Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sábado, 16 de outubro de 2010

Enquadrar-se






Escreva em 20 ou até 25 linhas sobre o tema: enquadrar-se. Essa é a proposta do professor de redação em sala de aula.

De imediato, reflito: não consigo, pois o que penso e o que sou é a antítese do que ele me pede. Não me enquadro nem nas linhas, nem no tema. Pra falar a verdade, eu me desenquadro no geral...

Vivo à margem de qualquer conceituação do que seja moderno, principalmente, se isso faz referência ao amor. Este sentimento que hoje é colocado nos balcões da vida como mercadoria e que compra quem tem mais dinheiro, status ou poder.

Para enquadrar-me nos moldes atuais, eu teria que abrir mão da minha individualidade... Desconstruir-me. Negar a matéria dos meus sonhos e esse amor tão antigo, que aprendi a amar, amando.

Tudo o que sei sobre esse sentimento é inegociável, sobretudo, porque a moeda pelo qual ele foi adquirido saiu de circulação. Paguei por ele o preço da admiração, do respeito, da compreensão, da tolerância e do perdão. Sentimentos e palavras em desuso, mas que humanizam e que na realidade estamos sempre a cobrar do outro como se fôssemos perfeitos.

Para enquadrar-me eu teria que abrir mão ainda de detalhes que enriquecem as minhas histórias de amor e que guardo nas gavetas da memória como jóias raras... Para alguns são miudezas, bugigangas e quinquilharias que nada acrescentam, mas para mim são como brilhantes que reluzem e dos quais eu não abro mão, nem os trocaria por todo dinheiro do mundo.

São bens e atitudes de valores inestimáveis, entre outros: uma pequena flor colhida no mato, um conjunto de ferramentas para cuidar do jardim, uma tesoura para cortar o frango e uma pequena caneca para tomar café. Presentes que me foram dados por pessoas que cumpriram à risca o manual do bom amor: aquele que se importa com o outro, que sente a necessidade e se antecipa e, principalmente, aquele que se dispõe a gastar o seu tempo, para acender uma fogueira e ouvir a pessoa amada até a queima do último carvão.

Alguns dirão: - Que simplório! Quanto romantismo fora de época!

Ao que eu respondo: - é por isso que eu não me enquadro! Nem nas linhas, nem no tema. Sou adepta dos valores, das atitudes e dos amores antigos... Anacrônicos. E, além disso, já deixei por escrito que ao morrer, quero ser cremada e que as minhas cinzas sejam espalhadas por todos os lugares: calçadas, ruas e praças por onde andei de mãos dadas com os amores da minha vida. Lugares que contam um pouco da minha história. Uma história que venceu o tempo e que tem um sentimento com gosto de eternidade.

Por tudo isso, decididamente, eu não me enquadro nesse pós-modernismo que a tudo comercializa até mesmo o amor, transformando sentimentos, valores e pessoas em marionetes a serviço da propaganda, do consumo e da vaidade exacerbadas.

Sou uma moldura antiga... Uma peça que se desenquadra em 61 linhas e que está fora de uso... Démodé!

5 comentários:

Solange disse...

Juliêta...

você enquadra-se naquele grupo de pessoas que sabem de verdade o que é o amor...

e que o Universo permita que você divida com seus amores muitas e muitas flores colhidas no mato...

you're so special....

beijo carinhoso

lis disse...

Oi Juliêta
Entendo voce e também me sinto assim, com dificuldade pra me enquadrar nesse mundo doido.
onde ficaram os valores ?
creia que é a sua moldura que merece estar exposta na sala .
que possamos ver nossos filhos seguindo nosso exemplo e nao se enquadrando a mentiras e superficialidades.
deixo um abraço e muita suadade de voce!

Ives disse...

Não se enquadre nunca rss adorei o seu blog, se me permitir, a seguirei, abraços

Libel disse...

Nossa acho que vai ter de abrir uma galeria amiga, daquelas bem grandes, iluminadas e cheia de cantinhos românticos, aqueles com que sonhamos a vida toda, cada um com sua história, sua pintura, seu desenho, sua tela, seu momento, sua vida. Cada um com sentimento espelhado, com significado e atitude, emoldurando as batidas do seu coração!!...

Estou me juntando nesse grupo de pessoas sem enquadramento nas modernices, estou contigo nessa moldura demódê, e sabe de uma coisa??...Estou me sentidndo muito bem!!...

Beijokas amiga linda
Deixo meu abraçinho ternurento e algumas cores novas para novas pinturas, isso sim, se enquadra sempre, desde que...à nossa maneira e do nosso jeito!!...

Carlos disse...

O amor não se explica...se sente!
Tenho um amor sublimado por um desses anjos com as qualidades a que se refere, embora, longe de meus olhos que quando lacrimejam, a sua lembrança, falam mais que palavras.Seja sempre esta pessoa ímpar, amando com a meiguice de uma criança. Abraço fraterno.