Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Lições da Pandemia – A Face de Deus

 























Por esses dias, andei lembrando das frases ‘educativas’ de minha mãe. Ela nasceu em 1901 e morreu no ano de 1982. As mães de sua geração educavam os filhos com o olhar. Um simples mirar indicava aprovação ou castigo. E quando abriam a boca não havia, como era de se esperar, um manual de instruções de bom comportamento a ser entregue. Tudo o que elas achavam necessário para o nosso aprendizado era resumido em pequenas frases:

“- Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.

“- Diz-me com quem anda e dir-te-ei quem és”.

“- A boca fala do que o coração está cheio”.

“- A lei do retorno é implacável”.

“- De tudo podemos tirar uma lição”.

Pois bem, de todas essas sentenças proferidas por minha mãe, a última é uma lembrança assídua nesses tempos de pandemia. Eu preciso me situar, entender como tirar lições dessa tragédia.

Obviamente, que a essa altura dos acontecimentos todos já sabemos dos efeitos nefastos da Covid-19, todavia, quero deter-me no lado positivo dessa doença. Porque há, sim, de acordo com as palavras de mãe Julia, uma lição a ser aprendida. Portanto, eu vou seguir a sua orientação e procurar o lado bom da experiência de viver em tempos pandêmicos.

Na infância, eu tive aulas de catecismo e fiz a primeira comunhão. Durantes décadas fui à igreja, assisti à celebração das missas e participei da eucaristia. Adorava as leituras do Evangelho, suas metáforas e os seus ensinamentos.

Porém, em todas as ocasiões havia um desejo latente: queria encontrar Deus e conhecê-lo melhor. E nenhum lugar era mais apropriado para esse encontro do que a casa Dele. Entretanto, na inocência da minha fé, eu estranhava quando via aquele Homem pregado no madeiro e me perguntava:

“- Como posso ter intimidade com um Ser que não desce do alto de sua Cruz”?

E voltava para casa triste e desesperançada. Nunca haveria de encontrar aquele Homem frente a frente.

Então, em março de 2020, surgiu a Covid-19 e, por meio dela, eu pude ver a Face de Deus. Já não precisava mais ir à Igreja para encontrá-lo. Ele estava disponível para mim e para qualquer pessoa que o procurasse. Naquele momento, eu entendi que a morada de Deus é dentro de nós!

E eu tenho um encontro com Ele todos os dias, quando vejo o seu rosto nos que dormem nas marquises dos edifícios, nos que habitam debaixo dos túneis das grandes metrópoles, nos que estão nos sinais de trânsito, nas Cracolândias das cidades, nas prisões superlotadas, nas portas dos hospitais implorando por um leito, e ainda, nos imigrantes que navegam por dias e noites fugindo da guerra, da fome e da miséria em busca de solidariedade, de afeto e de abrigo.

Eu tenho um encontro com Ele quando sinto a dor dos órfãos e dos desempregados da pandemia. Eu tenho um encontro com Deus quando, em nome Dele, acolho o diferente sem fazer perguntas. Quando entendendo a necessidade do próximo eu ofereço ajuda sem que ele precise estender a mão.

Eu tenho um encontro com aquele Homem da Cruz quando perdoo a quem me ofende, a quem fala mal de mim, a quem trai a minha confiança e se ausenta quando eu mais preciso de apoio.

Deus mora dentro de mim! Ele está dentro do meu coração quando eu olho para os meus irmãos de qualquer raça, etnia, orientação sexual ou condição financeira sem nenhum preconceito.

O Deus que habita em mim convida-me a ir à igreja quando eu preciso de paz, tranquilidade e silêncio para refletir sobre a multidão dos meus pecados e para participar da eucaristia. Contudo, quando termina a celebração, é dentro de mim que eu o encontro, porque acredito nos ensinamentos e na força das palavras do evangelho:

- “ Tudo o que fizerdes ao menor dos meus irmãos, a mim o fazeis”. (MT 25,40).

Em vista disso, eu tenho um encontro com Ele todos os dias quando abraço, dou ouvidos e escuto atentamente a dor do outro. É nele, nesse outro, que eu vejo a Face de Deus quando respondo ao apelo silencioso dos seus olhos e do seu coração famintos de fé e de esperança.

A minha mãe tinha razão quando dizia:

“- De tudo podemos tirar uma lição”.

A Pandemia exibiu o lado mais cruel da Covid-19. A essa altura, mais de quatrocentas e trinta mil pessoas perderam suas vidas e deixaram órfãos os seus afetos.

Entretanto, tanto eu quanto milhões de pessoas tivemos o privilégio de ter um encontro com o Homem da Cruz e, por seu intermédio, aprendermos a lição do amor, da empatia e da solidariedade. A Face de Deus está no outro!



Um comentário:

chica disse...

Julieta, cheguei a me arrepiar aqui ao te ler assim cedinho ainda aqui...

Gostei das frases da tua mãe e realmente temos sempre que ver o lado bom e tirar lições...

Que maravilha tua reflexão e encontro com aquele Senhor da Cruz que dali não sai, mas está em todos os lugares!!!
Perfeito isso.

Que bom o encontraste ,principalmente, em teu coração e assim o Vês por onde passas...
Adorei te ler!
Lindo dia!
beijos, chica