Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

domingo, 21 de março de 2021

A Menina e o Mistério dos Porquês

   









Ela assistiu ao filme Marcelino Pão e Vinho, quando ainda era uma criança acostumada a percorrer vários quilômetros atrás da procissão do Senhor Morto. De imediato, desejou ter com aquele Homem pregado na Cruz a mesma intimidade da qual desfrutava o menino que protagonizava a película. Apesar de sua pouca idade, já ensaiara vários monólogos com a imagem de Jesus, colocada acima do piano, da sala de estar. Como Marcelino ela também tinha várias perguntas sem respostas.

Usava todos 'os porquês' que a gramática colocava a sua disposição. No entanto, o silêncio da imagem se impunha. 'Porque' junto indicando causa, justificativa ou explicação perdia a serventia. Estava instalado o Mistério! E a menina, perseverante, ainda gastaria muitos dias, durante anos, neste solilóquio. Costumava ouvir de algumas pessoas:

"- Jesus falou comigo!"

Ela, que Dele não obtinha resposta, sentia-se pequena diante daquele Ser pregado na Cruz. Sabia-se imérita, mesmo assim, insistia:

"- Jesus, fala comigo!"

Então, à medida em que ela crescia em estatura ganhou experiência, conhecimento e sabedoria. Aos poucos, foi-se fazendo luz sobre o Mistério dos 'Porquês'.

Certo dia, ela deitou-se na rede que estava armada na varanda de sua casa e viu descer do caminhão da prefeitura, cerca de vinte pessoas, entre homens e mulheres. De pronto, os 'porquês' entraram novamente na sua rotina. Ela elevou os olhos para o Céu e perguntou:

"- Meu Jesus, 'por que' tanta injustiça? Enquanto refestelo-me numa rede, estas pobres criaturas vêm capinar ao sol a pino e, em muitas ocasiões, sem terem se alimentado bem durante todo o dia."

"- Responda-me Senhor, 'por quê'?"

Naquele momento, a menina que não se julgava merecedora de falar com o Homem da Cruz, sentiu uma voz ecoar dentro de si.

"- E se você estivesse entre estas pessoas o que gostaria de receber?"

Ela não hesitou na resposta:

"- Eu gostaria de receber um lanche, porque a esta hora do dia devo estar com fome."

Então, Jesus lhe disse:

"- Levanta-te da rede! Prepara um lanche e ofereça a eles."

"- Não se preocupe mais com 'o porquê' da fome, da miséria, do abandono, da injustiça, da desigualdade social e do preconceito"... 'Porque' junto significa causa, justificativa ou explicação... Ponha-o em prática!

De agora em diante, faça ao outro aquilo que gostaria que ele fizesse a você, nesta ou em qualquer ocasião em que a necessidade de amor, solidariedade e empatia se fizer presente. Esta é a lei do Amor e causa, motivo, justificação ou explicação de você estar no mundo.

E foi a partir daquele dia, que a menina aprendeu tudo sobre o Mistério dos Porquês. Enfim, entendera que todos eles respondem a uma única pergunta:

"- E se o outro fosse você, como gostaria de ser tratado?"

Um comentário:

chica disse...

Que linda história, do inicio ao fim... Lembrei desse filme e do quanto chorei nele... Bem profundas tuas colocações e questionamentos.
Há tantos porquês e mistérios e adorei a resposta..Levanta-te e vai fazer e oferecer o lanche aos que não tem. realmente cada um pode e deve fazer o que está ao alcance e não esperar o milagre vir do Alto ou dos outros. Beleza! beijos, linda semana,chica