Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Saindo do Armário








Há um par de sapatos querendo sair do armário... Vermelho! Com ele, ela pretende palmilhar por caminhos nunca antes percorridos...

Foram anos dentro das prateleiras das convenções, sufocando desejos e abrindo mão de suas fantasias, mas, agora... Chega! A montagem do cenário, daqui para frente, será de sua autoria. Essa peça será encenada, custe o que custar, pensou.

Carregada de urgência e expectativa ela calçou os sapatos e, subitamente, viu a sua imagem refletida no espelho... Lembrou-se dos anos passados. Um mar de prata cobria-lhe os cabelos. Não importa, disse para si mesma! “Não há limite de idade para o desvario”. E, seguiu...


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Escolhas



Escolhas! Tudo na vida é escolha. Quando opto pela direita esqueço a esquerda; quando traço um caminho de linhas retas distancio-me das curvas; se desejo o novo desapego-me do velho. Tem sido sempre assim: uma hora ou outra tenho que decidir.

Passaram-se os anos, enquanto me recusava a ouvir os ponteiros do relógio marcar o tempo e selecionar as horas que me restavam de juventude. Fiz-me surda às urgências da vida e ao passar veloz dos dias e, tal qual um oleiro, fui moldando a argila dos meus sonhos de maneira que neles só coubesse a certeza de que, um dia, tudo enfim daria certo. Acreditei que tinha a posse da eternidade e fiquei à mercê das minhas fantasias.

Nesse meio tempo, criei um personagem e, delicadamente, dei-lhe forma; um sopro de vida. Pronto, nasceu o amor! Não, o real, mas aquele fruto do meu desejo e da minha imaginação. Então, passei anos a fio esperando por ele, até perceber que vesti os dias com a fantasia dos meus sonhos e que, na realidade, esse amor nunca existiu. Não, como eu o tinha imaginado... Foi aí que resolvi que já estava mais do que na hora de fazer uma escolha: não contar mais os dias pelos sonhos acalentados, deixar que as páginas da vida se lançassem ao sabor dos ventos e que a história traçasse o seu próprio percurso, sem a interferência da minha vontade. Uma decisão que iria me tirar da zona de conforto, onde tudo era poesia, e me expor, às vistas, o amor como era na realidade...

O que devo fazer para levar essa determinação adiante, perguntei-me?

- Ressignifique o amor! Disse-me a voz da razão. Insatisfeita, voltei à questão:

- Será essa a solução para as minhas dores? Existirá uma maneira de fazer esse afeto dar certo, sem que eu perca a minha essência? Pois, à medida que me deixo levar por ele vou ficando, cada vez mais, distante de mim mesma: esvaziada, despedaçada, desarticulada...

E, entre um pensamento e outro, indaguei-me novamente:

- Com quantos sim e não eu posso construir o castelo que vai abrigar esse sonho tão desejado? Pois, se sou companheira e adoço a vida com açúcar e com afeto, ele, o amor, dizendo-se cansado e entediado, foge da rotina e procura as damas da noite com as suas bocas carmesins. Quando ofereço a constância e a fidelidade do meu sentimento, sente falta da indiferença, do jogo e do faz- de- conta que as “outras” usam para manipular as relações afetivas... É sempre assim: ofereço o dia, ele quer a noite. Oferto a noite, ele deseja o vazio...

Afinal de contas, existe a possibilidade de uma escolha sensata, que abrigue, ao mesmo tempo, o desejo de amar e ser amada  e o de permanecer fiel a minha essência?

- A resposta pareceu-me apontar para o óbvio: existe! Pois, como já escreveu alguém: - “ Minha felicidade sou eu, não você. Não só porque você pode ser temporário, mas também porque você quer que eu seja o que não sou”.

Por isso, decidi:

- A partir de hoje deixo que a vida escreva em minhas páginas, um novo capítulo, onde o amor “ressignificado” possa contar uma história real e mais feliz do que as que eu tenho vivido até esse momento... Fiz minha escolha.