Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Silêncio da Alma





Os momentos pontuados pelo silêncio são inesquecíveis... Neles, o verbo cala e a alma, feito criança, espalha lembranças, saudades e brinca com o tempo. Passa a vida a limpo... Silenciosamente.

Há dias em que estou assim: silente! E, se me perguntam, por quê? Eu respondo: - a nudez das palavras ainda veste os meus lábios de poesia, mas me calo... Não quero mais pagar a fatura do abandono, da rejeição e do esquecimento com as minhas letras encharcadas de amor. Cansei!

E, por conta disso, vivo brigando com o tempo verbal da minha escrita. Valho-me da irregularidade do verbo ser para criar as minhas contradições. Ora conjugo-o no pretérito e peço abrigo ao passado, para não expor a nudez dos meus sentimentos; ora no presente, assumindo de vez a incoerência nas minhas palavras e reafirmando esse amor que nego tanto.

Alguns dirão que sou uma fraude! Mas, a quem interessa as minhas dores?

Escrever, nesse caso, é alinhavar palavras que doem, é expor a alma em doses homeopáticas, é lamber as feridas através do verbo, é tocar de leve na dor que lhe consome quando, na verdade, o fogo e o desespero lhe queimam por dentro, e o que você mais deseja é cobrar a fatura desse sofrimento que lhe rouba a paz e o sossego.

Por isso, me calo, distanciando-me do barulho e da nudez das palavras que denunciam a minha dor. Vivo apenas as lembranças e as saudades que cabem dentro de mim e, que não me comprometem, nem fazem sofrer.

Ao transitar, nesse momento, entre o passado e o presente, estabeleço um embate entre o desejo de falar sobre esse amor e as ranhuras que ele me fez, mas... Vence o silêncio da alma.