Reconstruindo Caminhos

Reconstruindo Caminhos
Escrevo porque chove saudades no terreno das minhas lembranças e na escrita eu deságuo as minhas urgências, curo velhas feridas e engano o relógio das horas trazendo o passado para brincar de aqui e agora... Costumo dizer que no calçadão da minha memória há sempre uma saudade de prontidão à espreita de que a linguagem da emoção faça barulho dentro de mim e que, nessa hora, o sal das minhas lágrimas aumente o brilho do meu olhar e uma inquietação ponha em desalinho o baú de onde emergem as minhas lembranças, para que eu possa, finalmente, render-me à folha de papel em branco...

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Meus Filhos




Quando, um dia, eu não estiver mais entre vocês, por favor, não me rendam homenagens. Quero-as, em vida! Não esperem pela última pá de terra, para falar sobre  seus amores.

A vocês, hoje, eu peço um pouco do que lhes dei a vida inteira: paciência, tolerância, perdão, compaixão e renúncia. Amor, carinho e ternura também fazem parte do pacote. Afinal de contas, ninguém vive só de leite materno... Não, por favor, não me digam, novamente, que não pediram para nascer. Eu, também não! Mas estou aqui, firme e forte, fazendo aos outros aquilo que gostaria que fizessem a mim.

Peço-lhes, ainda, encarecidamente, que não me chamem de perversa, cruel e mesquinha quando, na tentativa de formar cidadãos decentes, eu negar-lhes algo; nem sintam repulsa por mim quando me virem estendida no leito, doente e solitária, pois, um dia, eu já os vi assim, doentes e solitários, e, na ocasião, me doei inteira...

Quando a última pá de terra descer sobre o meu caixão, não sintam por mim – eu não estarei mais aqui – e, sim, por vocês... O tempo, esse juiz magnânimo para uns e padrasto para outros, irá desenhar o caminho que vocês irão percorrer e, a mãe vida, essa senhora do destino de todos nós, trará de volta todos os gestos e palavras de amor que, ao longo dos anos, vocês me negaram. Aí, vai doer não mais em mim...

Finalmente, quando um dia, eu não estiver mais aqui, não chorem por mim. Apenas, leiam o que escrevi... E, se nada disso fizer sentido, não se preocupem. A vida se encarregará de ensinar-lhes o que precisam aprender, pois o tempo é, e sempre será, o senhor da razão.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O Relógio e Eu



Olho para o relógio na parede. Ele conta as horas, eu conto os sonhos...

Em meu voo, pelos dias da maturidade, penso no tempo, essa areia que escorre por entre os dedos e nos rouba as mais belas horas de nossas vidas... Solto a imaginação e vou à procura da "natureza recém-lavada" dos meus sonhos juvenis. Vejo que nada mudou, apenas acrescentou-se mais um número no calendário da minha vida. Um "relâmpago de fulgor extraordinário" continua a iluminar o adiantado das horas, como se o ponteiro do relógio fosse pródigo em retardar o meu destino de ser feliz, apesar da passagem do tempo. Então, eu me pergunto:

- De que me vale um relógio na parede, com seus ponteiros austeros indicando que a vida está passando e que a terra dos meus sonhos vem sendo calcinada pelos dias que correm? Ah, certamente ele, o relógio, em seu movimento solitário tic... tac, tic... tac, não compreende a linguagem dos sonhos... Sonhos, não têm idade! Em um minuto vêm e vão sem fazer perguntas, sem saber de cronologias. Mas, o tempo impiedoso, em sua pressa de chegar, só quer saber de rituais de despedidas, com os seus pores do sol anunciando, diariamente, a morte do dia. Ele nem sabe como é bom viver apaziguada com os mistérios da vida e suas inesperadas reviravoltas, que independem da matemática dos números e da tirania das horas, que seguem indiferentes e alheias a nossa vontade.

Olho o relógio na parede. Ele conta as horas, eu conto sonhos... Um poder estranho e arrebatador me invade e me faz reconciliada com os meses que passam. Tudo está em seu lugar: o marcador das horas e eu. Ele segue ensimesmado em seu controle sobre o tempo e eu, perdulária perpétua, esbanjo a vitalidade das minhas fantasias e, asas estendidas, alço voo em direção ao futuro que me espera com um largo sorriso de felicidade.

Ah, o tempo! Ele sabe passar e eu não sei... Impiedoso, triunfa sobre as minhas carnes acentuando as minhas rugas, mas a minha alma se rebela e eu sigo... Vitoriosa! Contando os sonhos e aproveitando o dia.


sábado, 8 de fevereiro de 2014

A Pessoa É Para O Que Nasce



Há dias em que estou assim... Sem chão! Uma tempestade emocional coloca em polvorosa o meu coração e me vem um enorme desejo de voltar ao quintal da infância, para resgatar aquela menina sonhadora que sempre fui e que anda perdida nas páginas da vida, escrevendo um texto que não é o seu. Nessas horas, ouço os sussurros da minha alma e viajo por cenários que a borracha do tempo vem tentando, em vão, apagar.

Então, olho para a tela do computador e lembro-me da frase: - “A Pessoa É Para O Que Nasce”, título de um filme - do diretor Roberto Berliner - sobre a vida de três irmãs com deficiências visuais, que residem no interior do nordeste brasileiro e ganham a vida cantando nas ruas.

Não vi o documentário, mas a expressão em negrito fez aflorar o meu desejo de ser quem sempre fui... Desejo que se contradiz com o que as pessoas esperam de mim e, até mesmo, com o que, às vezes, pressionada por cobranças internas, também, quero.

Tomando como ponto de partida o título do filme, eu sinto vontade de ir aos recônditos da minha alma, onde hospedo as palavras mais doces e ternas, para tirá-las do seu anonimato, assumindo, sem pudores, que nasci para ser exatamente assim como sou: uma romântica incorrigível, daquelas que ao menor sinal de que a canção da chuva vem produzir os primeiros sons na janela do seu quarto, já se deixa derramar lânguida na tela do computador e sobre a cama dos seus sonhos.

Porém, ao longo dos últimos anos, venho tentando construir com as palavras uma personagem, que destoa de mim quando estou nos bastidores da minha alma ou nas coxias do meu silêncio. Nessas horas, eu me pergunto:

- Quantos de nós ousamos viver de acordo com os ditames do coração? Quantos de nós somos capazes de seguir, de nadar contra a correnteza da opinião alheia? Quantos de nós temos legitimidade para segurar a bandeira da liberdade e dizer: essa sou eu!

Vivemos em uma sociedade onde seguir em bando dá segurança, apesar de gerar frustrações que se propagam pelos anos afora, provocando uma corrida desnecessária aos laboratórios farmacêuticos. Somos uma “metamorfose ambulante” buscando um lugar ao sol para aquecer o inverno da nossa alma, mesmo que isso implique em anular a nossa essência...

Por isso, ao olhar para a tela do computador e lembrar-me da frase escrita acima, aproprio-me de um trecho da letra do cantor Raul Seixas para escrever: “Eu quero dizer/ Agora o oposto do que eu disse antes”:

-“A Pessoa É Para O Que Nasce”... E, eu serei sempre uma romântica incorrigível.