as minhas virtudes, pureza e religiosidade.

Então, quando se aproximou o momento da confissão senti-me vestida de santidade e, entre perplexa e lisonjeada, interroguei-me:

- Estarei a caminho da iluminação!?

Naquele instante, um profundo mal-estar invadiu-me. Foi o prenúncio de um futuro inventário de culpas capaz de destruir a catedral da minha suposta perfeição moral e religiosa... E foi isto o que aconteceu ao longo dos anos seguintes. Depois daquela situação, eu revisei a minha configuração mental e passei a observar com um olhar mais crítico as minhas atitudes, os meus pensamentos e os sentimentos que eles provocaram em mim, principalmente, a soberba.

Em função disto, passei também em revista todas as minhas crenças a respeito do mundo e decidi fazer uma imersão na história de vida de cada pessoa que cruzar o meu caminho, antes de julgá-la. Nunca a frase: - “ quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”, fez tanto sentido para mim.

Eureca! Desfez-se a santidade, a iluminação e a minha suposta perfeição moral e religiosa. Afinal, por meio desta citação, eu compreendi que também tenho sombras e pecados inconfessos.

Um comentário:

chica disse...

Que lindo texto e por mais que nada grave tenhamos cometido, sempre pecamos, até em pensamentos, ou omissões,não é?

Adorei!
beijos,tudo de bom,chica